Arquivo para Setembro, 2009

26
Set
09

Richard Dawkins – O Maior Espetáculo da Terra

Criacionistas, agora eles estão vindo pegar suas crianças

As pessoas que rejeitam a teoria da evolução deveriam ser colocadas lado a lado com aquelas que negam o holocausto, declara o autor do novo e controverso livro.

Richard Dawkins

Richard Dawkins

Richard Dawkins

Traduzido por Vinícius Morais Simões: http://vsimoes.wordpress.com

Imagine que você é um professor de História Romana ou de Latim, ansioso para transmitir o seu entusiasmo pela Antiguidade Clássica – pelas elegias de Ovídio e pelas odes de Horácio, pela vigorosa economia da gramática latina como exibida na oratória de Cícero, as belezas estratégicas das Guerras Púnicas, o gênio estratégico de Júlio César e os excessos voluptuosos dos últimos imperadores. Este seria um grande empreendimento que tomaria muito tempo, concentração e dedicação. Ainda assim você encontraria o seu tempo continuamente prejudicado, a atenção da sua classe distraída, pelos latidos de uma matilha de ignoramuses (que como professor de latim você entenderia que seria o jeito certo de declinar ignorami) [1] que, com apoio político e especialmente financeiro, espalham aos quatro ventos que os romanos nunca existiram. Que nunca houve um Império Romano. Que o mundo inteiro veio a existir apenas um pouco antes do tempo de que temos memória. Que o espanhol, o italiano, o francês, o português, o catalão, o ocittânico e o romanche, todas essas línguas e os dialetos que as constituem surgiram espontânea e separadamente, e que nada devem a um ancestral chamado latim.

Ao invés de devotar toda a sua atenção para a nobre vocação de ser um erudito e professor, você é obrigado a investir parte do seu tempo e energia para a retrógrada defesa do pressuposto de que os romanos realmente existiram: uma defesa contra a exibição de um preconceito ignóbil que poderia fazê-lo chorar caso você não estivesse tão ocupado lutando contra ele.

Se a minha analogia sobre o Professor de Latim lhe pareceu por demais irreal, aqui está um exemplo mais realista. Imagine-se um professor de história mais recente, e que as suas lições sobre a Europa do Século XX são boicotadas, impedidas ou interrompidas de outra forma por grupos bem organizados e bem financiados assim como grupos políticos musculosos de negadores do holocausto. Diferente dos meus improváveis negadores do Império Romano, os negadores do Holocausto realmente existem. Eles se expõem razoavelmente, são superficialmente preparados e adeptos do aprendizado aparente[2]. Eles recebem apoio do presidente de pelo menos um grande estado atual, e contam com o apoio de pelo menos um bispo da Igreja Católica. Imagine que, como professor de História da Europa, você é continuamente encarado com exigências beligerantes tais como a de “ensinar a controvérsia” e a dar “tempos iguais” para a “teoria alternativa” de que o Holocausto nunca aconteceu e que foi inventado por um bando de farsários sionistas.

Os adeptos da moda do relativismo intelectual seguem o rastro afirmando que não existe verdade absoluta: que acreditar que o Holocausto aconteceu ou não é uma questão de crença pessoal, que ambos os pontos de vista são igualmente válidos e, portanto, devem ser igualmente “respeitados”.

O fardo que muitos professores de ciência têm que carregar hoje em dia não é necessariamente mais leve. Quando eles tentam expor o princípio fundamental e norteador da biologia, quando tentam honestamente colocar o mundo dos seres vivos em seu contexto histórico – que é o contexto da evolução; quando exploram e explicam a verdadeira natureza da própria vida, eles são assolados e impedidos, importunados e achincalhados, e até ameaçados com a perda de seus empregos. No mínimo têm o seu tempo desperdiçado todas as vezes. É comum eles receberem cartas ameaçadoras de pais e terem de suportar os gracejos sarcásticos assim como as atitudes resilientes dos seus alunos vítimas de lavagem cerebral. Eles são providos com o fornecimento de livros-texto aprovados pelo Estado nos quais a palavra “evolução” foi sistematicamente expurgada, ou esvaziadas em “mudança através do tempo”. Há um tempo atrás nós nos sentimos tentados a rir um bocado disso como se fosse um fenômeno peculiarmente estadunidense. Agora os professores da Grã Bretanha e da Europa enfrentam os mesmos problemas, em parte por causa da influência estadunidense, mas mais particularmente por causa do crescimento da presença islâmica nas salas de aula – em cumplicidade com o comprometimento oficial com a “diversidade cultural” e o terror de ser visto como racista.

Frequente e pertinentemente tem se afirmado por aí que padres e teólogos não têm desavenças com a teoria da evolução e que, em muitos casos, efetivamente apóiam cientistas que tratam desse assunto. Isso geralmente é verdade, como tive a oportunidade de testemunhar em uma experiência positiva de colaboração com o antigo Bispo de Oxford, agora conhecido como Lord Harries, em duas diferentes ocasiões. Em 2004 nós escrevemos um artigo conjunto no The Sunday Times cujas palavras de conclusão foram: “Hoje em dia não há o que se debater. A Evolução é um fato e, de uma perspectiva cristã, um dos maiores trabalhos de Deus”. A última sentença foi escrita por Richard Harries, mas nós concordamos a respeito de todo o resto do artigo. Dois anos antes, o Bispo Harries e eu tínhamos redigido uma carta conjunto endereçada ao Primeiro Ministro da Inglaterra, Tony Blair.

[Na referida carta, cientistas e religiosos eminentes, incluindo sete bispos, expressaram suas preocupações relativas ao ensino da evolução e o seu alarme relativo à exposição desse ensino como uma “questão de fé” na Universidade Tecnológica da Cidade de Emmanuel, em Gateshead.] O Bispo Harries e eu elaboramos essa carta às pressas. Se não me falha a memória, os signatários da carta constituíam 100% das pessoas às quais pedimos apoio. Não houve desacordo tanto por parte dos cientistas quanto dos bispos.

O Arcebispo de Canterbury não possui desacordos com a evolução, assim como o Papa também não possui (tirando ou pondo a estranha hesitação a respeito do instante paleológico onde a alma humana teria sido inserida), sequer possuem os educados padres e professores de teologia. O Maior Espetáculo da Terra é um livro que trata da evidência positiva de que a evolução é um fato. Não tem a pretensão de ser um livro anti-religião. Eu já fiz isso, essa é a estampa de outra camiseta, e não é a hora nem o lugar para vesti-la novamente. Os Bispos e Teólogos que atenderam ao chamado das evidências da evolução na verdade desistiram de lutar contra elas. Alguns deles podem fazer isso de maneira relutante, alguns, como Richard Harries, entusiasticamente, mas todos exceto os lamentavelmente desinformados são obrigados a aceitar a existência da evolução.

Eles podem pensar que Deus tem sua parte nisso ao dar o pontapé inicial, e talvez tenha retirado sua mão ao invés de guiar seu progresso futuro. Eles provavelmente pensam que em primeiro lugar Deus criou o universo e, depois disso, solenemente celebrou o seu nascimento instituindo um conjunto de leis e constantes físicas devidamente calculadas para preencher a algum propósito inescrutável no qual nós eventualmente representamos algum papel.

O que nós não devemos fazer é complacentemente assumir que, por que bispos e teólogos devidamente educados aceitam a teoria da evolução, assim o fazem suas congregações. Inclusive amplas pesquisas de opinião provam justamente o contrário. Mais de 40% dos americanos não aceitam a afirmação de que os humanos podem ter evoluído a partir de outros animais e pensam que nós – e por conseqüência toda a vida – fomos criados por Deus dentro dos últimos 10.000 anos. Essa estatística não é tão alta na Grã Bretanha, mas ainda assim é preocupantemente alta. E deveria ser tão preocupante às igrejas quanto o é para cientistas. Este livro é simplesmente necessário. Eu deveria usar o nome “negacionistas” [3] para me referir às pessoas que negam a evolução: aqueles que acreditam que a idade do mundo pode ser medida em apenas milhares de anos, ao invés de bilhões de anos, assim como quem acredita que os humanos viveram à mesma época dos dinossauros.

Para enfatizar, essas pessoas constituem mais de 40% da população estadunidense. A estatística equivalente possui índices maiores em alguns países, menores em outros, mas 40% é uma boa média e eu posso porventura me referir a esses negacionistas como membros do “time dos quarenta por cento”.

Voltando aos iluminados bispos e teólogos, seria interessante se eles também se esforçassem um pouco para combater todas as afirmações nonsense e pseudo-científicas que eles mesmos reprovam. Todos os bons religiosos, ao mesmo tempo em que concordam que a teoria da evolução é verdadeira e que Adão e Eva na verdade nunca existiram, alegremente vão aos seus púlpitos realizar alguma exposição moral ou intelectual a respeito das histórias de Adão e Eva em seus sermões mas se esquecem de mencionar, vejam vocês, que Adão e Eva na verdade nunca existiram! Quando são desafiados, eles irão protestar dizendo que a passagem possui uma conotação puramente “simbólica”, talvez relativa a um “pecado original”, ou relativa às “virtudes da inocência”. Eles poderiam timidamente acrescentar que, obviamente, nenhuma pessoa seria tão tola a ponto de interpretar literalmente suas palavras. Mas será que suas congregações sabem disso? Como pode a pessoa do banco da igreja, ou do tapete de orações saber quais partes das escrituras ela deve interpretar literalmente e quais deve interpretar metaforicamente? Será que é realmente fácil para um fiel adivinhar isso? Em muitos casos a resposta é simplesmente não, e qualquer pessoa pode ser perdoada por se sentir confusa quanto a isso.

Pense nisso, Bispo. Seja cauteloso, Vigário. Vocês estão brincando com dinamite, fazendo brincadeiras com um mal entendido que está prestes a se revelar – algumas pessoas diriam que obrigatoriamente iriam acontecer a não ser que fossem previamente impedidas. Não deveriam vocês tomarem maiores cuidados, ao falar em público, para o seu sim ser entendido como sim e o seu não como não? Para não cair em condenação, não deveriam vocês mudar suas trajetórias para esclarecer o já amplamente divulgado mal entendido e emprestar apoio entusiástico e ativo aos cientistas e professores de ciências? Os próprios negacionistas fazem parte do grupo de pessoas que estou tentando alcançar. Mas, talvez mais importante, eu tenho por objetivo dar instrumentos a aqueles que não são mas conhecem negacionistas – talvez membros da sua própria família ou igreja – e que se encontram insuficientemente preparados para discutir a questão.

A Evolução das Espécies é um fato. Além do benefício da dúvida razoável, além do benefício da dúvida séria, além da dúvida sã, inteligente e informada a evolução é um fato. A evidência para a evolução é pelo menos tão forte quanto as evidências para o Holocausto, mesmo que consideremos testemunhas oculares do Holocausto. É uma verdade cristalina que nós somos primos dos chimpanzés, primos algo mais distantes dos macacos, primos ainda mais distantes dos aardvarks[4] e peixes-boi, e primos ainda mais distantes das bananas e dos nabos … continue a lista como desejar. Isso não precisava ser verdade. Não é auto evidente, tautológica ou obviamente verdadeiro, e houve um tempo onde a maioria das pessoas, mesmo as pessoas mais educadas, pensavam que não era. Isso não precisava ser verdade, mas é. Nós sabemos disso por que um rio transbordante de evidências assim o diz. A Evolução é um fato, e o [meu] livro irá demonstrá-lo. Nenhum cientista que tenha o mínimo de reputação contesta essa afirmação, e nenhum leitor que faça uma leitura imparcial irá fechar o livro duvidando dela.

Por que então falamos da “Teoria Darwiniana da Evolução”, dando, portanto, um conforto espúrio para a persuasão criacionista – como os negacionistas, ou membros do “time dos quarenta por cento” – que pensam que a palavra “teoria” é uma concessão, entregando lhes algum tipo de presente ou vitória? A evolução é uma teoria da mesma forma que o heliocentrismo o é. Em nenhum dos casos a palavra “apenas” deveria ser usada como na sentença “apenas uma teoria”. Para aqueles que afirmam que a evolução nunca foi “provada” é bom saber que a prova é uma noção que os próprios cientistas tratam com desconfiança.

Inclusive alguns filósofos influentes nos dizem que na ciência não podemos provar coisa alguma.

Matemáticos podem provar algumas coisas – de acordo com uma visão bastante estrita, eles são as únicas pessoas que podem – mas o melhor que cientistas podem fazer é fracassarem na tentativa de negar hipóteses enquanto chamam a atenção para o fato de quão arduamente tentaram fazer isso. Até a não disputada teoria de que a Lua é menor do que o Sol não pode, para a satisfação de certos tipos de filósofos, ser provada da mesma forma que, por exemplo, o Teorema Pitagórico pode ser provado. Mas o acréscimo massivo de evidências apóiam a teoria tão bem que negar a ela o status de “fato científico” parece ridículo a todas as pessoas com exceção dos pedantes. O mesmo é verdade para a evolução. A evolução é um fato da mesma forma que é um fato que Paris se situa no hemisfério norte. Apesar das navalhas lógicas[5] dominarem a cidade, algumas teorias estão além da dúvida sensível, e nós as chamamos de fatos. Quanto mais enérgica e meticulosamente você tentar refutar uma teoria, se ela sobrevive ao assalto, mais ela se aproxima daquilo que o senso comum alegremente chama de fato.

Nós somos como detetives que chegam à cena do crime momentos depois do mesmo ter sido cometido. As ações do assassino simplesmente se perderam no passado.

O detetive não tem esperança alguma de testemunhar o verdadeiro crime com seus próprios olhos. O que o detetive realmente tem são vestígios que perduram, e é um bom negócio acreditar nesses vestígios. Existem as pegadas, as digitais (e hoje em dia também as assinaturas genéticas), as marcas de sangue, cartas, diários. O mundo é exatamente da forma que deveria ser caso essa e essa história, e não aquela e aquela, tivessem nos trazido até o presente.

A evolução é um fato inescapável, e nós deveríamos celebrar o seu surpreendente poder, simplicidade e beleza. A evolução está dentro de nós, ao nosso redor, e seus trabalhos estão gravados nas pedras das eras passadas. Dado isso, em muitos casos, nós não vivemos o suficiente para assistir à evolução acontecendo diante de nossos olhos, nós devemos revisitar a metáfora do detetive que chega à cena do crime depois do ocorrido e tirando conclusões. Os instrumentos de análise que levam os cientistas a concluir que a evolução é um fato são de longe mais numerosos, mais convincentes, mais incontroversos do que o relato de qualquer testemunha ocular que já foi usado em qualquer tribunal, em qualquer século, para a comprovação de culpa em qualquer crime. Provas além da dúvida razoável? Dúvida razoável? Esse é o maior eufemismo de todos os tempos.

© Richard Dawkins 2009

Retirado do livro O Maior Espetáculo da Terra, a ser publicado na Inglaterra pela editora Bantam Press no dia 10 de Setembro pelo preço de 20 libras.

Leia também A verdade que os cães revelam acerca da evolução retirado do segundo capítulo do livro O Maior Espetáculo da Terra.


[1] Que significa ignorantes.

[2] No original adept at seeming learned

[3] Como o vocábulo já existente relativo a pessoas que negam determinados fatos históricos N. do T.

[4] O aardvark (nome científico Orycteropus afer) é um mamífero africano, único representante vivo da ordem Tubulidendata, da família Orycteropodidae e do seu gênero. Fonte: Wikipédia.

[5] Uma passagem retirada de algum livro do poeta inglês W. B. Yeats que aparece no original como logic choppers. Na versão original do texto o autor declara não ser essa uma das passagens prediletas de Yeats mas ainda assim apropriada à situação. N do T.

15
Set
09

O Currículo das Seis Lições

De John Taylor Gatto, o Professor do Ano do estado de Nova Iorque de 1991

Traduzido por Vinícius Morais Simões http://vsimoes.wordpress.com

Por favor me chame de Mr Gatto. Há vinte e seis anos atrás, não tendo encontrado nada melhor para fazer, eu decidi trabalhar como professor. Meu diploma me dá licença para trabalhar como um professor de Língua e Literatura Inglesa, mas isso na verdade não tem nada a ver com o que eu realmente faço. Na verdade eu ensino sobre como as escolas funcionam, sendo que inclusive ganho prêmios fazendo isso.

Ensinar pode significar muitas coisas diferentes, mas existem seis regras pedagógicas que são comuns desde o Harlem até Hollywood. Você paga por essas lições por mais maneiras do que você imagina, portanto é bem possível que você reconheça que lições são essas:

A primeira lição que eu ensino é: “Mantenha-se à classe à qual você pertence”. Eu não sei quem é a pessoa que decide qual aluno pertence a qual classe mas também não tenho nada a ver com isso. As crianças recebem números de forma que se qualquer uma resolver fugir poderá ser devolvida para a sua respectiva classe. Através dos anos a variedade de formas que as crianças podem ser classificadas e enumeradas aumentou dramaticamente, de forma inclusive a tornar difícil perceber o ser humano por detrás da montanha de números que cada estudante carrega. Classificar e enumerar crianças é um negócio grande e lucrativo, apesar de não ser muito claro o objetivo por detrás de tal negócio.

De qualquer forma, eu também não tenho nada a ver com isso. Minha função é fazer as crianças gostarem – de ficar trancadas juntas, quero dizer – ou ao menos, suportarem isso. Se as coisas prosseguirem de acordo, as crianças não se imaginarão em nenhum outro lugar ; elas irão invejar e temer as melhores turmas e terão desprezo pelas piores turmas. Assim a classe se mantém em boa ordem. Essa é a verdadeira lição de qualquer arena de competição como a escola. Você acaba conhecendo o seu devido lugar.

Entretanto, apesar do esboço desenhado, eu faço um esforço para incentivar as crianças a alcançarem os maiores resultados nos testes, prometendo uma possível promoção inter-classe como recompensa. Eu insinuo que chegará um dia no qual o empregador irá contrata-los com base nos resultados desses testes, mesmo apesar da minha experiência pessoal dizer que os empregadores são (acertadamente) indiferentes a tais coisas. Eu nunca minto descaradamente, mas acabei chegando à conclusão de que verdade e educação escolar são coisas incompatíveis.

A lição por detrás da enumeração das turmas é a de que não há forma de escapar de sua classe a não ser por mágica. Até isso acontecer você deve permanecer aonde foi colocado.

A segunda lição que eu ensino às crianças é a de se ligarem e se desligarem como tivessem interruptores. Eu solicito que elas se envolvam completamente com as minhas aulas, pulando de suas cadeiras por antecipação, competindo vigorosamente umas com as outras pelos meus favores. Mas quando toca o sinal eu insisto que eles abandonem o trabalho logo de uma vez e se dirijam o quanto antes à próxima estação de trabalho. Nada de importante é acabado nas minhas aulas, ou em qualquer outra classe da qual eu tenha ouvido falar.

A lição por detrás dos sinais é a de que já que nenhum trabalho é digno de ser terminado, por que se preocupar profundamente a respeito de qualquer coisa? Os sinais são a lógica secreta do período escolar; o seu argumento é inexorável; os sinais destroem o passado e o futuro, convertendo todo e qualquer intervalo em uma mesmice, da mesma forma como um mapa abstrato tornam iguais a todo rio e montanha, apesar de na verdade não serem. Os sinais atenuam os efeitos de qualquer comprometimento através da indiferença.

A terceira lição que eu ensino é a de submeter todos os seus desejos a uma pré-destinada cadeia de comando. Direitos podem ser garantidos ou tolhidos, pelas autoridades, sem direito a apelação. Como um professor de escola eu intervenho em muitas decisões pessoais, garantindo um passe livre para aquelas que eu julgo legítimas, ou para os estudantes que iniciam um confronto contra todo e qualquer comportamento que soe como uma ameaça ao meu controle. Meu julgamento vem rápido e afiado, por que a individualidade está constantemente tentando se auto afirmar na minha sala de aula. Individualidade é uma maldição para todos os sistemas de classificação, uma contradição à teoria das turmas escolares.

Aqui estão alguns exemplos de como a coisa se apresenta: algumas vezes os alunos dão uma escapadinha para o banheiro sob o pretexto de satisfazer suas necessidades de forma a garantir um momento a sós; eles me surrupiam um momento a sós no corredor sob o pretexto de que precisam tomar água. Algumas vezes a vontade própria aparece bem na minha frente na forma da raiva, depressão e revigoradas por coisas além da minha alçada. Em tais situações, para alunos, não existem direitos e sim apenas privilégios, que podem ser retirados.

A quarta lição que eu ensino é que quem determina o currículo do que você irá estudar sou eu. (Preferivelmente eu apoio decisões transmitidas a mim pelas pessoas que pagam meu salário). Este poder me permite separar os bons alunos dos maus alunos instantaneamente. Bons alunos realizam as tarefas que eu proponho com um mínimo de conflito e talvez até uma demonstração mínima de entusiasmo. Das milhões de coisas valorosas que uma pessoa poderia aprender, sou eu quem decide para quais delas nós vamos ter tempo. As escolhas são minhas. Não há espaço para a curiosidade no meu trabalho, apenas para a conformidade.

Os maus garotos lutam contra isso, é claro, tentando aberta ou dissimuladamente tomar decisões por conta própria a respeito do que eles irão aprender. Como nós podemos fazer isso e sobreviver como professores? Afortunadamente existem procedimentos que servem justamente para vencer a força de vontade daqueles que resistem.

Essa é outra forma através da qual eu ensino a lição de dependência. Boas pessoas esperam que um professor lhes diga o que fazer. Essa é a lição mais importante de todas, a de que nós devemos esperar que outras pessoas, melhor qualificadas do que nós, nos ditem o sentido de nossas existências. Não é exagero nenhum dizer que toda a nossa economia depende do aprendizado dessa lição. Pense no prejuízo que adviria do fato das crianças não serem devidamente treinadas a respeito da lição de dependência: A indústria do serviço social dificilmente conseguiria sobreviver, incluindo a crescente indústria do aconselhamento; a indústria de todos os tipos de entretenimento, incluindo a televisão, iriam sucumbir caso as pessoas se lembrassem sobre como se divertir por conta própria, o serviços de alimentação, os restaurantes e os armazéns de comida instantânea iriam encolher se as pessoas readquirissem o hábito de preparar as próprias refeições ao invés de depender de que estranhos cozinhem para eles. Boa parte do Direito, Medicina e Engenharia modernas também iriam sucumbir – assim como a indústria da confecção – a não ser que todos os anos pingue das escolas um suprimento garantido de casos perdidos. Nós construímos um modo de vida que depende de pessoas que esperam que os outros lhes digam o que fazer por que elas não saberiam agir de outra forma. Pelo amor de Deus, não vamos virar essa canoa!

Na quinta lição eu ensino que o seu respeito próprio deveria depender da avaliação de um observador. Meus alunos são continuamente avaliados e julgados. Um relatório mensal, impressionante por sua precisão, é mandado para a casa de todos os estudantes para espalhar a aprovação, ou demarcar exatamente – com a precisão de um ponto percentual – o quão insatisfeito os pais devem ficar com seus filhos. Apesar de algumas pessoas se surpreenderem com o pouco tempo e reflexão que são gastos na elaboração de tais relatórios, o peso cumulativo de tais documentos aparentemente objetivos estabelece um perfil de imperfeição que induz um estudante a chegar a certas decisões a respeito de si e do seu futuro baseados no julgamento casual de estranhos.

A auto-avaliação – o ingrediente principal de todo grande sistema filosófico que já surgiu no mundo – nunca é um fator considerado nessas situações. A lição por detrás das notas, dos boletins e das avaliações é que as crianças não deveriam confiar em si mesmas nem em seus próprios pais, mas devem acreditar na avaliação de um profissional qualificado. As pessoas precisam ouvir das outras o quanto realmente elas valem.

Na sexta lição eu ensino às crianças que elas estão sendo observadas. Eu mantenho cada aluno sob vigilância contínua assim como fazem os meus próprios colegas. Não existe espaço nem tempo para a privacidade das crianças. O intervalo entre as aulas dura apenas 300 segundos justamente para manter a confraternização promíscua nos menores níveis possíveis. Os estudantes são encorajados a bisbilhotar as vidas uns dos outros e inclusive a bisbilhotar a vida de seus pais. E é claro, eu também encorajo os próprios pais a denunciar a desobediência de seus próprios filhos.

Eu prescrevo “dever de casa” de forma que a vigilância se estenda ao ambiente doméstico, onde os estudantes poderiam de outra forma usar seu próprio tempo para aprender algo que não foram autorizadas, talvez de seus pais ou mães, ou talvez como aprendiz de alguma pessoa mais sábia da vizinhança.

A lição por detrás da vigilância constante é a de que não se pode confiar em ninguém, que privacidade não é algo legítimo. A vigilância é uma necessidade antiga entre certos filósofos influentes, e foi uma prescrição fundamental proposta por Calvino no seu Institutos, por Platão em A República, por Hobbes, por Comte e por Francis Bacon. Todos esses homens sem filhos chegaram à mesma conclusão: As crianças devem ser vigiadas de perto caso você quiser manter uma sociedade sob controle.

Realmente é o maior triunfo da educação escolar que mesmo entre os melhores professores e mesmo entre os melhores pais existe apenas um pequeno número de pessoas que são capazes de imaginar uma forma diferente de fazer as coisas. Mesmo há apenas algumas gerações as coisas eram diferentes nos Estados Unidos: a originalidade e a variedade eram moeda corrente, a nossa liberdade acerca da arregimentação nos tornou o milagre do mundo, as barreiras entre as classes sociais eram fáceis de transpor; a nossa cidadania era maravilhosamente confiante, criativa e capaz de fazer muitas coisas de maneira independente, como pensar por conta própria. Nós éramos uma coisa impressionante, por nós mesmos, como indivíduos.

São necessárias apenas 50 horas para transmitir instrução básica e habilidades matemáticas suficientes para tornar qualquer criança um autodidata. O apelo à prática da “instrução básica” é uma cortina de fumaça por trás da qual as escolas pré-esvaziam o tempo das crianças por doze anos e as ensinam as seis lições que eu acabei de lhes ensinar.

Nós tivemos uma sociedade crescentemente sob controle centralizado nos Estados Unidos desde pouco antes da Guerra Civil: A vida que levamos, as roupas que vestimos, o alimento que comemos e as verdes placas de beira de estrada que nós vemos quando dirigimos de costa a costa são produtos deste controle central. Assim como, eu acho, são a epidemia de drogas, suicídio, divórcio, violência, crueldade e a transformação das classes em castas nos Estados Unidos, produto da desumanização das nossas vidas, a diminuição dos valores individuais e familiares impostos pelo controle central.

Sem o exercício de um papel ativo em vida comunitária nenhuma pessoa pode se desenvolver enquanto ser humano. Aristóteles nos ensinou isso. Com certeza ele tinha razão, olhe ao seu redor e olhe no espelho: eis a demonstração.

A “escola” é um sistema de suporte avançado para uma visão de engenharia social que condena a maioria das pessoas a serem pontos de apoio de um sistema piramidal que afunila tudo em direção a um centro de controle conforme ascende. A “escola” é um artifício que serve para fazer essa ordem piramidal parecer inevitável (apesar de tal premissa se constituir em uma traição fundamental à Revolução Americana). Nos tempos coloniais até o período da Nova República para começar nós sequer tínhamos escolas. Ainda assim a promessa de democracia estava começando a ser realizada. Nós viramos nossas costas para essa promessa trazendo à vida esse antigo sonho do Egito: treinamento em subordinação compulsório para todos. Educação compulsória foi o segredo que Platão tão relutantemente transmitiu quando entregou os planos para um controle absoluto da vida humana pelo Estado.

O debate atual a respeito de se deveríamos ter ou não um currículo nacional é falso; nós já temos um, inseridos dentro das seis lições que eu apresentei a vocês e mais algumas poucas das quais eu lhes poupei. Esse currículo produz paralisia moral e intelectual, e nenhum currículo de conteúdo será suficiente para reverter os seus efeitos ruins. O objeto da presente discussão é uma enorme perda de tempo.

Fiquem sabendo, entretanto, que nada disso é inevitável. Nada disso é impermeável a mudanças. Nós temos alternativas de verdade quando se trata de educar as nossas crianças, de forma que na verdade não existe um “caminho certo”. Na verdade não existe uma “competição internacional” que dirija as nossas vidas, por mais difícil que seja perceber uma coisa dessas em um mundo aonde a mídia bloqueia toda e qualquer intervenção no sentido contrário. Em uma análise materialista nós vivemos em uma nação auto suficiente. Se formos analisar as coisas sob uma ótica não materialista que encontrasse significado onde ele está normalmente estabelecido – em famílias, em amigos, na mudança das estações, na natureza, nas cerimônias e rituais simples, na curiosidade, na generosidade, na compaixão e na solidariedade, em uma independência e privacidade decentes – aí sim seríamos realmente auto-suficientes.

Como esses lugares terríveis conhecidos como “escolas” vieram a acontecer? Da forma que conhecemos, elas são o resultado dos dois “Terrores Vermelhos” de 1848 e de 1919, quando interesses poderosos tiveram medo de uma revolução entre o proletariado industrial e, parcialmente, são resultado da repulsa que as famílias mais poderosas – junto com a Igreja Católica — tinham em relação às ondas de imigração célticas, eslavas e latinas após 1845. E, certamente, um terceiro e importante fator pode ser encontrado na repulsa que essas mesmas famílias sentiam em relação ao livre movimento de africanos pela sociedade após a Guerra Civil.

Olhe novamente para as seis lições da escola. Elas são basicamente um treinamento para classes subalternas, ou seja, para pessoas que para sempre serão privadas de encontrar a sua própria genialidade e inspiração. E o cerne do seu treinamento pode ser encontrado na sua lógica original: Controlar os pobres. Desde os anos 20 o crescimento da bem articulada burocracia escolar, e o crescimento menos visível de uma horda de indústrias que se aproveitam da escola da forma como ela é, ampliaram os objetivos iniciais da escola para abranger os filhos e filhas da classe média.

Alguém se surpreende com o fato de Sócrates ter se enfurecido com a acusação de que ele recebeu dinheiro para ensinar? Desde então os filósofos têm visto claramente o inevitável advento da profissionalização da função de professor, pré-esvaziando o sentido dessa função que, em todos os casos, pertence a todas as pessoas pelo menos no que tange a uma comunidade saudável; pertence, na verdade, mais claramente a cada um de nós, dado que ninguém se preocupa mais com os nossos destinos do que nós mesmos. A profissionalização da função implica em outro terrível erro: Ela torna as coisas que são inerentemente fáceis de aprender, como ler, escrever e aritmética, difíceis – através da insistência de que elas sejam ensinadas de acordo com procedimentos pedagógicos.

Com lições como as quais eu vos ensino todos os dias, alguém se impressiona com o fato de havermos uma crise nacional como a que enfrentamos hoje? Pessoas jovens que são indiferentes ao futuro e ao mundo adulto, indiferente a quase todas as coisas com exceção da diversão de brinquedos e violência? Sejam elas ricas ou pobres, crianças em idade escolar não podem se concentrar em qualquer coisa por muito tempo. Elas têm um senso muito precário do tempo que passou e que virá, elas vêem a intimidade com desconfiança (como filhos de pais separados como elas realmente são); elas odeiam a solidão, são cruéis, materialistas, dependentes, passivas, violentas, tímidas em face do inesperado, e viciadas em distração.

Todas as tendências periféricas da infância são estimuladas a uma extensão grotesca através da educação escolar, cujo currículo oculto impede as crianças de um desenvolvimento efetivo de suas personalidades. Na verdade, sem a devida exploração da temeridade, egoísmo e inexperiência das crianças as nossas escolas não poderiam de forma alguma sobreviver, e eu sequer teria me diplomado como professor.

“Pensamento Crítico” é um termo muito frequentemente ouvido nos últimos dias como sinônimo de uma forma de treinamento que irá herdar os novos dias da educação em massa. Certamente irá, se isso chegar a acontecer. Nenhuma escola comum que verdadeiramente se arriscasse a ensinar o uso da dialética, da heurística, e outras ferramentas usadas pelos livre-pensadores poderia durar um ano sem se auto-destruir.

Professores de educação escolar são nocivos ao desenvolvimento infantil. Ninguém escapa ao Currículo das Seis Lições ileso, nem sequer os próprios instrutores. O método é profunda e radicalmente anti-educacional. Nenhum retoque será capaz de resolver isso. Em uma das maiores ironias da tragédia humana, a reflexão profunda que a educação escolar precisa iria custar tão menos do que nós estamos investindo agora que é improvável que alguém o faça. Primeiro e antes de tudo, o negócio no qual estou envolvido é uma agência de postos de trabalho e de contratação de serviços. Nós não podemos nos dar ao luxo de poupar dinheiro, mesmo que seja para ajudar crianças.

Ao passo ao qual historicamente chegamos, e após 26 anos de profissão como professor, eu devo concluir que uma das únicas alternativas que restam no horizonte da maioria das famílias é educar seus próprios filhos em casa. Escolas pequenas e não institucionalizadas são outra. Alguma forma de sistema de livre-mercado é o melhor lugar para procurar respostas relativas à educação escolar. Mas a quase impossibilidade de ter acesso às fragmentadas famílias dos pobres, e para os muitos que vivem na margem de dentro da classe média, nos ajudam a predizer que o desastre das Escolas das Seis Lições irão existir por muito tempo.

Após passar o tempo de vida adulta ensinando em uma dessas escolas eu acredito que o método desse tipo de educação é o único e verdadeiro conteúdo que essas escolas ensinam. Não se deixe enganar acreditando que um bom currículo, bons equipamentos ou bons professores irão fazer a diferença na educação escolar de seus filhos. Todas as patologias que nós consideramos vêm em grandes doses por que as lições que as escolas dão impedem as crianças de estabelecerem compromissos importantes consigo mesmos e com suas famílias, de aprender lições de auto-motivação, perseverança, auto-confiança, coragem, dignidade e amor – e, é claro, lições sobre como agradar aos outros, as quais estão entre as lições mais importantes da vida doméstica.

Há 30 anos atrás estas coisas ainda podiam ser aprendidas no tempo que as crianças tinham depois do horário escolar. Mas a televisão, por sua vez, passou a consumir a maior parte desse tempo, e uma combinação entre televisão e os estresses peculiares às famílias de apenas um pai, ou nos quais ambos trabalham, praticamente engoliram a maior parte do tempo que antes era utilizado para se passar com a família. Freqüentar a escola se assemelha a começar a vida com uma sentença de doze anos de prisão na qual maus hábitos é o único currículo realmente aprendido. Eu ensino as pessoas sobre educação escolar e ganho prêmios fazendo isso. Eu deveria saber.