Arquivo para Outubro, 2009

16
Out
09

Richard Dawkins – O Evolucionista Irado

Mais americanos acreditam em anjos que na evolução – e Richard Dawkins não vai mais aceitar isso.

Por Richard Dawkins – Nesweek

Publicado originalmente em http://www.newsweek.com/id/216140 no dia 25 de Setembro de 2009

Da edição lançada no dia 05 de Outubro de 2009

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Os criacionistas estão profundamente enamorados pelos registros fósseis, por que eles foram ensinados (uns pelos outros) a repetir, incansavelmente, o mantra de que o mesmo está cheio de “brechas”: “Mostre-me os intermediários!”. Eles ingenuamente (muito ingenuamente) acreditam que essas “brechas” constituem um embaraço para os evolucionistas. Na verdade, e nós temos sorte de possuirmos registros fósseis, deixe de lado o número massivo deles que hoje possuímos para documentar a história da evolução – grande número os quais, por quaisquer padrões, constituem belos “intermediários”. Nós não precisamos de fósseis para demonstrar que a evolução é um fato. A evidência da evolução seria completamente segura, mesmo se nenhum cadáver tivesse sido fossilizado. É um bônus que nós realmente tenhamos ricos veios de fósseis para minerar, e que mais deles sejam descobertos a cada dia. As evidências fósseis da evolução para a maioria dos grupos de animais é maravilhosamente forte. Entretanto, é claro, eles também possuem brechas, que os criacionistas amam obsessivamente.

Vamos usar a analogia de um detetive que chega à cena de um crime onde não houve testemunhas oculares. A baronesa foi morta a tiros. Impressões digitais, pegadas, DNA de uma mancha de suor na pistola, e um motivo forte, todos apontam para o mordomo. Tem todos os elementos de um caso simples de resolver, e o júri assim como toda a platéia do júri está convencida de que o mordomo realmente é o autor do crime. Mas uma evidência de última hora é encontrada, no curto intervalo de tempo antes do júri se retirar para refletir sobre o que parecia ser o seu inevitável veredicto de culpado; alguém se lembrou que a baronesa instalou câmeras de segurança contra ladrões. Com o fôlego suspenso, o júri assiste aos filmes. Uma cena mostra o mordomo abrindo a gaveta da despensa, tirando uma pistola, carregando-a, e caminhando furtivamente para fora da sala com um brilho sinistro nos olhos. Você poderia pensar que essa cena fortaleceria ainda mais a acusação contra o mordomo. Acompanhe o desfecho, entretanto. O advogado de defesa do mordomo astutamente observa que não havia câmeras de segurança na biblioteca aonde o assassinato foi cometido e de que também não havia câmeras de segurança no corredor que levava à despensa. “Há uma brecha[1] nas gravações! Nós não podemos afirmar o que aconteceu depois que o mordomo deixou a despensa. Claramente não existem evidências suficientes para incriminar o meu cliente!”.

Em vão, o advogado de acusação declara que havia uma segunda câmera na sala de bilhar, e ela mostra, através de uma porta aberta, o mordomo, de arma em punho, andando furtivamente através do corredor que leva em direção à biblioteca. Isso certamente liga os eventos da gravação em vídeo? Mas não. Triunfantemente o advogado de defesa descarta o seu ás. “Nós não sabemos o que aconteceu antes ou depois que o mordomo atravessou a porta da sala de bilhar. Existem agora dois intervalos na gravação em vídeo. Senhoras e senhores do júri, por aqui encerro. Há agora menos evidências contra o meu cliente do que já houve antes”.

O registro fóssil, como a câmera de segurança na estória de assassinato, é um bônus, algo que nós não devíamos contar como garantia. Já existem evidências mais do que suficientes para condenar o mordomo sem a câmera de segurança, e o júri já estava pronto para apresentar o seu veredicto antes da câmera ser descoberta. Semelhantemente, existem evidências mais do que suficientes para comprovar que a evolução é um fato no estudo comparativo das espécies modernas e da sua distribuição geográfica. Nós não precisamos de fósseis. A questão da evolução já era inequívoca sem eles, portanto é paradoxal usar intervalos no registro fóssil como se eles fossem evidências contra a teoria da evolução. Na verdade nós temos sorte de termos registros fósseis.

O que poderia ser uma evidência contra a evolução, e uma evidência muito forte para tal, seria a descoberta de um simples fóssil no estrato geológico errado. Como o eminente biólogo J.B.S. Haldane astutamente respondeu quando lhe pediram para nominar uma observação que poderia refutar a teoria da evolução: “Fósseis de coelhos do pré-cambriano!” Nenhum coelho desse gênero, nenhum fóssil genuinamente anacrônico[2] de qualquer tipo, alguma vez foram encontrados. Todos os fósseis que possuímos, que na verdade são muitos e muitos, se apresentam, sem uma exceção autêntica sequer, na seqüência temporal certa. Sim, existem intervalos onde não encontramos um fóssil sequer, e isso é tudo que podemos esperar.  Mas nenhum fóssil solitário já fora encontrado antes do período no qual deveria ter surgido. Esse é um fato amplamente conhecido. Uma boa teoria é uma que é vulnerável à refutação, mas que ainda não foi. A Evolução poderia assim facilmente ser refutada caso um simples fóssil surgisse no período temporal errado. A evolução passa neste teste com louvor. Céticos da evolução que gostariam de comprovar seus pontos de vista deveriam estar diligentemente revirando rochas, desesperadamente tentando encontrar fósseis anacrônicos. É possível que eles encontrem um. Quer apostar?

O maior intervalo, que é aquele do qual os criacionistas mais gostam, é aquele que precedeu o período conhecido como Explosão Cambriana. Um pouco mais de meio bilhão de anos atrás, no Período Cambriano, a maior parte dos filos animais “subitamente” apareceu no registro fóssil. Subitamente, quero dizer, no sentido de que nenhum fóssil desses grupos animais foram avistados em rochas anteriores ao Cambriano, e não subitamente no sentido de instantaneamente; o período do qual estamos falando a respeito cobre aproximadamente 20 milhões de anos. De qualquer forma, ainda é bastante súbito, e, conforme escrevi em um livro anterior, o Cambriano nos mostra um número substancial da maioria dos filos animais “já em um avançado estado de evolução a primeira vez que aparecem. É como se eles simplesmente tivessem sido plantados lá, sem qualquer história evolucionária. Desnecessário dizer que, esse aparente surgimento súbito têm deleitado os criacionistas”.

A última sentença indica que eu fui bastante perspicaz ao perceber que os criacionistas iriam gostar da Explosão Cambriana. Eu não era (nos idos de 1986) perspicaz o suficiente para perceber que eles iriam jubilosamente citar as minhas declarações a seu próprio favor, ardilosamente omitindo minhas cuidadosas palavras de explicação. Por capricho eu fiz uma busca na Web pela sentença “É como se eles simplesmente tivessem sido plantados lá, sem qualquer história evolucionária” e obtive não menos do que 1.250 ocorrências. Como um apressado teste de controle da hipótese de que a maioria destas ocorrências representava citações criacionistas – extraídas, eu tentei fazer uma busca, para fins de comparação, da cláusula que segue imediatamente a citação anterior: “Evolucionistas de todos os matizes acreditam, entretanto, que isso realmente representa um salto muito grande no registro fóssil”. Eu obtive um total geral de 64 ocorrências, comparadas às 1.250 ocorrências da sentença anterior.

Eu já trabalhei com a Explosão Cambriana por um bom tempo. Aqui eu vou introduzir apenas um novo ponto, ilustrado pelos vermes achatados, os Platelmintos. Este grande filo de vermes inclui os trematódeos e cestodas, que são de grande importância médica. Os meus favoritos, entretanto, são os vermes independentes da classe turbelária, do qual existem mais de 4.000 espécies: isso é tão numeroso quanto todos os mamíferos colocados juntos. Eles são comuns, tanto na água quanto na terra, e presumivelmente tem sido comuns já há um bom tempo. Você esperaria, entretanto, ver um rico legado fóssil. Infelizmente esse legado é praticamente nulo. Além de um punhado de ambíguas impressões, nenhum único fóssil de vermes achatados até hoje foi encontrado. Os Platelmintos, para os vermes, estão “já em um estado avançado de evolução, na primeira vez em que surgem. É como se eles simplesmente tivessem sido plantados lá, sem qualquer história evolucionária”. Mas neste caso, “na primeira vez em que surgem” não é o Período Cambriano mas o hoje. Você entende o que isso significa, ou pelo menos deveria significar para os criacionistas? Criacionistas acreditam que os vermes achatados foram criados todos na mesma semana assim como todas as outras criaturas. Durante todos esses séculos quando todos esses animais ósseos ou calcários estiveram depositando seus fósseis aos milhões, os vermes achatados devem ter vivido felizmente junto com eles, mas sem deixar entretanto o menor vestígio das suas existências nas rochas. O que, portanto, é tão especial a respeito de intervalos no registro desses animais que se fossilizam, dado que o legado histórico dos vermes achatados é um grande vácuo histórico: apesar de os vermes, pelas contas dos próprios criacionistas, terem vivido a mesma quantidade de tempo? Se o vácuo anterior à Explosão Cambriana é usado como evidência de que a maioria dos animais subitamente surgiu no mundo durante a Era Cambriana, exatamente a mesma “lógica” deveria ser usada para provar que os vermes achatados surgiram no mundo ontem mesmo. Todavia isso contraria a crença criacionista de que os vermes achatados foram criados durante a mesma semana criativa na qual todo o resto foi criado. Você não pode ter as duas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Esse argumento, de um golpe, completa e finalmente destrói a declaração criacionista de que o vácuo no registro fóssil Pré-Cambriano pode ser usado como evidência contra a evolução.

Por que, sob o ponto de vista evolucionário, existem tão poucos fósseis anteriores ao Período Cambriano? Bem, presumidamente, quaisquer que foram os fatores aplicados aos vermes chatos através do tempo geológico, foram os mesmos fatores aplicados ao resto do reino animal anterior ao Período Cambriano. Provavelmente, a maioria dos animais anteriores ao Cambriano tinham o corpo mole como os modernos platelmintos, provavelmente ainda mais pequenos como as modernas turbelárias – que não constituem um bom material fóssil. E então algo aconteceu há meio bilhão de anos atrás para permitir aos animais se fossilizar livremente – por exemplo, o surgimento de esqueletos duros e minerais.

Um nome antigo para “intervalo no registro fóssil” era “elo perdido”. A expressão entrou em voga na Inglaterra Vitoriana, o que prosseguiu até o Século XX. Inspirada por um mal entendido acerca da teoria de Darwin, ela foi usada como um insulto, de forma próxima a “Neanderthal” é coloquialmente (e injustamente) usado hoje em dia.

O sentido original, que era confuso, implicava em dizer que à Teoria Darwiniana faltava um elo vital entre os humanos e os outros primatas. Negacionistas, presentemente, têm grande apreço em dizer, no que eles imaginam se tratar de um tom reprobatório: “Mas vocês ainda não encontraram o elo perdido”, e eles freqüentemente fazem um escárnio relativo ao Crânio de Piltdown, para completar. Ninguém sabe quem perpetuou o boato de Piltdown, mas essa pessoa têm muito a responder. O fato de que um dos primeiros candidatos a fóssil homem-primata descobertos tenha se tratado de um boato providenciou uma desculpa para os negacionistas ignorar os muitos inúmeros fósseis que não o são; e eles ainda não pararam de exultar com isso. Se eles apenas dessem uma olhadinha nos fatos, logo iriam descobrir que agora nós temos um rico suprimento de fósseis intermediários ligando humanos modernos ao ancestral comum que nós dividimos com os chimpanzés. Do lado humano da história, é claro. Interessantemente, ainda não foram encontrados fósseis ligando esse ancestral (que não era chimpanzé nem humano) aos chimpanzés modernos. Talvez isso aconteça por que chimpanzés vivem em florestas, que não provêm boas condições para a fossilização. De qualquer forma, são os chimpanzés, e não os seres humanos, que hoje têm o direito de reclamar de elos perdidos!

Outro sentido diz respeito à alegada escassez das tão famosas “formas transicionais” entre grupos maiores como répteis e pássaros, ou peixes e anfíbios. “Apresentem seus intermediários!”. Os evolucionistas geralmente respondem a esse desafio dos negacionistas atirando-lhes ossos do Archaeopteryx, o famoso “intermediário” entre “répteis” e pássaros. Isso é um engano. Archaeopteryx não é a resposta a um desafio, por que não há desafio que valha a pena responder. Levantar um simples fóssil famoso como o Archaeopteryx significa ceder a uma falácia. De fato, para um grande número de fósseis, uma boa discussão pode ser feita a respeito de se cada um deles é ou não um intermediário entre alguma coisa e alguma outra coisa.

O mais tolo desses desafios acerca do “elo perdido” são as seguintes duas (ou variantes delas, as quais tem muitas). Primeiro, “Se as pessoas vieram dos macacos através dos sapos e dos peixes, então por que o registro fóssil não contem um ´sacaco[3]´”? E, segundo, “Eu passarei a acreditar na evolução quando eu vir um macaco parir um bebê humano”. Essa última afirmação comete o mesmo erro que todas as outras, além do erro adicional de pensar que uma mudança evolucionária de larga escala acontece do dia para a noite.

Bem, é claro, macacos não descendem de sapos. Nenhum evolucionista são já disse que eles o fizeram, ou disseram que patos descendem de crocodilos ou vice versa. Macacos e sapos dividem um ancestral comum, que certamente não se parecia nada como um sapo nem como um macaco. Talvez ele se parecesse um pouco com uma salamandra, e realmente nós possuímos fósseis parecidos com salamandras datando da época certa. Mas a questão não é essa. Cada uma das milhões de espécies de animais divide um ancestral comum com qualquer outra espécie. Se o seu entendimento acerca da evolução é tão deformado que você pensa que nós deveríamos esperar ver um sacaco ou um crocopato, você deveria também engrandecer o seu sarcasmo sobre a ausência de cachorropótamos ou de elefanzés. Na verdade, por que se limitar apenas aos mamíferos? Por que não pensar em uma kangurata (intermediário entre um canguru e uma barata) ou um octopardo (intermediário entre um óctopus e um leopardo)? Existe um número infinito de nomes de animais que você pode ajuntar da mesma forma. É claro que os hipopótamos não descendem dos cães, ou vice versa. Chimpanzés não descendem dos elefantes ou vice versa, da mesma forma que macacos não descendem de cães. Nenhuma espécie moderna descende de qualquer outra espécie moderna (se deixarmos de fora as separações muito recentes). Da mesma forma que você pode encontrar fósseis que podem aproximá-lo do ancestral comum do macaco e do elefante você também pode encontrar fósseis que o aproxime do ancestral comum dos elefantes e dos chimpanzés.

Já em relação ao segundo desafio, mais uma vez, humanos não descendem dos macacos. Nós na verdade dividimos um ancestral com eles. Conforme isso acontece, o ancestral comum pode se parecer mais com um macaco do que com um humano, e nós iríamos provavelmente chamá-lo de macaco, se o tivéssemos conhecido há 25 milhões de anos atrás. Mas embora humanos tenham evoluído de um ancestral que nós poderíamos chamar de macaco, nenhum animal dá a luz a uma nova espécie instantaneamente, ou pelo menos a nenhuma espécie que seja tão diferente de si mesma quanto um humano de um macaco, ou até de um chimpanzé. Isso não tem nada a ver com evolução. A Evolução não apenas é um processo gradual; ela tem que ser gradual se é para fazer algum trabalho explicativo. Grandes saltos em uma única geração – que é o que seria um macaco dando luz a um ser humano – são tão improváveis quanto a própria criação divina, e são descartadas pela mesma razão: estatisticamente são muito improváveis. Seria tão bom se aqueles que se opõem à evolução enfrentassem um pouco que fosse o desafio de aprender os menores rudimentos daquilo a que se opõem.

Retirado do livro “O Maior Espetáculo da Terra: A Evidência da Evolução”, escrito por Richard Dawkins.


[1] No original “gap” que tem um sentido mais próximo de “intervalo” mas que também pode significar uma “brecha”. N. do T.

[2] Anacrônico é tudo o que se situa fora de seu devido tempo histórico. Um filme que retratasse o Século XIX e exibisse um computador seria anacrônico, já que os mesmos foram inventados no Século XX. N. do T.

[3] No original “fronkey” que é uma palavra composta formada através da junção das palavras “frog” e “monkey”. A idéia é a de uma criatura intermediária e quimérica entre o sapo e o macaco. N. do T.

11
Out
09

Richard Dawkins – A verdade que os cães revelam acerca da evolução

A forma como os lobos se adaptaram ao ambiente para se transformarem em cães lança uma nova luz sobre a evolução

Publicado no The Times em 25 de Agosto de 2009 http://entertainment.timesonline.co.uk/tol/arts_and_entertainment/books/book_extracts/article6808173.ece

Traduzido por Vinícius Morais Simões http://vsimoes.wordpress.com

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Nós podemos nos voltar ao exemplo dos cães para algumas importantes lições acerca da seleção natural. Todas as raças de cães advêm de lobos domesticados: não de chacais, não de coiotes nem de raposas. Mas eu preciso qualificar isso sob a luz de uma fascinante teoria da evolução dos cães, que foi mais claramente formulada pelo zoólogo americano Raymond Coppinger. A idéia é que a evolução dos cães não se trata apenas de um caso de seleção artificial. Que ela foi um tanto um caso de lobos se adaptando aos caminhos do homem através da seleção natural. Que muito da domesticação inicial foi na verdade autodomesticação, mediada pela seleção natural, e não artificial. Muito antes de colocarmos nossas mãos no cinzel da caixa de ferramentas da seleção artificial, a seleção natural já havia esculpido os lobos no formato de “cães de vila[1]” autodomesticados sem qualquer intervenção humana.

Apenas mais tarde os humanos adotaram esses cães de vila e os transformaram, separada e compreensivelmente, no amplo espectro de raças que hoje em dia nos brindam (se brindar é a palavra) com um cortejo suntuoso de realização e beleza canina (se beleza é a palavra certa).

Coppinger chama a atenção para o fato de que quando os animais domésticos se libertam e se tornam selvagens por muitas gerações, eles geralmente retrocedem a um estado próximo ao do seu ancestral. Nós deveríamos esperar que os cães domésticos que se criaram no meio selvagem[2], entretanto, se tornassem semelhantes aos lobos. Mas isso na verdade não acontece. Ao contrário, cães domésticos criados em meio selvagem parecem se tornar os onipresentes “cães de vila” – cães vira-lata[3] – que rodeiam as instalações humanas em todo o Terceiro Mundo. Isso encoraja a crença de Coppinger de que os cães a partir do qual os criadores passaram a trabalhar não se tratavam mais de lobos. Eles já tinham se transformado em cães: cães de vila, vira-latas, talvez dingos.

Lobos de verdade são caçadores de mão cheia. Cães de vila são arruaceiros que freqüentemente remexem e reviram o lixo. Os lobos também podem revirar lixo, mas não são temperamentalmente equipados para revirar detritos humanos por causa da sua longa “distância de decolagem”. Se você vir um animal se alimentando, você pode medir sua distância de decolagem vendo quão perto ele lhe deixa se aproximar antes de se afastar. Para qualquer espécie dada em uma situação dada, haverá uma distância de decolagem ótima, algo entre muito arriscado ou temerário em uma ponta mais curta, e muito confortável ou avesso ao risco em outra ponta mais longa. Indivíduos[4] que se afastam tarde demais quando o perigo os ameaça têm maiores chances de serem mortos por aquele mesmo perigo. Menos obviamente, há também uma coisa considerada se afastar cedo demais. Indivíduos apreensivos demais nunca conseguem ter uma refeição completa, por que saem correndo sob a menor sugestão de perigo à vista. É fácil para nós subestimar os perigos de ser avesso demais ao risco. Nós nos sentimos intrigados quando vemos zebras ou antílopes pastando calmamente quando estão sendo observados por leões, mantendo nada mais do que um olhar atento sobre esses mesmos leões.

Nós nos sentimos intrigados por que nossa própria (ou aquela que corresponde ao nosso guia turístico) aversão ao risco nos mantém firmemente dentro do nosso Land Rover mesmo quando não temos razão para pensar que há um leão a milhas de distância. Isso acontece por que não temos nada para compensar o nosso medo. Nós vamos ter a nossa refeição completa assim que chegarmos aos nossos alojamentos. Nossos ancestrais selvagens teriam uma simpatia muito maior com as zebras aventureiras[5]. Como as zebras, eles tinham que sopesar o risco de serem comidas com o risco de não poderem comer. Com certeza, o leão poderia atacá-los, mas, dependendo do tamanho da sua tropa, maiores seriam as chances de que ele pegasse algum outro membro dela ao invés de você. E se você nunca se aventurasse em direção aos campos de caça e coleta, ou abaixo em direção aos cursos d´água, você iria morrer de qualquer forma, de fome ou de sede. É uma verdadeira lição de custo de oportunidade.

A questão de fundo deste exemplo é que o lobo selvagem, como qualquer outro animal, irá ter uma distância ótima de decolagem, belamente situada – e potencialmente flexível – entre muito audacioso e muito precipitado. A seleção natural irá agir sobre a distância de decolagem, movendo-a em uma ou em outra direção ao longo do continuum conforme mudarem as condições através do tempo evolucionário. Se uma abundante nova fonte de alimentos na forma de detritos humanos adentrar o mundo dos lobos, isto irá deslocar o ponto ótimo em direção à ponta mais curta do continuum do vôo de decolagem, na direção de uma relutância em se afastar enquanto estiver aproveitando sua nova recompensa.

Nós podemos imaginar lobos selvagens remexendo em uma pilha de lixo nos limites de uma vila. A maior parte deles, temerosa de homens que lhes atirem pedras e lanças, tem uma longa distância de decolagem. Eles correm para a segurança da floresta assim que vêem um humano aparecer ao longe. Mas uns poucos indivíduos, por um acaso genético, acontecem de ter uma distância de decolagem ligeiramente menor que a média. A sua prontidão para aceitar pequenos riscos – eles podem ser corajosos, poderíamos dizer, mas não imprudentes – os permite auferir mais comida do que os seus rivais avessos ao risco. Conforme as gerações vão se sucedendo, a seleção natural favorece uma distância de decolagem cada vez menor, até pouco antes de alcançar o ponto onde os lobos são realmente ameaçados por humanos atiradores de pedras. A distância ótima de decolagem teria se deslocado em virtude da recém disponível fonte de alimentos.

Algo como este encurtamento evolucionário da distância de decolagem foi, na visão de Coppinger, o primeiro passo em direção à domesticação dos cães, e ele foi alcançado através das vias da seleção natural não da seleção artificial. O decrescimento da distância de decolagem é uma medida comportamental do que pode ser considerada uma crescente domesticação[6]. Neste estágio do processo, os humanos não estão deliberadamente escolhendo os indivíduos melhor domesticados para a criação. Neste estado inicial, as únicas interações entre os humanos e esses cães incipientes eram hostis. Se os lobos estavam em vias de se tornar domesticados, isso se deveu à autodomesticação e não à domesticação deliberada pelas pessoas. A domesticação deliberada surgiu mais tarde.

Nós podemos ter uma idéia de como a domesticação, ou qualquer coisa, pode ser esculpida – natural ou artificialmente – olhando para o fascinante experimento dos tempos modernos que é a domesticação de raposas prateadas da Rússia para o uso no mercado de peles. É algo duplamente interessante por causa das lições que nos ensina, acerca das coisas que Darwin já sabia, sob o processo de domesticação, sobre os “efeitos colaterais” da criação de animais de raças, e sobre as similitudes, que Darwin entendeu muito bem, entre a seleção natural e artificial.

A raposa prateada é apenas uma variedade colorida, valorizada pela beleza de sua pele, da familiar raposa vermelha, Vulpes vulpes. O geneticista russo Dimitri Belyaev foi empregado para administrar uma fazenda de peles nos anos 50. Mais tarde ele foi demitido por que sua ciência genética entrava em contradição com a ideologia anti-científica de Lysenko, o biólogo charlatão que conseguiu tomar para si os ouvidos de Stalin e, por essa razão, tomar de assalto, e arruinar largamente, toda a agricultura e genética Soviética por aproximados 20 anos. Belyaev manteve o seu amor pelas raposas, e pela verdadeira genética, e mais tarde foi capaz de retomar seus estudos de ambos, como diretor do Instituto de Genética na Sibéria.

As raposas selvagens são difíceis de lidar, e Belyaev se armou justamente para criá-las com vista à domesticação. Como qualquer criador de animal e planta do seu tempo, o seu método foi explorar a variação natural (não havia engenharia genética naquele tempo) e escolher, para a criação, aqueles machos e fêmeas que mais se aproximavam do ideal que ele estava procurando.

Ao fazer uma seleção orientada à domesticação, Belyaev poderia ter escolhido, para criação, aqueles cães e cadelas[7] que tivessem maior apelo para ele, ou olhassem para ele com as mais singelas expressões faciais. Isto também poderia ter o efeito desejado na domesticação das futuras gerações. Mais sistematicamente do que isso, entretanto, ele usou a medida que estava bem próxima da “distância de decolagem” que acabei de mencionar, em conexão com os lobos selvagens, mas adaptado para filhotes. Belyaev e seus colegas (e sucessores, para o programa experimental continuado após sua morte) sujeitaram filhotes de raposas a testes padronizados nos quais um pesquisador oferecia comida a um filhote em sua mão, enquanto tentava acariciá-lo. Os filhotes eram classificados em três gêneros: Os filhotes do Gênero III eram aqueles que se afastavam ou mordiam a pessoa. Os filhotes do Gênero II eram aqueles que permitiam ser acariciados, mas não demonstravam nenhuma resposta positiva aos pesquisadores. Filhotes do Gênero I, os mais domesticados de todos, se aproximavam positivamente dos pesquisadores, abanando suas caudas e choramingando. Quando os filhotes cresceram, os pesquisadores sistematicamente reproduziam apenas espécimes desse gênero mais domesticado.

Após meras seis gerações desse processo de criação seletiva orientado à domesticação, as raposas mudaram tanto que os pesquisadores se sentiram obrigados a criar uma nova categoria, o gênero da “elite domesticada”, que eram “ávidos para estabelecer contato humano, choramingando para atrair a atenção e que cheiravam e lambiam os pesquisadores como fazem os cães”. No começo do experimento, nenhuma das raposas era do gênero de elite. Após dez gerações de criação orientada à domesticação, 18% da espécie pertencia à “elite”; após 20 gerações, 35%, e após 30 a 35 gerações, os indivíduos da “elite domesticada” constituíam de 70 a 80% da população experimental.

Tais resultados talvez não sejam tão surpreendentes, exceto pela espantosa magnitude ou velocidade do efeito. Trinta e cinco gerações passariam inadvertidamente na escala de tempo geológica. Ainda mais interessante, entretanto, foram os inesperados efeitos colaterais da criação seletiva orientada à domesticação. Eles são genuína e fascinantemente imprevistos. Darwin, o aficcionado por cães, ficaria extasiado.

As raposas não apenas se comportavam como cães domésticos, elas se pareciam com eles. Elas perderam sua pelagem de raposa e se tornaram malhadas, como Collies Gauleses[8]. Suas orelhas pontudas de raposa foram substituídas por orelhas moles de cachorro. Suas caudas viraram para cima nas pontas como o rabo de um cachorro, ao invés de para baixo, como no “rabo de escova” de uma raposa. As fêmeas passaram a entrar no cio a cada seis meses como uma cadela, ao invés de em um ano. De acordo com Belyaev, elas inclusive soavam como cães.

Estas características caninas eram efeitos colaterais. Belyaev e sua equipe não deliberadamente as selecionaram, apenas a domesticação. Essas outras características caninas aparentemente pegaram carona na rabeira dos genes para a domesticação. Para os geneticistas, isso não é uma surpresa. Eles reconhecem nisso um fenômeno bastante difundido chamado “pleiotropia”, onde os genes têm mais de um efeito, aparentemente sem correlação alguma. A atenção deve ser dada à palavra “aparentemente”. O desenvolvimento embrionário é uma questão complexa. Conforme aprendemos cada vez mais sobre isso, os detalhes que são “aparentemente sem correlação alguma” se transformam em “conectados através de uma via que antes não entendíamos, mas agora entendemos”. Presumivelmente os genes para as orelhas moles e para a pelagem malhada estão pleiotropicamente ligados a genes para a domesticidade, tanto em raposas quanto em cães. Isso ilustra uma questão bastante importante acerca da evolução. Quando você percebe uma característica em um animal e se pergunta qual é o seu valor darwiniano de sobrevivência, você pode estar se fazendo a pergunta errada. Pode ser que a característica que você escolheu não é uma caracerística determinante. Ela pode ter “vindo de carona” e sido agregada durante o processo evolutivo a alguma outra característica à qual ela foi pleiotropicamente ligada.

A evolução do cachorro, portanto, se Coppinger estiver certo, não foi apenas uma questão de seleção artificial, mas uma mistura complexa de seleção natural (que predominou nos estágios iniciais do processo de domesticação) e seleção artificial (que tomou a dianteira recentemente). A transição teria simplesmente sido contínua, o que novamente evidencia a semelhança – como o próprio Darwin reconheceu – entre a seleção natural e a artificial.

A seleção – na forma de seleção artificial realizada por criadores humanos – pode tornar um vira-latas em um pequinês, ou um repolho selvagem em uma couve-flor, em poucos séculos. A diferença entre duas raças de cães pode nos dar uma pequena idéia acerca da quantidade de mudança evolucionária que pode ser atingida em menos de um milênio.

A próxima questão que deveríamos nos perguntar é, quantos milênios nós temos disponíveis para nós na contagem de toda a história da vida? Se nós imaginarmos a distância evolutiva[9] que separa um vira-lata de um pequinês, o que tomou apenas uns poucos séculos de evolução, quão mais distante é o tempo que nos separa do começo da evolução ou, digamos, do surgimento dos mamíferos? Ou da época na qual os peixes emergiram à terra? A resposta é que a vida começou não apenas a alguns séculos, mas a dezenas de milhões de séculos atrás. A idade medida do nosso planeta é de 4,6 bilhões de anos, ou aproximadamente 46 milhões de séculos. O tempo que se passou desde que o ancestral comum de todos os mamíferos andou sobre a terra é de aproximadamente dois milhões de séculos. Um século parece um tempo muito longo para nós. Você pode imaginar dois milhões de séculos, de ponta a ponta? O tempo que se passou desde que nossos ancestrais aquáticos rastejaram para a terra é de aproximadamente três e meio milhões de séculos: é, para se dizer, aproximadamente 20.000 vezes maior que o tempo levado para criar todas as diferentes – realmente muito diferentes – raças de cachorros a partir do ancestral comum que todos eles compartilhavam.

Mantenha em mente uma imagem aproximada da diferença entre um pequinês e um vira-latas. Nós não estamos falando de medidas precisas aqui: isso ajudaria tanto quanto pensar sobre a diferença entre quaisquer duas raças de cachorros, por que isso representa na média o dobro da quantidade de mudança realizada, pela seleção artificial, a partir do ancestral comum. Guarde na lembrança essa ordem da mudança evolucionária, e então extrapole-a para trás 20.000 vezes em direção ao passado. Isso torna muito mais fácil aceitar que a evolução poderia realizar a quantidade de mudança necessária para transformar um peixe em um ser humano.

© Richard Dawkins 2009

Extraído do livro O Maior Espetáculo da Terra, a ser publicado pela Bantam Press em 10 de Setembro.


[1] Essa é uma palavra que poderia ser adotada no português. Entretanto a nossa tradução mais próxima é “cachorro de rua”. N. do T.

[2] No original “break free and go feral” que têm uma tradução muito próxima de “se tornar selvagem”. Entretanto, como os cães selvagens são uma espécie diferente de cães, dei preferência para a forma mais prolixa “cães domésticos que se criaram em meio selvagem”. N. do T.

[3] No original “pye-dogs”. N. do T.

[4] O autor usa a expressão “individuals” para se referir a membros de uma espécie. Não confundir com indivíduos no sentido de seres humanos. N. do T.

[5] No original “risk-taking” ou, que gostam de correr riscos. N. do T.

[6] No original “increasing tameness” como em “Lion tamer” ou,  “domador de leões”. N. do T.

[7] Aparentemente é um engano do autor, já que ele vai tratar da criação de raposas e não de cães. N. do T.

[8] A partir da observação das suas orelhas pontudas e do seu rabo peludo nós bem que poderíamos dizer que o Collie Gaulês se parece com uma raposa. Veja a imagem visualizada no dia 10 de Outubro de 2009: http://farm4.static.flickr.com/3207/3038482742_31dbde3cc3.jpg N. do T.

[9] Tempo que demora para um ancestral comum dar origem a duas espécies diferentes. N. do T.

10
Out
09

Hamas nega apoio a casamentos infantis em massa

Vídeo na internet denuncia o “impressionante casamento de 450 meninas”

Publicado em 04 de Agosto de 2009 por Aaaron Klein

2009 WorldNetDaily

O Hamas veementemente negou os rumores da Internet e as matérias publicadas em blogs que denunciam que o grupo Islâmico Palestino realizou uma cerimônia em massa nas quais eram celebrados os casamentos de crianças.

Um vídeo que circula na Internet intitulado “Hamas shocking mass wedding for 450 little girls” (Impressionante casamento em massa de 450 crianças financiado pela Hamas) exibe crianças que aparentam ter de 8 a 10 anos de idade supostamente se casando em uma cerimônia em massa realizada pelo Hamas na última semana. Pequenas garotas vestindo o que se parecem ser vestidos de noiva foram filmadas chegando em carros e então descendo em um corredor com os noivos.

O vídeo e as imagens relacionadas por sua vez foram responsáveis pela criação de inúmeros posts fazendo declarações semelhantes de que o Hamas estava realizando o casamento de centenas de crianças.

A agência WND recebeu um grande volume de e-mails solicitando à organização de notícias que investigasse o assunto.

O Hamas realmente realizou uma cerimônia em massa na última Quinta-Feira na qual aproximadamente mil palestinos celebraram seus casamentos. Muitas das famílias envolvidas disseram que não tinham condições para realizar sua própria festa. Cada noivo recebeu um presente de aproximadamente US$ 500,00 do HAMS, que disse que seus trabalhadores também contribuíram com 5% da sua remuneração mensal para contribuir com o presente de casamento.

Ahmed Jarbour, o oficial do Hamas em Gaza responsável pela realização da atividade, disse à WND que a garota mais nova a se casar na cerimônia tinha 16 anos. Disse também que a maioria das noivas eram maiores de 18 anos de idade.

Jarbour, assim como dois outros oficiais de alto escalão contactados pela WND, se sentiu ofendido pela sugestão de que o Hamas estava financiando o casamento de crianças.

Ele explicou que as menores vistas no vídeo faziam parte da família do noivo ou da noiva. Ele disse que se trata de uma tradição as menores se vestirem de vestidos semelhantes aos das noivas. Disse que as meninas que aparecem no vídeo descendo um corredor com os noivos são membros da família do noivo ou da noiva.

Uma análise do vídeo feita pela WND encontrou algumas garotas, falando em árabe, declarando que iam participar do casamento de um membro da família. As garotas entrevistadas não disseram coisa alguma a respeito de elas mesmas estarem se casando.

Em múltiplas ligações realizadas para os palestinos que participaram do casamento os mesmos afirmaram que as garotinhas não eram elas mesmas as noivas.

O Hamas, entretanto, celebraram o casamento como uma vitória.

“Nós estamos dizendo ao mundo e à América que eles não podem nos negar a alegria e a felicidade”, Mahmoud al-Zahar, Chefe do Hamas em Gaza, disse aos noivos no evento.