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10
Out
09

Hamas nega apoio a casamentos infantis em massa

Vídeo na internet denuncia o “impressionante casamento de 450 meninas”

Publicado em 04 de Agosto de 2009 por Aaaron Klein

2009 WorldNetDaily

O Hamas veementemente negou os rumores da Internet e as matérias publicadas em blogs que denunciam que o grupo Islâmico Palestino realizou uma cerimônia em massa nas quais eram celebrados os casamentos de crianças.

Um vídeo que circula na Internet intitulado “Hamas shocking mass wedding for 450 little girls” (Impressionante casamento em massa de 450 crianças financiado pela Hamas) exibe crianças que aparentam ter de 8 a 10 anos de idade supostamente se casando em uma cerimônia em massa realizada pelo Hamas na última semana. Pequenas garotas vestindo o que se parecem ser vestidos de noiva foram filmadas chegando em carros e então descendo em um corredor com os noivos.

O vídeo e as imagens relacionadas por sua vez foram responsáveis pela criação de inúmeros posts fazendo declarações semelhantes de que o Hamas estava realizando o casamento de centenas de crianças.

A agência WND recebeu um grande volume de e-mails solicitando à organização de notícias que investigasse o assunto.

O Hamas realmente realizou uma cerimônia em massa na última Quinta-Feira na qual aproximadamente mil palestinos celebraram seus casamentos. Muitas das famílias envolvidas disseram que não tinham condições para realizar sua própria festa. Cada noivo recebeu um presente de aproximadamente US$ 500,00 do HAMS, que disse que seus trabalhadores também contribuíram com 5% da sua remuneração mensal para contribuir com o presente de casamento.

Ahmed Jarbour, o oficial do Hamas em Gaza responsável pela realização da atividade, disse à WND que a garota mais nova a se casar na cerimônia tinha 16 anos. Disse também que a maioria das noivas eram maiores de 18 anos de idade.

Jarbour, assim como dois outros oficiais de alto escalão contactados pela WND, se sentiu ofendido pela sugestão de que o Hamas estava financiando o casamento de crianças.

Ele explicou que as menores vistas no vídeo faziam parte da família do noivo ou da noiva. Ele disse que se trata de uma tradição as menores se vestirem de vestidos semelhantes aos das noivas. Disse que as meninas que aparecem no vídeo descendo um corredor com os noivos são membros da família do noivo ou da noiva.

Uma análise do vídeo feita pela WND encontrou algumas garotas, falando em árabe, declarando que iam participar do casamento de um membro da família. As garotas entrevistadas não disseram coisa alguma a respeito de elas mesmas estarem se casando.

Em múltiplas ligações realizadas para os palestinos que participaram do casamento os mesmos afirmaram que as garotinhas não eram elas mesmas as noivas.

O Hamas, entretanto, celebraram o casamento como uma vitória.

“Nós estamos dizendo ao mundo e à América que eles não podem nos negar a alegria e a felicidade”, Mahmoud al-Zahar, Chefe do Hamas em Gaza, disse aos noivos no evento.

03
Mai
09

Programa da Chapa Força Estudantil

http://chapadce2009.blogspot.com

O movimento estudantil da UEL vive um momento decisivo em que precisa dar resposta aos ataques da reitoria, à acelerada privatização da universidade e organizar-se em torno de um programa que o unifique com as lutas mais gerais dos trabalhadores.

Nós, (estudantes que formulamos a tese III para o Congresso do DCE-UEL, que nos dedicamos à organização da calourada 2009 e do jornal da recepção) compusemos a chapa FORÇA ESTUDANTIL por meio de plenárias, valorizando a organização em torno de idéias e princípios claros.

Nossas propostas para a diretoria do DCE:

Autonomia e Democracia na Universidade!

- Levantar a bandeira de uma universidade autônoma, pública, gratuita e laica. Que se auto governe, sem a interferência do Estado e de nenhum outro poder acima dela; que tenha plena liberdade e democracia;
- Eleição direta dos dirigentes da Universidade sem interferência do governador.
Voto universal considerando que todo membro da comunidade universitária é um cidadão igual aos outros com os mesmos direitos e deveres e que existe diversidade de posicionamentos tanto entre estudantes como entre docentes e funcionários.
- Organizar manifestações contra ações que ferem a autonomia e a democracia da Universidade como o atual plano de segurança que a reitoria quer implementar. Exigir que a discussão sobre o plano (muro e polícia no campus) seja submetida à Assembléia Geral Universitária, assim como todos os assuntos pertinentes aos membros da Universidade, não aceitar que uma minoria fale por todos;
- Garantir o preenchimento da representação estudantil nos conselhos superiores, propondo uma atuação que denuncie as ações da burocracia universitária; e lutar pela paridade nestes conselhos.

  • Organizar imediatamente a resistência junto com os funcionários e professores à proposta de mudar a regra eleitoral para eleição do Reitor, instituindo o voto da LDB que dá aos docentes o peso de 70% e apenas 15% para estudantes e funcionários.

Contra a privatização, abaixo todas as taxas!

· Exigir o fim das fundações como a FAUEL, HUtec e ITEDES que sobrevivem da cobrança de taxas (taxas para ter acesso ao certificado, atestado; multas por atraso de livros; cobrança de cursos como línguas, esportes, especialização lato sensu, etc.). A burocracia utiliza o argumento de um orçamento mais autônomo, enquanto na realidade utiliza a universidade como negócio, meio de lucro e “caixa dois” das reitorias. Além disso, isenta o Estado da responsabilidade de financiar integralmente o orçamento da educação.
· Rechaçar as políticas privatistas de educação do Governo Lula, como o REUNI; PROUNI e ENADE, assim como a Educação A Distância, vista pela burocracia como um mero negócio para vender diplomas;

Por uma frente anti-burocrática para trazer a UNE para o caminho da luta. Em defesa da Unidade!

· Defender a unidade do movimento estudantil e construir um grupo de oposição dentro da UNE, através da ampla unidade dos estudantes da UEL, Paraná e do Brasil, para pôr fim à burocracia que permanece há anos e reconquistar a entidade, visto a importância de uma frente única representante dos reais interesses estudantis; A divisão enfraquece a luta: que o Congresso Nacional de Estudantes organize essa intervenção anti-burocrática e unitária;

Em defesa da democracia estudantil!

Executar uma política que impulsione as lutas, que seja anti-burocrática, que respeite e fortaleça as instâncias coletivas, que reconheça a necessidade de fazer a informação circular e que aposte na formação política permanente;

· Compreender a informação como base para a politização e organização. Propagar as bandeiras de luta e ampliar a base estudantil por meio de um jornal elaborado coletivamente, de boletins, campanhas de cartazes, stencil, lamb e demais formas de comunicação.
· Resgatar a democracia estudantil: a diretoria deve convocar regularmente e se subordinar às decisões do Conselho Deliberativo, Assembléia e Congresso.
· Lutar conjuntamente com professores e funcionários da UEL, assim como com os estudantes das outras universidades do Paraná e Brasil;
· Buscar o fortalecimento dos vínculos com lutas dos trabalhadores em Londrina (transporte, contra repressão, articulação com bairros);
· As finanças do DCE devem ser controladas pela base, com transparência e prestação de contas. Os estudantes devem saber de onde vem o dinheiro e decidir como este deve ser utilizado.

Pelo acesso e permanência como parte do direito à educação!

Superar a perspectiva assistencialista que exige igualdade de acesso e permanência em todos os níveis de ensino como parte do direito à educação. São partes deste direito a gratuidade do transporte (luta pelo passe livre), da alimentação (pela construção de um novo RU e fim da taxa) e da moradia.

Não há como defender o acesso irrestrito ao ensino superior público (fim do vestibular) sem atacar a mercantilização da educação, por isso defendemos a estatização do sistema privado de ensino.

Rearticular o Movimento Estudantil

Reorganizar o DCE e reagrupar os estudantes dispostos a lutar é uma tarefa urgente. Para saber a que práticas daremos continuidade e com quais práticas queremos romper é importante fazermos um balanço das últimas gestões.

De 2005 a 2006 a direção do DCE (PT e PCdoB) se afastou completamente dos estudantes. Este afastamento refletia o apoio dessa direção às políticas privatizantes do governo Lula e também ao governador Roberto Requião e, no plano municipal, ao Prefeito Nedson do PT. Esse grupo saiu enxotado sob acusações de roubo do dinheiro dos estudantes.

Apesar disso, foram realizadas lutas por fora da entidade: como a do passe livre e as da moradia. Os estudantes ficaram por mais de um ano sem eleições, as lutas contra o plano de segurança da reitoria e a definição dos rumos do movimento eram definidas em assembléias periódicas. Neste clima de mobilização foi eleita a chapa Cala a Boca já morreu, que expressava a política do PSol e PSTU. Apesar das expectativas de mudança, a gestão também se mostrou burocratizada e deixou pendentes várias demandas do movimento estudantil:

  • Quanto ao plano de segurança, não deu continuidade às mobilizações de 2007, deixando a reitoria livre para começar a construir o muro em 2008.
  • Na defesa do espaço do DCE do Centro, por irresponsabilidade, perdeu a oportunidade de receber o apoio de diretores estudantis das décadas de 70 e 80, além de não politizar este enfrentamento.
  • Quanto à representação discente nos conselhos superiores da universidade, a assembléia elegeu seus representantes, mas a diretoria nunca os encaminhou, deixando estas cadeiras vazias ou ocupadas precariamente.
  • Para reformular o estatuto da entidade, os estudantes escolheram pela realização de um Congresso. A diretoria era contra, o adiou e na véspera do congresso ainda não havia nem sala reservada para sua realização. Tudo isto contribuiu para que este importante espaço de deliberação dos estudantes não acontecesse.
  • Em vez de encaminhar as eleições antes do fim de sua gestão, a antiga diretoria mais uma vez deixou a entidade ficar sem direção, situação que se arrasta desde novembro de 2008.
  • Em um ano de gestão só foi realizado um jornal do DCE e sem informação não há politização, organização e muito menos mobilização.

A maior parte das lutas que ocorreram no período se deram por fora da diretoria, que no máximo participava destas a reboque. A única atividade em que a diretoria se engajou foi uma viagem para Curitiba, em um ato que expressava a aliança eleitoral entre PSol e PSTU. Tal cenário não deve nos levar ao imobilismo, mas, pelo contrário, deve nos fazer querer retomar nossa entidade, para que ela atenda aos interesses dos estudantes. Já começamos a fazer isto desde o fim de 2008, inicialmente como oposição, nas assembléias, mas também mostrando pela prática que é possível fazer diferente.

Nós, que elaboramos a tese III para o Congresso, junto com outros estudantes e centros acadêmicos que se somaram, organizamos uma semana de recepção em que todas as correntes do movimento puderam se expressar com total liberdade, assim como colocar suas posições no jornal da calourada. Ou seja, com organização, disposição e responsabilidade é possível termos uma entidade que represente os estudantes da UEL. Que aposte na comunicação, politização e mostre dentro e fora da universidade a força que os estudantes têm quando estão organizados.

Presidente: Vinícius Simões – Economia – CESA
Vice: Rafael Chileno – Ciências Sociais – CCH
1o. secretário: Alison Frieling – Especialização em Direito – CCH
2o. secretário: Everton Yukita – Serviço Social – CESA
1o. tesoureiro: André Tolentino – Engenharia Civil – CTU
2o. tesoureiro: Jean – Direito – CESA
Oradora: Rebeca Gombi – Pedagogia – CECA

21
Out
07

William Hazlitt – A propósito das alcunhas

Bem, estou relendo “Escritos sobre a Universidade” de Marilena Chauí. Como estou sem idéias para escrever no momento, gostaria de postar esse ensaio interessantíssimo do inglês William Hazlitt que trata sobre “as alcunhas”. Basicamente “alcunha” é apelido mas no ensaio em questão pode ser interpretado de forma mais ampla, como expressão idiomática, desqualificação, chavões e palavras relacionadas, como podem perceber.

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O asssunto é mais importante do que a primeira vista parece. E é tão sério nos seus resultados, como desprezível nos processos de que se serve para atingi-los. Na maioria dos casos, são as alcunhas que governam o mundo . A história da política, da religião, da literatura, da moralidade e da vida particular de cada um, é quase sempre menos importante que a história das alcunhas … as fogueiras de Smithfield eram atiçadas com alcunhas, e uma alcunha selava os portões do cárcere da Santa Inquisição. As alcunhas são os talimãs e os feitiços coligidos e acionados pela parcela combustível das paixões e dos preconceitos humanos, os quais até agora jogaram com tanta sorte a partida e realizaram seu trabalho com trabalho com mais eficiência que a razão e ainda não parecem fatigados da tarefa que tem tido a seu cargo. As alcunhas são as ferramentas necessárias e portáveis com as quais se pode simplificar o processo de causar dano a alguém, realizando o trabalho no menor prazo e com o menor número de embaraços possíveis . Essas palavras ignominiosas, vis, desprovidas de significado real, irritantes e envenenadas, são os sinais convencionais com que se etiquetam, se marcam, se classificam, os vários comportamentos da sociedade para regalo de uns e animadiversão de outros. As alcunhas são concebidas para serem usadas já prontas, como frases feitas; de todas as espécie de todos os tamanhos, no atacado ou no varejo, para exportação ou para consumo interno em todas as ocasiões da vida … o que há de curioso nesse assunto é que, frequentemente, uma alcunha é sempre um termo de comparação ou relação, isto é, que tem o seu antônimo, embora alcunha e antônimo possam ser ambos possam ser ambos ridículos e insignificantes … A unidade dessa figura do discurso é a seguinte: determinar uma opinião forte, sem ter necessidade de qualquer prova. É uma maneira rápida e resumida de chegar a uma conclusão, sem necessidade de vos incomodardes ou de incomodardes alguém com as formalidades do raciocínios ou os ditames do senso comum. Alcunha sobrepõe a todas as evidências, porque não se aplica a toda gente, e a máxima força e a certeza com que atua e se fixa sobre alguém é inversamente proporcional ao número de probabilidades que tem de fixar-se sobre esse alguém. A fé não passa de impressão vaga; é a malícia e extravagância da acusação que assumem a característica da prova do crime … a alcunha outorga carta branca à imaginação, solta as rédeas à paixão e inibe o uso da razão, conjuntamente. Não se atarda, cerimoniosamente, a diferenciar o que é justo do que é errôneo. Não perde tempo com lentos desenvolvimentos de raciocínio, nem se demora a desmanchar os artifícios da sofística, admite seja o que for, desde que sirva de alimento ao mau humor. É instantânea na maneira de agir. Não há nada que possa interpôr-se entre a alcunha e seu efeito. É acusação apaixonada, sem prova, e ação destituída de pensamento …

 

 

Uma alcunha é uma força de que se dispõe quase sempre para fazer o mal. Veste-se com todos os terrores da abstração incerta e o abuso ao qual se encontra exposta não é limitado senão pela astúcia daqueles que as inventam, ou pela boa fé a quem inferiorizam. Trata-se de um recurso da ignorância, da estreiteza de espírito, da intolerância das mentes fracas e vulgares, que aflora quando a razão fracassa e que está sempre a postos para ser aplicado no momento oportuno com o mais absurdo dos intuitos. Quando acusais especificamente uma pessoa, habitais, dessa maneira, a referida pessoa a defrontar vossas acusações e a repeli-las, se o acusado julgar que vale a pena perder seu tempo com isso; mas uma alcunha frusta todas as réplicas, pelo que há de extremamente vago no que dela se pode inferir, e imprime crescente intensidade às confusas, obscuras, imperfeitas noções pejorativas em conexão com ela, pelo fato de carecer de qualquer base sólida, a qual se fundamente … Uma alcunha traz consigo o peso da soberba, da indolência, da covardia, da ignorância e tudo quanto há de ruim na natureza humana. Uma alcunha atua por simpatia mecânica sobre os nervos da sociedade, pela simples aplicação de uma alcunha, uma pessoa sem dignidade sobre a reputação de qualquer outro, como se não molestando sujar os dedos, devêssemos sempre atirar lama sobre os outros. Haja o que houver de injusto na imputação, ela persistirá; porque embora para o público seja uma distração ver-vos difamados, ninguém ficará a espera de que vos limpeis das manchas que sobre vós foram lançadas. Ninguém escutará vossa defesa. Ela não produz efeito, não conta, não excita qualquer sensação, ou é sentida apenas como uma decepção a pertubar o triunfo obtido sobre vós .

Citação do ensaio “A propósito das alcunhas”, de William Hazlitt, presente no livro de Marilena Chauí, Escritos sobre a Universidade , no artigo “Modernização versus Democracia”.

02
Out
07

Reflexo Invertido – “Debate” sobre a eleição do DCE

Como praticamente todos os conceitos relativos à política, democracia não é uma idéia simples que basta utilizá-la para todos saberem do que se trata. Mesmo por que, dependendo do contexto, ela pode significar coisas muito diferentes. Para algumas pessoas o seu exercício só pode ser aceito mediante o cumprimento de “certas exigências”, enquanto para outras, ela implica em representatividade nas instâncias burocráticas. Por causa disso, por causa dessa indeterminação, em debates públicos é sempre bom esclarecermos qual idéia temos de democracia e de que forma pretendemos garanti-la.

 

Estou falando isso por causa do debate de ontem, o debate que houve entre os estudantes e as chapas que concorrem ao DCE, realizado às 19h30 na Sala de Eventos do CCH. Apenas para constar, eram 4 as chapas inscritas, sendo que a 1 se chama “Cala a boca já morreu” e a chapa 3 se chama “Poeira”. Por mais que apenas duas chapas estivessem presentes, a maior parte dos estudantes que estavam no local já eram velhos conhecidos da chamada Chapa 1. Por conseqüência, a maior parte das dúvidas se dirigiram à outra chapa presente, a Chapa 3. Neste artigo é deste debate que pretendo tratar, ou seja, pretendo tratar dos temas discutidos ontem pelas duas chapas os quais gostaria de criticar.

 

Eu fiz questão de dizer, próximo ao fim do debate, que considerava o debate despolitizado. Digo isso por que várias vezes, fosse tratando a respeito de ideologia, seja tratando a respeito de democracia, eu percebi uma dificuldade de ambas as chapas de admitir os pressupostos classistas por detrás de suas ideologias. No afã de defender a democracia, vista no sentido de ponto de vista defendido através de uma ampla participação universitária, ambas as chapas deram a entender que tornavam flexíveis certos princípios que, na minha opinião, nem de longe deveriam ser negociáveis, como a defesa da classe trabalhadora.

 

Vou dizer com todas as letras: A chapa 3, na minha opinião, é completamente despreparada. Pior do que isso: ela simplesmente faz questão de ignorar como se constrói um processo realmente democrático. E eu não afirmo isso gratuitamente. Quando foi questionado sobre qual era a sua idéia de democracia, o presidente da chapa não foi capaz de lidar diretamente com a situação, tentando contorná-la: “Isso aqui não é lugar para discutir rodapé de livros”. Ora, será que ele ignora que as formas de organização política refletem os interesses de quem está no poder? Que muitas vezes a prática contradiz o discurso, e o que determina se a elevação de determinada hegemonia representa um avanço ou retrocesso não é o que está explícito e sim implícito?

 

Sinceramente, eu não tenho receio de admitir isso: Por mais que eu lute para assegurar a maior participação possível dos próprios estudantes da UEL nas instâncias que, na minha opinião, deveriam ser garantidas por direito, eu acredito que um dos princípios fundamentais para nortear uma transformação qualitativa progressista, ou seja, para melhor, representando um avanço e não um retrocesso, é a defesa da classe trabalhadora. Portanto, por mais que defenda a participação ampla e democrática desse pressuposto não abro mão.

 

Por isso notei uma certa contradição no discurso dele. Como todos os que estavam presentes puderam testemunhar, eu fiz questão de fazer novamente a pergunta que havia feito durante o período da manhã. A pergunta era a seguinte: “Considerando que, segundo dados do IBGE, mais de 50% dos estudantes que freqüentam a Universidade Pública pertencem à camada dos 20% mais ricos da população[1], como vocês pretendem defender a necessidade ou importância dessa instituição se ela é, basicamente, uma instituição para satisfazer os interesses das classes privilegiadas?”. Ora, ao mesmo tempo em que eles afirmavam que não pretendiam defender nenhum “ponto de vista fechado” (como se ter um ponto de vista classista fosse sinônimo de defender a autocracia) eles afirmavam que buscavam garantir a satisfação dos interesses da classe trabalhadora. A pergunta que fica implícita, portanto, é “como”. Aparentemente, pelo menos, há um paradoxo. E eu digo isso por que, a partir do momento em que a Universidade é constituída principalmente pelos filhos daqueles que consideramos parte das “elites” como uma organização feita a partir da participação destes indivíduos poderia garantir a satisfação dos interesses das classes trabalhadoras?

 

Uma coisa que devemos observar é de que forma a Universidade Pública reflete a sociedade. Na minha opinião, ela é um reflexo invertido, que, devido às suas características, acaba atuando como instituição legitimadora da ordem vigente. Quando eu digo reflexo invertido, deve-se ao fato de, as camadas excluídas da população, as camadas que vivem à margem da sociedade de consumo, que, na sociedade, são maioria, serem representadas como uma minoria sendo que, por outro lado, as classes privilegiadas, que na sociedade são minoria, serem representadas na Universidade como uma maioria. Quando eu digo instituição legitimadora, deve-se ao fato de que, ao garantir diplomas à classe privilegiada ela está atribuindo um poder simbólico (o da formação técnica) a quem já detinha um poder real (que é fundamentalmente econômico).

 

Entretanto, como não devemos aceitar a idéia de democracia como ditadura da maioria, devemos reconhecer que determinadas práticas, por mais democráticas que pretendam ser, simplesmente não devem ser aceitas. E uma dessas práticas, na minha opinião, é a própria exclusão social. Se antigamente a formação em nível superior funcionava como uma espécie de escada que permitia a ascensão social, hoje, por força das circunstâncias, ela é praticamente obrigatória para quem pretende ter condições minimamente dignas de trabalho. Desta forma, a exclusão da maioria dos jovens em idade universitária, que é feita ao não permitir que estes jovens possam cursar o ensino superior acaba se configurando praticamente em um crime.

 

Eu afirmo isso por causa do seguinte: Na minha opinião há um limite concreto, atual, conjuntural, dentro da universidade, em relação ao quanto ela pode representar de avanço dadas as suas condições. Se fôssemos pensar a universidade exclusivamente intra-muros, estaríamos, no fim, legitimando a exclusão que a própria sociedade opera através da universidade. Isso é o que NÃO devemos fazer. Por mais que seja legítima a defesa do ensino superior público, devemos nos perguntar se é legítimo reivindicarmos que todos paguem por algo que só uma minoria privilegiada possa desfrutar. O que devemos fazer é buscar garantir que não só as pesquisas tenham interesse social, como a extensão não busque o lucro, ou o privilégio de algumas empresas, e o ensino seja acessível a todos.

 

Fiquei muito espantado quando vi companheiros da chapa 1 comprar tão facilmente o discurso da pluralidade, ou do suprapartidarismo, vendido pela chapa 3. Oras, uma coisa é ser apartidário, outra, antipartidário. Mas que raios é suprapartidarismo? Pelo pouco que pude entender do exposto, eles tentavam defender que, apesar de alguns membros da chapa serem ligados a partidos, a chapa pretendia estar acima dessas questões, como se, através da pluralidade de centros pudessem garantir a “neutralidade”. Claro que essa pretensa neutralidade deles pretendia abstrair coisas demais para ter qualquer concretude. Pretendia abstrair, por exemplo, as contradições de classe, da sociedade e seu reflexo na universidade. Além do que, ela pretendia se situar em um plano aonde não existe contradição por que, apesar de tudo, eles não escondiam o fato de que apoiavam a Reforma Universitária (do governo).

 

Ideologia não é falso conhecimento. Não se deve criticar um ponto de vista por ele refletir um viés ideológico como se isso significasse que ele é falso. Fazer isso é partir do pressuposto que, a um ponto de vista ideologicamente enviesado poderíamos contrapor um ponto de vista neutro. E isso é um engano. Nós vivemos em uma sociedade aonde todas as relações são trespassadas por uma contradição fundamental: a luta de classes. As instituições nada mais fazem do que refletir essa contradição. Deixar de reconhecer isso é deixar de reconhecer o fundamental.

 

Ficou implícito nas manifestações da chapa 3, por exemplo, que eles lamentavam o fato de o movimento estudantil não ter à sua disposição “uma voz”. Não, na verdade isso não estava implícito, isso estava explícito. Afinal de contas, foi o que falaram. O que estava implícito era o fato de que eles acreditavam que bastava essa voz para que as reivindicações dos estudantes fossem satisfeitas. Eles afirmaram inclusive, que, dado isso, não seria necessário que estudantes se manifestassem. Portanto, fica evidente de que eles têm uma idéia burocrática de representação.

 

E qual é o erro desse tipo de ideologia? Não reconhecer que vivemos em uma sociedade burguesa. Que direitos não são dados conforme a conveniência das classes dirigentes, e sim, conquistados por grupos organizados através da luta política. Luta política essa que pode passar, mas nem de longe se resume à via institucional. Mesmo por que as instituições, através das determinações do próprio estado, nada mais do que refletir as contradições da sociedade.


[1] http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2007/09/28/materia.2007-09-28.0228258662/view

24
Ago
07

“Debate” com Luiz Schuch – Secretário do ANDES-SN

Hoje participei do “debate” sobre Reforma Universitária, promovido pelo coletivo “Estudantes em Movimento” que ocorreu às 9h no anfiteatro maior do CCH. O mesmo contou com a presença do Secretário Nacional do ANDES (Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior), o Sr Luiz Schuch e faz parte da “Jornada em Defesa da Educação Pública” que é uma Jornada que conta com a presença do P-SOL e do PSTU ao lado do PT e do PC do B (representados, respectivamente, pela FOE, CONLUTE e UJS). Vale lembrar também que o ANDES, após se desfiliar da CUT, se filiou ao CONLUTAS.

 

Escrevi “debate” entre aspas por que além do referido debatedor ser o único a falar na mesa, ele ainda ocupou mais de uma hora do período do encontro o que, em um debate, geralmente se trata de uma breve exposição. Isso sem contar que o horário, que era para ser às 9h foi adiado para as 10h por atraso do próprio palestrante. Pois bem.

 

Confesso que percebi uma certa confusão ideológica por parte do debatedor. Isso aconteceu por que, em um primeiro momento, a impressão que eu tive era a de que ele estava defendendo idéias nacional-desenvolvimentistas. A principal razão pelo que eu me lembro era o apelo que ele fazia à idéia de nação. Posteriormente, após as perguntas iniciais, ele começou a falar de classe trabalhadora e trabalho de base, aparentemente sem mediação com o discurso inicial.

 

Outra coisa que achei meio fora de contexto foi a longa exposição acerca do Haiti. Usar o Haiti como exemplo para comparar modelos educacionais, tudo bem, mas achei desnecessário todo o tempo que o mesmo demorou falando, por exemplo, sobre a economia e a política do Haiti.

 

De modo geral achei a palestra interessante. Apesar disso confesso que ficou aquém do que eu esperava. Primeiro eu achei interessante por que pude ter, mais uma vez, esclarecimento acerca da reforma universitária, do movimento em defesa da educação, dos diferentes modelos de reforma educacional ao redor do mundo e suas conseqüências, dentre outras coisas relacionadas à educação principalmente pública de modo geral, e ao ensino público superior em particular.

 

Agora ficou aquém do que eu esperava por que eu esperava uma análise tanto mais concreta quanto mais radical, assim como esperava um discurso mais mobilizador, que instigasse à reflexão e fornecesse subsídios tanto à análise dos diferentes modelos de reforma universitária quanto para a ação concreta em defesa do ensino público superior.

 

Um debate que é feito, por exemplo, e que foi deixado de lado na exposição do atual secretário, é o de quanto cada vez mais a produção científica da universidade tem se confundido com produção de tecnologia e não de produção de conhecimento ou de cultura. Em linhas gerais ele tratou, por exemplo, da privatização do ensino público assim como da reforma do estado, o que são temas importantes e de grande influência mas, de alguma forma, eu achei que ele ficou devendo de explicitar mais os detalhes, dos mecanismos assim como da forma que tem sido feita a reforma institucional.

 

Detalhes como bolsas, avaliações institucionais, os critérios dos institutos de fomento à pesquisa, o perfil da destinação desses institutos, o nível atual da produção científica na universidade, a destinação que é dada a essa produção que é feita, a propriedade intelectual dessa produção, os seus usos, dentre uma série de coisas.

 

Realmente, a questão da Reforma Universitária se tornou muito complexa. Antigamente a expressão se referia “apenas” à Lei de Inovação Tecnológica, o SINAES, o PROUNI, as Leis de Fundações e as Parcerias Público-Privadas. Hoje, além de tudo ainda há a Universidade Nova, o REUNI e o PROUNI-2. Mas além disso, eu sei que existe a proposta do ANDES assim como existe todo um acúmulo de discussões do Fórum Nacional em Defesa da Educação que, já tinha definido, pelo menos em linhas gerais, todo um plano de reforma do ensino como um todo.

 

Entretanto, de alguma forma, eu acredito que o secretário poderia ter sido mais minucioso na exposição dos princípios e dos elementos dos conteúdos das respectivas reformas, assim como das questões mais atuais a respeito da educação superior. Isso por si só teria tido um efeito muito grande a partir do momento em que esse mínimo de formação/informação, que poderia muito bem ter sido pautado historicamente, subsidiaria a formação militante.

 

Por último e apenas para não esquecer eu gostaria de observar que eu aprecio muito a forma como esse pessoal (Com o Luís Alan não foi diferente) apresenta o conteúdo das reformas que são propostas com elementos semelhantes propostos em outros países.

31
Mai
07

Sobre a Audiência Pública

Gostaria de aproveitar o espaço para prestar alguns esclarecimentos acerca da Audiência Pública – proposta pela Reitoria da UEL – que deveria ter sido realizada ontem, dia 30 de Maio, às 19hs.

A decisão de dar a audiência por encerrada partiu da própria Reitoria. Quem propôs que se não fosse permitido ao Vice-Reitor continuar a fazer sua apresentação – que eu chamo mais de apologia ou até propaganda do que apresentação – a audiência seria encerrada foi a própria Reitoria, através da pessoa designada para servir de mestre de cerimônias.

A manifestação dos estudantes foi no sentido de não permitir ao Vice-Reitor falar mais do que 5 minutos. E isso se deve ao fato de que 5 minutos era o tempo determinado para as outras pessoas falarem. Isto quer dizer: A manifestação dos estudantes foi no sentido de exigir uma participação igual da reitoria.

Essa determinação foi tirada através de uma comissão formada para decidir acerca do formato da audiência aonde as propostas eram votadas. A comissão era formada por 12 pessoas aonde havia apenas 4 estudantes. Todos os estudantes foram contra a proposta de 30 minutos da reitoria. Inclusive já havia sido solicitado que o tempo anterior, que era de 15, fosse diminuído para 5 minutos, para que todos tivessem tempo igual.

Como os próprios estudantes perceberam que a reitoria não estava disposta a falar E permitir que o mesmo tempo que ela utilizasse fosse utilizado pelas outras pessoas – e isso não inclui apenas estudantes, mas outros representantes, como representantes de professores e representantes das comunidades externas – os estudantes começaram a clamar o prosseguimento do debate através do estabelecimento da mesa. Quer dizer: Os estudantes não podem ser acusados de não estarem interessados que a Audiência Pública fosse realizada. A verdade é que eles até aceitavam que a Audiência Pública fosse realizada, desde que fosse feita de forma justa e democrática.

O Movimento Estudantil tinha sim interesse em participar da Audiência Pública. E o que me autoriza a falar isso é o fato de ter participado de todas as Assembléias, dos Estudantes e Unificada. E digo isso justamente por que essas foram as deliberações e encaminhamentos tiradas dessas assembléias. Mas é como eu disse: desde que fosse feita de forma democrática.

Um grande número dos estudantes presentes havia passado por todo um processo de discussão acerca do Plano de Segurança. Apesar de algumas pessoas presentes possivelmente não, e isso é possível de acontecer em qualquer movimento, o movimento tinha sim pessoas capacitadas para discutir a respeito do referido Plano.

O Movimento Estudantil agiu dessa forma justamente para não permitir a legitimação do Plano de Segurança. Essa era a maior armadilha armada pela Reitoria na qual, através da manifestação, o Movimento se recusou a cair. Muitos dos líderes de comunidades que estariam presentes, por exemplo, além terem vindo apenas defender posições pessoais, ou seja, não legitimadas pela participação das pessoas que representam acerca da questão, haviam passado por um processo de “diálogo” com a Reitoria que, na verdade, se assemelhava muito mais a uma prática clientelista.

Por último gostaria de dizer que, apesar de as razões divergirem, os manifestantes do movimento estudantil tinham uma opinião comum que basicamente se resumia a ser contra tanto a construção do muro quanto à presença da polícia no campus.

Por uma UEL sem muros!

26
Mai
07

Autoritarismo e inconstitucionalidade

Autoritarismo e inconstitucionalidade: os decretos do governador Serra, o projeto de “super Executivo” e as mobilizações dos estudantes paulistas

Andriei Gutierrez

(Aluno da Unicamp)

andriei.gutierrez@uol.com.br

O conjunto de decretos expedidos pelo governador José Serra no início do seu mandato não corresponde somente a políticas de intervenção governamental na autonomia universitária. Muito menos a políticas de fiscalização e submissão das atividades das universidades aos interesses e controles da sociedade como muito se alardeou. É preciso atentar para os fatos e analisar o impacto profundo que os decretos representam nas sociedades paulista e brasileira.

Analisados em seu conjunto, os decretos do atual Governo do Estado de São Paulo materializam uma política de construção autoritária de uma espécie de “super Executivo” constituído pelo Governador e por seus Secretários indicados. Autoritária sim, porque não foi discutida nem deliberada na instância representativa responsável pela feitura das leis, no caso a Assembléia Legislativa de São Paulo, e porque se utiliza dos recursos repressivos do Estado para implantá-las “na marra” para o conjunto da sociedade, como estamos vendo no tratamento dispensado aos estudantes paulistas que resistem a aceitá-las.

O projeto conservador de construção autoritária do “super Executivo” em São Paulo significa a experiência preparatória para um futuro Governo Federal do PSDB, uma espécie de especialização do “governo das medidas provisórias” de Fernando Henrique Cardoso. A idéia é vincular todos os recursos orçamentários e sua aplicação à “canetada” do “homem-forte” do Executivo, pessoa que dita as regras e se protege numa estrutura supostamente fiscalizatória constituída por seus secretários e um conjunto de órgãos de execução por estes compostos. Lembra em muito a idéia próxima do Leviatã de Thomas Hobbes: uma vez feito o pacto social e instituído o governante e a estrutura executiva a seu serviço, gozam de direitos absolutos por meio da aplicação de uma política “econômica-orçamentária-administrativa”, que vigora até a eleição seguinte. Vejamos como funciona o projeto em seu conjunto.

O decreto 51.630, de 9 de março de 2007, cria um sistema que concentra no âmbito do Executivo todo o controle e fiscalização anual orçamentário estatal, no caso específico o Sistema Integrado de Administração Financeira para Estados e Municípios, SIAFEM/SP. Há uma grade de gastos anuais previstos pela Programação Orçamentária da Despesa do Estado que impõe um contingenciamento orçamentário às unidades administrativas, às autarquias e às empresas mistas e engessa todo remanejamento de verba às deliberações do próprio Executivo. No caso dos reajustes e políticas salariais, conforme o decreto 51.660, de 14 de março, o projeto de construção autoritária do “super Executivo” submete as necessidades relativas a salários e benefícios das diferentes unidades administrativas, autarquias e empresas mistas ao projeto econômico do Executivo, por meio da Comissão de Política Salarial, que em primeira instância depende da Programação Orçamentária e em última instância da “canetada” do governador. Segundo o referido decreto também elege-se um órgão do Executivo submetido à Comissão de Política Salarial, que é a Secretaria de Gestão Pública, como fórum de negociação e instância de análise das reivindicações e recursos relativos a salários, vantagens ou benefícios de qualquer natureza. Aliás, é interessante observar como a linha política do “super Executivo”, que é garantida por seu “homem-forte”, ampara-se numa ampla rede de proteção do mesmo através da constituição e fragmentação do Executivo em diferentes pastas ou Secretarias, objeto do decreto 51.460, de 1o. de janeiro de 2007. Delineia-se também, no conjunto de decretos, qual é a ambição do projeto global: a redução draconiana do aparelho estatal, por meio do decreto 51.471, de janeiro de 2007, que veda toda e qualquer admissão de pessoal, entendida agora como um “caso excepcional” a ser aprovado pelo próprio Governador do Estado. Fato que leva à precarização dos serviços prestados à sociedade assim como a uma degradação das condições de trabalho dos servidores públicos.

A outra faceta desse projeto autoritário é a sua inconstitucionalidade. Sua aplicação imediata, no Estado de São Paulo, esbarra com algumas disposições legais da Constituição Federal de 1988. É aqui que entram as Universidades Estaduais Paulistas e a luta política legítima dos seus estudantes.

O artigo 207 da Constituição Federal determina que “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”; seu parágrafo primeiro assegura às mesmas o direito de admitir professores, técnicos e cientistas estrangeiros. Como se pode ver, o conjunto de decretos tira às universidades sua autonomia administrativa, de gestão financeira e de contratação, contrariando direitos garantidos pelo artigo 207 ao não só interferir sobre contratações mas também engessar a aplicação orçamentária. Mas não é só isso. O decreto 51.460, que dispõe sobre a organização básica administrativa do Estado, ao separar os ensinos básico, técnico e superior que antes constituíam a Secretaria de Educação, nas Secretarias de Educação, Desenvolvimento e Ensino Superior, respectivamente, interfere no que diz respeito ao princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Por sua vez, o decreto que organiza a Secretaria de Ensino Superior, n. 51.461, de 1o. de jan. de 2007, contraria o parágrafo primeiro do artigo 218 da Constituição Federal que assegura que “a pesquisa científica básica receberá tratamento prioritário do Estado, tendo em vista o bem público e o progresso das ciências”. O referido decreto vem explicitar de modo verbalizado uma prática inconstitucional que vem vigorando implicitamente na última década tanto nas políticas de financiamento de pesquisas do Governo Estadual como do Governo Federal, por meio da políticas da FAPESP e da CAPES. Conforme o artigo 2, inciso III do mesmo decreto, cria-se uma falsa dicotomia entre “pesquisa básica” e “pesquisa operacional”, priorizando o segundo tipo. No atual contexto de contingenciamento de verbas, isto significa a priorização das pesquisas com possíveis valores mercadológicos deixando de lado as pesquisas básicas voltadas à preocupação com o progresso das ciências.

É neste sentido que as mobilizações dos estudantes da USP, Unicamp e Unesp, que eclodiram nos últimos meses e que se intensificam nos dias atuais, são um bastião legítimo de defesa da nossa democracia, na medida em que lutam para resguardar o princípio de representação legislativa contra um projeto de construção autoritária de um Executivo antidemocrático via decretos, e também na medida em que defendem a autonomia universitária e a preocupação com o progresso das ciências que são necessários a um projeto de nação soberana, ambos reconhecidos e garantidos pela Constituição de 1988. Se esta última e seus princípios representam algo à sociedade brasileira, todos os setores mobilizados da sociedade deveriam apoiar as reivindicações dos estudantes paulistas e avançar a defesa da democracia brasileira através da revogação dos decretos.