Arquivo para a categoria 'repressão'

24
dez
10

Repercussão de blog quase rende processo

 

Vinícius Simões afirma ter cautela e procura frequentemente a ocorrência de seu nome

No intuito de promover a militância e o movimento estudantil na época de faculdade, Vinicius Morais Simões criou um blog no qual pudesse colocar artigos de sua autoria, bem como de terceiros Com a participação em fóruns e lista de discussão e os textos com fortes críticas à gestão da reitoria da universidade, não demorou para que seu nome e suas ideias ganhassem grande repercussão, principalmente no meio acadêmico ”Uma delas, que pode ser considerada negativa, foi uma ameaça de processo vinda do assessor do reitor para que eu retirasse do ar a menção que fazia sobre ele”, lembra Simões, que hoje é servidor municipal

 

O conteúdo não foi retirado, nem a ameaça levada adiante Mas a partir desse episódio, ele percebeu que o que é colocado na internet precisa de bastante cautela ”Não me arrependo do que escrevi Faz parte da minha trajetória enquanto indivíduo É diferente da exposição gratuita e sem consciência que os jovens se submetem hoje em dia Mas esta situação me levou a ter mais cuidados”, defende

 

Até mesmo por isso, hoje, Simões evita colocar informações pessoais na rede Seu perfil numa rede social só consta o primeiro nome ”Tudo para dificultar que consigam levantar dados a meu respeito”, diz ele, que confessa procurar frequentemente a ocorrência de seu nome na internet

 

Marian Trigueiros

 

Fonte: Folha de Londrina

19
nov
10

20 estudantes são ameaçados de expulsão da USP por Decreto da Ditadura Militar

            20 estudantes estão ameaçados de “eliminação” da USP por conta de seu ativismo político. Quatro deles por conta da ocupação da reitoria da USP em 2007, e 16 pela retomada de parte da moradia do CRUSP durante este ano. Todos eles respondem a processo administrativo por praticar ato atentatório à moral ou aos bons costumes”, “perturbar os trabalhos escolares e a administração da universidade”, “atentar contra o nome e a imagem da universidade”. E a pena para tais acusações é a eliminação (expulsão somada a mais 5 anos de afastamento obrigatório da instituição). Todos eles são acusados com base em um decreto da Ditadura Militar (52.906, de 1972), 

 

            Tal decreto foi instituído sob a égide do AI-5 e redigido pelo ex-reitor da USP, Gama e Silva. Ele vigora de forma “transitória” há algumas décadas e, inconstitucionalmente, ainda proíbe greves e manifestações políticas, prevendo sanções para quem “promover manifestação ou propaganda de caráter político-partidário, racial ou religioso, bem como incitar, promover ou apoiar ausências coletivas aos trabalhos escolares; afixar cartazes fora dos locais”. O Regimento da USP foi parcialmente reformado em 1988. Entretanto, mais de 25 anos após o fim da ditadura no Brasil, seus fundamentos arbitrários ainda são mantidos. Isso nos faz retornar à importante questão da estrutura de poder na USP. Até hoje, é o governador do Estado de São Paulo quem define o nosso reitor – neste caso, o mesmo governador que em 2009 permitiu que a polícia militar entrasse no campus para atacar sua comunidade universitária, fato que não havia mais ocorrido deste a redemocratização do país.

            Ao mesmo tempo, trabalhadores da USP e seu sindicato – SINTUSP – sofrem mais de 20 processos por realizarem greves e manifestações (direitos constitucionais) na luta pela isonomia salarial. Professores também estão sendo atingidos, como é o caso do professor do instituto de Ciências Biomédicas, punido por denunciar à imprensa irregularidades nos laboratórios de sua unidade.

            Em dezembro próximo completarão dois anos da demissão do dirigente sindical Claudionor Brandão. Abriu-se ali um precedente punitivo que ainda não conseguimos reverter. Estamos vivendo um momento político onde a direita se investe mais uma vez de sua eficiência tão rogada para combinar demissões por condutas tidas como inadequadas e por posicionamento político e ativista. Ambas para indicar aos alunos e ao trabalhador da USP (e aqui já incluso os professores) o modelo de universidade em disputa. Seu projeto de modernização acadêmica – calcado em premiações para as faculdades e institutos “mais eficazes”, incentivando “a competição entre os diferentes núcleos da USP”, coordenado quiçá por “um processo de seleção natural no próprio mercado” – é abertamente avesso ao ativismo sindical e estudantil (artigo concedido pelo reitor J. G. Rodas à Revista Veja, também em anexo).

            Convidamos a todos para que divulguem esta carta e assinem a moção de apoio que a acompanha.

             

 

 

Moção de Apoio aos estudantes, trabalhadores e professores

da USP ameaçados de punição por questões políticas

 

            Nós, abaixo assinados, em nome da tradição de liberdade política, científica, acadêmica e cultural que deve vigorar no interior de toda e qualquer universidade, viemos por meio desde documento pedir:

 

1.      que a Universidade de São Paulo suspenda imediatamente todos os processos de
perseguição e punição que está promovendo contra os membros da sua própria comunidade universitária,  sobretudo contra os estudantes ameaçados de expulsão;

 

2.      e que a Universidade de São Paulo, em respeito à cultura democrática que está sendo construída no Brasil e à tradição de liberdade que deve vigorar na cultura universitária,  revogue imediatamente o código disciplinar instituído pelo Decreto nº 52.906, de  27 de março de 1972.

 

19
fev
09

Muro vai cercar a UEL

Matéria veiculada no jornal Tribuna da Massa, dia 12 de Janeiro de 2009.

09
abr
08

Folha de Londrina, 03 de Junho de 2007

Segue abaixo uma cópia da entrevista que o reitor da Universidade Estadual de Londrina deu em visita á Folha de Londrina e na qual faz declarações absurdas e discriminatórias a respeito do Movimento Estudantil da UEL. Por falta de críticas verdadeiras ele afirma que o movimento estudantil é financiado por partidos de ultra-esquerda – por possuir dinheiro para comprar apitos, faixas e narizes de palhaço – e que as pessoas que se manifestavam contra o plano – um plano de segurança proposto pelo seu chefe de segurança, um capitão afastado da Polícia Militar, Pedro Marcondes – “tinham interesse que a UEL fosse campo livre para o tráfico”, ou seja, que eram drogadas ou traficantes.

O artigo pode ser encontrado no seguinte endereço:

http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id=3371LINKCHMdt=20070603

Um relato sobre a AudIência Pública, bom para desmentir certas afirmações, pode ser lido em: Sobre a Audiência Pública

PLANO DE SEGURANÇA DA UEL – Universidade é campo fértil para o tráfico
Reitor disse, em visita à FOLHA, que a segurança na UEL vai além da construção de um muro, é necessário contratar seguranças, mas admite não ter autonomia para fazer isso

rquivo FOLHA

Para reitor Wilmar Marçal, há interesses partidários nas manifestações dos estudantes, contrários ao fechamento do campus

Os protestos que impediram a realização de audiência pública sobre o Plano de Segurança da Universidade Estadual de Londrina (UEL), na última quarta-feira, marcaram o primeiro grande conflito entre o reitor Wilmar Marçal e o movimento estudantil. Em entrevista à FOLHA, o reitor lançou dúvidas sobre a legitimidade dos opositores do plano. Também falou dos decretos do governo estadual que ameaçam a autonomia universitária.

O senhor imaginava que o Plano de Segurança provocaria tanta polêmica?

Imaginava. Temos fortes indícios de que a UEL é campo fértil para o tráfico de drogas. Quando se mexe com organizações que têm interesse em que o campus continue aberto, espera-se manifestações.

Os estudantes dizem que não estão tendo voz na discussão…

Os estudantes estão sem representação no Conselho há mais de seis meses. Passamos para eles a necessidade de se cumprir os quesitos previstos no regimento da UEL, mas continuam irregulares. O plano está sendo discutido, sim, com os centros de estudo e departamentos. O entorno da UEL, através de 40 pessoas representativas, já se manifestou favorável. Esses estudantes (que promovem os protestos) estão tendo provavelmente fomento e ajuda financeira de alguém, porque têm dinheiro para gastar com faixa, repique, bumbo, nariz, uma série de coisas que não condiz com o discurso de que são carentes. É preciso identificar quem está por trás disso.

Alguma idéia?

Acho que há interesses partidários, talvez de grupos de ultra-esquerda.

Interesse de partidos, de traficantes… Não há opiniões contrárias ao plano que sejam isentas? Temos várias nas sessões de cartas…

Eu questiono um pouquinho a idoneidade das cartas, acho que algumas são também fruto de organizações interessadas em mostrar um lado contrário. E existe muita desinformação. A opinião pública precisa saber que boa parte dos alunos que fazem parte desse movimento contrário são repetentes há seis, sete anos. Eu também questiono por que isso acontece.

Os próprios seguranças da UEL apontam que o quadro está defasado. A contratação de mais vigias não poderia anteceder uma medida mais radical?

Contratação depende do governo do Estado, existe um limite de acordo com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Não temos autonomia para fazer isso. É lógico que a universidade precisa de mais efetivo, ela cresceu muito. Temos que ter 200 vigias, e não 138 como tem hoje. Além disso o quadro dos agentes de segurança está bem próximo da aposentadoria.

Em relação ao governo estadual, a UEL vai brigar para recuperar a autonomia das viagens de professores ao exterior?

Estamos tentando convencer o governador a reestudar o decreto 5.098, que trata disso. O professor quando vai para o exterior ele vai em busca de contatos e aprimoramentos. É característica da pesquisa; acontece em todas as universidades. Na UEL temos assessoria de relações internacionais que é um setor que busca contatos com pesquisadores de todo o mundo e isso inclui um trabalho de levar estudantes para intercâmbio. A idéia é que a UEL se fortaleça ainda mais nesse quesito.

Os reitores reclamam que nem a própria secretária de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Lygia Puppato, vem participando dessas decisões. A pasta está sendo relegada nesta gestão?

Não há a efetiva consulta que deveria ter. No momento em que o governo, através de seu líder na bancada legislativa, faz um projeto para unificar o calendário dos vestibulares na calada da noite, e sequer a secretária é consultada, alguma coisa está errada.

Vanessa Navarro
Reportagem Local

08
abr
08

PM ESPANCA ESTUDANTES DENTRO DA UFMG

Nessa quinta-feira, estudantes foram impedidos de ver um filme por policiais que cercaram o IGC, deixando feridos e prendendo um estudante.

Ontem, às 19h30, no IGC, uma sessão de cinema foi impedida a cacetadas pela Polícia Militar de Minas Gerais! Cerca de cinqüenta homens da Polícia Militar de Minas Gerais, em várias viaturas e até um helicóptero, cercaram o Instituto de Geociências da UFMG impedindo a entrada e saída de trabalhadores e estudantes do prédio. A PM-MG foi convocada e autorizada a agir pela Reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais (Ronaldo Tadêu Pena e a vice-reitora, Heloisa Starling). Ao tentar sair do prédio, um estudante recebeu “voz de prisão” com a “justificativa” de desacato à autoridade. Indignados, estudantes, professores e demais trabalhadores presentes gritaram palavras de ordem pedindo a liberdade do estudante. A PM exaltou-se e começou a enfrentar os manifestantes, agredindo-os com cacetetes e coronhadas. Durante o tumulto causado pela Reitoria/PM uma das viaturas avançou em marcha-ré sobre os manifestantes e derrubou alguns deles. O objetivo da ação era reprimir uma sessão comentada de cinema, na qual seria apresentado um filme sobre a legalização da maconha (filme este que pode ser achado em qualquer locadora). Uma estudante de medicina foi levada para o Pronto Socorro João XXIII com ferimentos na cabeça. Outros estudantes foram feridos e levados para fazer exame de corpo-delito.

Nem a Reitoria da UFMG e nem a segurança universitária fizeram nada para impedir a agressão (a entrada da polícia estadual é proibida nas universidades federais). Os estudantes tiveram que se defender sozinhos de uma truculência que remonta aos tempos da ditadura militar. A Reitoria usa cada vez mais a força militar e a repressão. No ano passado, diversos estudantes foram ameaçados de jubilamento por se manifestarem contra as taxas da FUMP. Para ser acusado bastava aparecer em fotos das assembléias ou atos na reitoria! Também no Conselho Universitário que aprovou o REUNI, o prédio da Reitoria foi cercado por policiais para impedir qualquer manifestação contra um projeto que sequer foi discutido seriamente na comunidade. Nos encontros estudantis, alunos de outras universidades não podem se alojar na UFMG. No início deste ano, o Reitor chegou a receber voz de prisão por impedir a matrícula de estudantes que conseguiram liminar judicial para não pagarem as taxas.

Fazemos uma pergunta séria e sincera aos estudantes: é essa Universidade que a sociedade precisa? Uma Universidade em que divergências viram casos de policia, ou pior, invasões da policia no campus. Um reitorado que se diz democrático mas que a repressão é a sua maior arma contra os desacordos. Lembra alguma coisa? Lembra algum Estado de coisas? Sim, lembra a ditadura militar. Mas não passou? Não! Ontem o filme não passou no IGC!!!

Não podemos e não vamos nos calar. Convocamos todos os estudantes a comparecerem amanhã, às 7hrs, na Praça de Serviços do Campus Pampulha para debater o que fazer diante desse autoritarismo. Há décadas que isso não acontecia na UFMG. Não podemos seguir como se nada tivesse acontecido!

Assinam este manifesto: DCE-UFMG/DA- ICB/DA-FISIO/ DA-T.O./DAMAR/ DA IGC/ DA Educação Física/ CONLUTE/ESPAÇO SAÚDE/CIRANDA-LIBERDADE

08
mar
08

O Desmonte da Universidade

O Desmonte da Universidade[1]

De alguma forma, a universidade que temos hoje também corresponde – mais ou menos, conforme a avaliação de cada um – a um modelo ideal de universidade. Esse modelo, assim como a democracia, por mais que reflita conquistas históricas de setores da sociedade, obtidas através da luta e de reivindicações, não é um projeto pronto e acabado. Inclusive não deveria, pois, como instituição que deve atender aos anseios da sociedade em diferentes épocas, é até bom que mantenha uma certa independência, ou autonomia, em relação ao estado e outras instituições.

Entretanto, essa autonomia, que deveria significar “liberdade para decidir por conta própria como gerir os próprios recursos” cada vez mais tem significado “liberdade para se lançar ao mercado”. De forma que, cada vez mais, a universidade tem tido o rendimento como finalidade, a burocracia como meio e as leis do mercado como condição. De forma que, cada vez mais, a universidade tem perdido o seu caráter de instituição pública e socialmente referenciada.

Sou da opinião de que o único modelo de universidade, que representa um progresso em direção a justiça social – e não apenas à formação de quadros de mão de obra precária[2] – é o da universidade democrática, verdadeiramente autônoma e financiada publicamente. Neste sentido sou da opinião que tanto o governo – seja o federal com o REUNI ou o ENADE, seja o do governo do estado com o não pagamento do reajuste de professores e funcionários – tem provocado justamente o que eu considero um DESMONTE da universidade. Mesmo por que o desmonte é uma transformação como qualquer outra, entretanto ela se diferencia das outras à medida em que caminha na direção contrária de um modelo considerado ideal.

Vinda do alto e a partir do conhecimento do que se passa no alto, a proposta acaba tendo um teor autoritário, pois ignora um outro caminho para essas universidades, caminho que lhes seria sugerido se ouvissem as exigências e as propostas dos professores e dos estudantes envolvidos.Marilena Chauí

Quando o reitor iniciou a sua gestão, eu lembro que ele foi sistematicamente mudando as pessoas que ocupavam determinados postos chave – como o presidente da Coordenadoria de Processos Seletivos, por exemplo. Dentre as várias justificativas que ele utilizava, eu me lembro que ele dizia que o pessoal de antes era “o pessoal do PT” e que agora era “o pessoal dele” e que as razões dele eram “puramente técnicas”. Isso sem contar que, em várias outras declarações eu via ele atribuir a seus adversários de então, “razões políticas”.

Oras, se entendemos que o território político é o território aonde disputam entre si interesses de diferentes setores da sociedade – e aqui dizemos a classe trabalhadora, os setores patronais e mão de obra das classes B e C que buscam no ensino superior uma forma de garantir uma boa colocação no mercado de trabalho – ao dar essa declaração, aparentemente o reitor atribui a si o mérito de tomar decisões que estão “além dessas questões” como se ele sozinho, por conta própria ou através da equipe que ele mesmo contratou pudesse fazer isso.

O primeiro equívoco é que não existem questões “técnicas” que não possuam caráter político. O segundo é que “caráter político” não implica em “caráter partidário”. E terceiro que nenhum dos dois, por si só, é motivo para desqualificação.

Entretanto, a história do Brasil teve, na ditadura militar, exemplos abundantes desse tipo de ideologia. Além do que, o nosso léxico possui uma palavra específica para se referir a ele: a palavra tecnocracia. Que significa a idéia de que os indivíduos que possuem a maior qualificação técnica são os mais – quando não os únicos – autorizados a tomarem as decisões políticas. Entretanto, o problema dessa ideologia, é que ela parte de um recorte bastante parcelar da ciência, como se ela fosse uma coisa única, sem disputas internas, e que não refletissem as contradições da própria sociedade. Como isso não é verdade nem na ciência, que reflete a sociedade e independente da hegemonia de determinadas linhas de pensamento – como o neoliberalismo na economia – deveríamos reconhecer que o fato de uma decisão ser embasada em critérios técnicos, não significa que ela não pode ter motivações nem finalidades políticas, e o fato de ela ser puramente baseada em um critério político, não torna ela ilegítima.

Em parte, esse tipo de ideologia por si só, é reflexo do processo pelo qual vem passando a universidade. Mas mais do que isso, na nossa universidade, eu diria que é a ideologia que o reitor representa[3]. Entretanto, e isso a história também ensina, um dos principais objetivos desse tipo de justificativa é o de dissimular, o de mascarar interesses determinados, via de regra de setores privilegiados da sociedade, como se fossem de interesses gerais.

Foi por causa desse tipo de decisões, por exemplo, que tivemos a dissolução da equipe responsável pela elaboração do vestibular poucos meses antes da realização do mesmo. Assim como a isso devemos a elaboração do vestibular 2007 que, além de ser mal elaborado, contendo várias questões erradas e algumas anuladas, chama de interdisciplinariedade fazer alusão ao escândalo político das sanguessugas ao fazer uma pergunta de Biologia. Talvez, e no momento por falta de evidências eu devo permanecer apenas no terreno das hipóteses, essa decisão (técnica ou política?) guarde alguma relação com os interesses dos donos de cursinhos e colégios particulares de Londrina e região que, sabidamente, foram contrários à mudança do vestibular da UEL de até então.

Outro momento privilegiado para a observação dos verdadeiros interesses da atual administração, que é representada principalmente pelo reitor – por que, afinal de contas, todos os outros pró-reitores e alguns outros membros da atual administração são parte da sua atual “equipe de trabalho” tendo sido eleitos por ele[4] – foi a questão relativa ao Plano de Segurança. E eu digo isso por que, um mês antes de COMEÇAR a discutir o tal Plano com as comunidades do entorno ele já tinha feito essa discussão umas três vezes no Rotary, uma vez no Fórum de Desenvolvimento de Londrina, e também na subseção regional da OAB. Ou seja, na minha interpretação – e por mais que ele tenha dito de que ele fez isso para conversar com a sociedade – a última coisa que ele estava disposto mesmo era fazer isso. A não ser que nós entendamos essas entidades como o retrato da sociedade, coisa que não são. Eles são o retrato de uma parcela bastante determinada da sociedade londrinense: seus setores patronais, sua burguesia, seus empresários.

Ainda a respeito do Plano de Segurança, vale lembrar as declarações feitas pelo reitor à Folha de Londrina no que se refere aos estudantes que participaram da Audiência Pública. De uma forma que eu só posso chamar de dissimulada ele basicamente praticou uma ação conhecida como “desqualificação do interlocutor político” que é uma maneira desonesta de tentar vencer um debate político, apelando não para os argumentos de seu interlocutor, e sim para a sua pessoa. Isso também demonstra, é evidente, a completa falta de diálogo. Primeiro ele afirma que os estudantes que eram contrários ao plano “tinham interesse que a uel ficasse livre para o tráfico”, ou seja, que ou eram viciados, ou eram traficantes. Segundo que ele afirma que, eles só podiam estar sendo financiados por “partidos de ultra esquerda”, partidos esses que ele não esclarece quais são e isso por que eles tinham dinheiro para comprar APITOS, FAIXAS E NARIZES DE PALHAÇO. Como se para esse tipo de coisa fosse necessário um grande financiamento.

Esse ponto em comum, entretanto, não pode apagar as diferenças, pois estas são socialmente determinadas e delas emanam diferentes perspectivas sobre o sentido e os fins da universidade, e, portanto, incidem diretamente sobre projetos para sua reforma. E por que essas perspectivas são pontos de vista de classes sociais, não há como evitar a percepção de seus antagonismos políticos tácitos. – Marilena Chauí

Por outro lado percebe-se que o reitor, em algumas situações, coloca-se na posição de mero aplicador das leis às quais está submetido. E eu digo isso por que duas vezes, quando cortou o passe de muitos servidores, e quando cortou o financiamento dos Centros Acadêmicos de diversos cursos, ele o fez afirmando que estava apenas cumprindo deliberações do Tribunal de Contas. Entretanto, se fôssemos fazer uma análise mais detida, veríamos que isso não é verdade.

Veja por exemplo o embate relacionado ao aumento de Cargos Comissionados e Funções Gratificadas (os FG´s e CC`s): A reitoria só voltou atrás quando percebeu que independente de eles terem ou não aprovado o reajuste, o Governo do Estado não iria repassar o montante. Montante esse que, inclusive, foi descontado do repasse mensal de Setembro por já estar disponível em caixa. Além do fato curioso de se legislar em causa própria, desde que sabemos que quem concede FG´s e CC´s é a própria reitoria, a defesa do reajuste, baseada no anexo único do decreto 5.695/2005 – que prevê a remuneração pelo exercício de encargos especiais e contempla a administração direta e autarquias do Poder Executivo – se baseou na defesa de que a universidade é uma autarquia. Interpretação essa bastante particular e em flagrante contradição com a interpretação da própria Secretaria de Tecnologia e Ensino Superior, a SETI.

Por outro lado temos a implementação do Ponto Eletrônico que entrava em flagrante contradição com o Artigo 40 do Regulamento de Pessoal da Universidade, que afirmava “cada órgão ou unidade proporá o sistema de registro de freqüência que pretende adotar”. Entretanto a existência desse artigo não foi empecilho para a aprovação da medida no Conselho de Administração – através da resolução 141/07. Nesta ocasião, um membro da atual administração, afirmou que o RPU era obsoleto, como uma forma de justificar o seu não cumprimento. Por outro lado foram justamente as normas desse RPU obsoleto que eles se utilizaram para a contratação de Assessores Especiais passando apenas pelo Conselho Universitário. Medida fortemente questionada, devido ao seu caráter político e devido às altas remunerações envolvidas, o que justificava que a discussão passasse pelo Conselho de Administração, que tem a prerrogativa de decidir sobre todos os custos da universidade.

Percebe-se, portanto, que o modus operandi da atual administração revela um caráter autocrático cuja última preocupação é com a participação nas decisões.

A despeito disso, entretanto, o reitor se acha no direito de criticar os alunos por não terem eleito representantes nos conselhos[5]. Oras, como ele acha que pode dizer isso sendo que ele próprio, através de sua assessoria, indeferiu duas vezes os nomes que foram protocolados? Pois bem, ele afirma que isso foi feito seguindo normas do regimento, que diz que os representantes dos estudantes devem ser eleitos pelo seu diretório. Entretanto, se o estatuto do próprio diretório diz que, na ausência de uma diretoria eleita a gestão provisória representa o DCE, como ele pode indeferir nomes propostos pela própria gestão?

Vinícius Morais Simões


[1] Artigo redigido como resposta à ameaça de processo por difamação feita pelo reitor, Wilmar Marçal, à minha pessoa, através do seu Assessor Jurídico, Sr Rui Carneiro.

[2] A Constituição Federal diz que a finalidade da educação é, primeiro, o desenvolvimento das capacidades do indivíduo, segundo, a qualificação para o trabalho e, terceiro, a preparação para o exercício da cidadania.

[3] Veja por exemplo a aprovação da proposta de que para ser reitor é necessário ser doutor.

[4] Reitor anuncia nova equipe de trabalho na UEL Notícia Publicada no Jornal Londrix dia 08 de Junho de 2006 http://www.londrix.com/noticias.php?id=22621

[5] Segurança e Democracia entrevista veiculada no espaço Opinião do Jornal Notícia do dia 25 de Abril de 2007.

01
mar
08

DCE promove Semana do Movimento Estudantil

O DCE – gestão Cala Boca já Morreu!!! está organizando para os Calouros e demais estudantes a Semana do Movimento Estudantil. Os palestrantes serão professores e estudantes da UEL e de outras Universidades.

Programação

10/03 – 19h30 – Anfiteatro Maior do CCH – Palestra e debate sobre Opressões (mulheres/negros/indígenas/homossexuais)

11/03 – 14 horas – Sala 670 do CECA – Oficina de Stencil do Movimento Passe-livre (com Marcos – estudante de Design Gráfico da UEL)

11/03 – 19h30 – Anfiteatro da Morfologia (Anatomia CCB) – Debate sobre Acesso e Permanência do estudante na Universidade.

12/03 – 14h30 – Sala 670 do CECA – Reunião do Movimento Londrinense contra a Repressão

12/03 – 19h30 – Anfiteatro da Morfologia – Palestra e Debate sobre REUNI (Programa de Reestrururação das Universidades) e Reforma Universitária

13/03 – 16 horas – Sala de Eventos do CCH – Debate sobre Entidades e Movimento Estudantil

Fonte: Agência UEL de Notícias

20
nov
07

TEXTO DO PROFESSOR ROBERTO LEHER SOBRE A INVASÃO DA PF À REITORIA-UFBA EM 15/11/07

DESOCUPAÇÃO MANU MILITARI REIVINDICADA PELO REITOR DA UFBA: UMA AMEAÇA A TODAS AS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Roberto Leher (FEUFRJ)

Em um contexto muito distinto, pois as proporções da ocupação estudantil eram incomensuravelmente maiores, Albert Einstein ligou para seu amigo, Max Born, igualmente um grande físico, Nobel de 1954, para expressar sua preocupação com o fato de que um grupo de estudantes revolucionários tinha ocupado a Universidade de Berlim, por ocasião do final da I Guerra Mundial, e prendido o reitor e alguns professores. Mesmo estando os estudantes armados – o confronto militar ainda não havia cessado inteiramente – Einstein não hesitou em se dirigir à universidade para dialogar com os jovens. Por sua respeitabilidade como professor e cientista, ele pôde entrar na universidade ocupada, defender o valor da liberdade acadêmica e, a seguir, intermediar as negociações com o presidente recém eleito, Friedrich Ebert, solucionando o conflito sem repressão e arrogância.

Quase 90 anos após este episódio, por ordem do reitor da UFBa, na data comemorativa da proclamação da “República”, ao raiar do dia, a Polícia Federal invadiu a Reitoria ocupada por estudantes há 46 dias, usando da força, levando estudantes de camburão para a Polícia Federal e despejando seus utensílios como se fossem lixo. Considerando o contraste com a postura de Einstein, não surpreenderá se o reitor abrir um processo interno para jubiliar os jovens que estavam ocupando um espaço público para reivindicar o debate democrático sobre um projeto de reestruturação da universidade. Por imposição do MEC e aquiescência do reitor com o ato heterônomo do governo, o referido projeto foi votado a toque de caixa, sem real discussão com a comunidade acadêmica, via-de-regra em sessões que violaram os valores acadêmicos mais estruturantes da instituição universitária, como o esclarecimento, o diálogo entre os pontos de vista divergentes e a publicidade dos atos nos colegiados universitários.

Tive o privilégio de ter sido convidado para uma conversa informal com os estudantes na ocupação, quatro dias antes da repressão Federal, por ocasião do III Encontro de Educação e Marxismo, realizado na UFBa, no qual faria uma fala no dia seguinte. Em pleno domingo, e ao mesmo tempo em que a duas quadras estava sendo realizado um show conjunto Titãs – Paralamas do Sucesso, cerca de 70 jovens optaram por discutir questões mais profundas da universidade: a sua função social, a autonomia universitária, as consequências da mercantilização e da conversão das universidades federais brasileiras em organizações de ensino terciárias, nos termos bancomundialistas e do projeto Universidade Nova/REUNI.


A abertura da conversa foi a partir de um criativo ato teatral inspirado no teatro do oprimido. A prosa teve como eixo a relevância das lutas estudantis de Córdoba – realizadas no mesmo ano em que Einstein corajosamente defendeu o ethos acadêmico sobre a força policial-militar (1918) – para a reforma das universidades latino-americanas, contra o dogmatismo das oligarquias, das igrejas, dos catedráticos avessos à pesquisa e à docência e em defesa da liberdade de cátedra, da indissociabilidade entre o ensino e a pesquisa, do governo compartilhado, do livre acesso dos jovens à universidade e do compromisso das universidades com os grandes problemas dos povos.

A despeito da existência de pontos de vista distintos, o ambiente na ocupação era radicalmente democrático, respeitoso com a divergência, construtivo no pensar e fazer alternativas à “velha universidade” subordinada à razão instrumental de um capitalismo dependente. Ao lado dos painéis de azulejo, um precioso patrimônio, o alerta de que nada deveria ser colado em cima dos mesmos, pois as instalações da universidade são públicas. Há muito tempo não pude estar em um ambiente em que os valores universitários fossem tão vivos e genuinos. Saí da conversa otimista quanto ao futuro da universidade pública, pois minha convicção de que somente teremos uma reforma radical das universidades públicas com o forte protagonismo estudantil foi reforçada pelas extraordinárias contribuições daqueles estudantes.

Em nome do futuro da universidade podemos celebrar a figura de Einstein. O reitor da UFBA, por outro lado, juntar-se-á a uma seleta galeria de “reitores” que tentou impor os seus pontos de vista por meio da repressão, como foi o caso do ex-”reitor” da UFRJ José Henrique Vilhena, e de todos os que silenciaram coniventes diante do AI-5 e do Decreto 477.
A continuidade das retaliações contra os estudantes tem de ser vista como uma séria ameaça à concepção de universidade como um espaço de liberdade ilimitada em que é possível errar, sonhar e criar. Todos os que defendemos a liberdade acadêmica estaremos acompanhando com atenção os atos da administração para resguardar o direito a livre manifestação dos estudantes que, afinal, na áspera história da América Latina foi decisiva para forjar a universidade latino-americana!




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