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abr
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William Godwin – Educação Pela Vontade

William Godwin

(in The Enquirer, 1797)

A liberdade é a mais desejável de todas as vantagens sub-lunares. Seria, portanto, de bom grado que eu transmitiria conhecimentos sem infringir, ou tentando violentar o menos possível, a vontade e o julgamento da pessoa a ser instruída.

Repito: desejo despertar num determinado indivíduo a vontade de adquirir conhecimentos. A única forma capaz de despertar num ser sensível a vontade de realizar um ato voluntário é exibir-lhes os motivos que justificam este ato.

Há duas espécies de motivos: os intrínsecos e os extrínsecos. Os motivos intrínsecos são aqueles que surgem da própria natureza inerente ao objeto recomendado. Os extrínsecos são aqueles que, não tendo uma ligação constante ou inalterada com a coisa recomendada, estão associados a ela ou por acidente ou pelo desejo de um indivíduo.

Assim, eu tanto posso recomendar um tipo de conhecimento demonstrando as vantagens que necessariamente estarão ligadas à aquisição deste conhecimento ou serão conseqüência dela, ou posso recomendá-lo de forma despótica, por meio de persuasão ou de ameaças, demonstrando que sua aquisição contará com a minha aprovação e que a recusa de adquiri-lo provocará a minha contrariedade.

A primeira classe de motivos é, sem dúvida, a melhor. Ser levado a agir estimulado pro tais motivos é condição pura e verdadeira do ser racional. Agir assim reforça a capacidade de julgamento e provoca um sentimento de independência. Faz com que o homem seja capaz de decidir por si e é o único método que pode fazer dele, verdadeiramente, um indivíduo – não uma criatura cuja fé está implícita, mas alguém capaz de exercitar a sua própria compreensão.

Se alguma coisa é verdadeiramente boa, fácil será provar as suas vantagens. Mas se não conseguires demonstrar a sua excelência, podemos suspeitar – com razão – que não estás capacitado para julgá-la. Por que não poderei eu decidir por mim mesmo sobre o valor de algo que só conseguirei obter com o meu próprio esforço?

Será necessário que uma criança aprenda determinados fatos antes que possa ter idéia do seu valor? É provável que não existe nada suficientemente importante que mereça ser apreendido por uma criança. O verdadeiro objetivo da educação juvenil é fazer com que, ao chegar aos 25 anos, o jovem seja dotado de uma mente regulada, ativa e pronta para aprender. Qualquer coisa capaz de inspirar hábitos de trabalho e observação será capaz de atender a estes propósitos. E não seria possível encontrar alguma coisa capaz de satisfazer essas condições, cujos benefícios possam ser entendidos por uma criança e que ela seja levada a desejar aprender? Estudar pela vontade de aprender é uma atividade; sem esta vontade, não passa de uma caricatura de uma atividade real. Que, na nossa pressa e ansiedade para educar, não esqueçamos jamais os verdadeiros objetivos da educação.

O melhor método de ensino será, portanto, sempre que houver condições para praticá-lo, aquele que garanta que todos os conhecimentos adquiridos pelo aluno sejam precedidos e acompanhados pela vontade de adquiri-los. A melhor motivação para aprender é a percepção do valor da coisa aprendida. A pior, mesmo que não seja necessário decidir se devemos ou não recorrer a ela, será a coação e medo. Há um motivo entre estes dois, menos puro do que o primeiro mas não tão desagradável quanto o último: a vontade, uma vontade que não tem origem na excelência intrínseca do objeto mas nos atrativos que o professor possa ter anexado a ele …

Nada pode ser adaptado com tanta felicidade para remover as dificuldades do ensino do que fazer com que o aluno seja primeiro levado a desejar o conhecimento e depois facilitar a sua tarefa, removendo os obstáculos do seu caminho com tanta freqüência e tão logo ele julgar necessário.

Este é um plano cujo objetivo é mudar inteiramente o ato de educar. Toda a formidável máquina até agora utilizada seria posta de lado. Rigorosamente falando, deixariam de existir até mesmo os personagens indispensáveis: aluno e mestre. Pois o aluno, tal como o mestre, estuda porque deseja fazê-lo, avançando segundo um plano por ele mesmo criado ou que passa a ser seu no momento em que o adota. Tudo revela a presença da independência e da igualdade. Tal qual o menino, o homem também não hesitará em consultar alguém que saiba mais do que ele sempre que as dificuldades se apresentarem. O fato de que seja quase sempre o menino a consultar o homem e não o oposto deve ser visto mais como um acidente do que como um fato importante. Até mesmo isto poderia desaparecer se nos lembrássemos que o pior dos juízes pode muitas vezes – por força da variedade das coisas que aprendeu – dar informações valiosas ao mais esclarecido. Entretanto, é preciso que o homem consulte o menino naturalmente, não segundo um plano preestabelecido ou com o objetivo de convencê-lo de que ele é o que na verdade não pode ser. Há três grandes vantagens neste tipo de educação. A primeira delas é a liberdade. Três quartos da escravidão e das limitações hoje impostas à juventude desapareceriam de um só golpe.

A segunda, a capacidade de julgar, seria fortalecida pelo seu exercício constante. Os meninos já não mais aprenderiam as lições como papagaios. Ninguém aprenderia sem uma razão capaz de justificar, a seus próprios olhos, os motivos que os levavam a aprender. E seria talvez até conveniente se lhes fizessem indicar frequentemente quais seriam estes motivos. Os próprios alunos decidiriam por si mesmos se tinham ou não entendido aquilo que liam. Saber como e quando fazer uma pergunta é uma das coisas mais importantes num aprendizado. Muitas vezes os jovens passariam por cima de dificuldades, desprezando os preâmbulos absolutamente necessários, mas logo a própria natureza da coisa aprendida não tardaria a fazer com que voltassem atrás, induzindo-os a examinar mais uma vez os tratados que não tinham estudado antes. Com este objetivo, seria conveniente que os temas de seus estudos juvenis fossem discutidos muitas vezes e que um menino comparasse seu progresso e os conhecimentos adquiridos com os de um companheiro. Não há nada que desperte com tanta força para as nossas próprias falhas quanto esta forma de detectar a nossa ignorância.

Em terceiro lugar, estudar sozinho é o método mais certo para adquirir o hábito do estudo. O cavalo que anda em círculos em torno do moinho e o menino que tem suas dificuldades antecipadamente e que é levado pela mão não são ativos.

Não creio que uma roda que gire cinqüenta vezes por minuto seja verdadeiramente ativa. A atividade é uma qualidade mental. Se, portanto, eu desejar criar hábitos de atividade, é melhor que deixe o menino solto pelos campos da ciência, para que ele mesmo encontre o seu caminho. Sem aumentar suas dificuldades, ele que fique sozinho durante alguns momentos e que lhe seja permitido perguntar antes de receber a informação Este sistema não pretende aumentar as dificuldades que todo o jovem encontra, mas diminuí-las: seu objetivo é criar uma inclinação pelo estudo e sabemos que um temperamento disposto faz com que todo o fardo pareça mais leve.

E, finalmente, este sistema tem uma tendência a produzir nos jovens, depois que se tornam homens, o amor pela literatura.

Os métodos atuais de educar produzem um efeito contrário, exceto em alguns poucos felizardos que, pela rapidez com que avançam e pelas distinções que obtêm talvez consigam escapar da influência geral. Mas na maioria dos casos, a memória da nossa escravidão fica irremediavelmente associada aos estudos que fizemos e é só depois de muito esforço que conseguimos fazer com que estas coisas, que durante tanto tempo foram objeto de nossa repulsa, passem a merecer outra vez nossa atenção voluntária.

In Woodcock, George – Grandes Escritores Anarquistas

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