24
maio
07

A Luta do Cursinho Popular da UEL

O Cursinho Popular da UEL é um Projeto de Extensão ligado diretamente à Reitoria e criado na administração Jackson Proença Testa (por incrível que pareça). Para quem não sabe, a administração Jackson foi uma administração que esteve envolvida em vários escândalos se constituindo em um período tenebroso da história da nossa Universidade. Para terem uma idéia, o Anfiteatro que caiu e matou duas (?) pessoas foi criado na Administração dele. Existem boatos que dizem que o Cursinho foi criado com fins basicamente eleitoreiros pois, com a sua criação, o ex-reitor pretendia ganhar publicidade o suficiente para se reeleger.

Entretanto, o Cursinho é voltado para pessoas carentes. Tanto é assim que, para uma pessoa ser aceita nele, ela precisa passar por uma “triagem sócio-econômica” que avalia se as pessoas que estão ingressando não poderiam mesmo ter aulas em um cursinho particular. E, por favor, quando eu digo “carentes” eu não quero dizer que elas são exceção por lhes faltar algo que todo mundo tem, não, quando eu digo “carentes” eu quero dizer no sentido de que elas são as pessoas que são vítimas da exclusão operada pela própria sociedade.

Todos nós temos o “privilégio” de participar de uma Universidade Pública. É um direito adquirido nosso, por mérito, que nos permite que possamos participar da educação em Nível Superior. Entretanto, alguns de nós, eu inclusive, devemos reconhecer que a competição não tem sido justa. Por causa disso, o “direito”, acaba se tornando uma espécie de “privilégio”. Eu fiz cursinho particular, eu estudei em colégio particular. Infelizmente, e a despeito do esforço dos professores que dão o seu sangue para manter a educação pública uma educação de qualidade, quem estuda em colégio público e quem estuda em colégio particular concorrem em uma desigualdade muito grande de condições.

Entretanto, para que as pessoas que saíssem do Colegial pudessem participar da vida acadêmica, criaram-se os cursinhos. Só que isso era, basicamente, restrito a instituições privadas. Isto quer dizer que para as pessoas que tivessem terminado o colegial, se não tivessem condições, teriam que optar ou por estudar por conta própria – o que é inviável para muitas pessoas – ou desistir da vida acadêmica.

Para suprir essa deficiência surgiu o “Cursinho POPULAR” da UEL. E eu digo isso, basicamente, por reconhecer que esse Cursinho preenche um espaço bastante sensível da questão universitária: A questão relativa à grande diferença entre o perfil sócio-econômico de quem consegue ingressar em uma Universidade Pública e o do resto da nossa sociedade. Diferença que podemos notar mais acentuadamente à medida em que fôssemos tratar dos cursos de “maior prestígio” (o que, em outras palavras significa os “mais concorridos”). Sabemos que existe uma correlação de forças desigual na sociedade e, na medida em que não são criadas condições para corrigir essas desigualdades, ela acaba se tornando cada vez mais agravante. Uma iniciativa como essa, como um Cursinho Popular, ajuda justamente nisso: diminuir a desigualdade de condições.

Afinal de contas que mérito há em se ganhar uma corrida se corremos de Ferrari e o nosso adversário de Fusca?

Entretanto, o Cursinho Popular da UEL é voltado fundamentalmente para o vestibular dessa Universidade. Por causa disso, o seu Projeto Pedagógico é basicamente voltado para ela, também.

Gostaria que entendessem que toda essa exposição é necessária para se explicar os problemas relativos às reivindicações que o “Cursinho Popular da UEL” (CEPV – UEL) vem fazendo.

E, por que isso?

Em excelente artigo que trata sobre as mudanças no Vestibular da UEL, o Professor Elve Miguel Cenci, do Dep. de Filosofia da UEL analisa as mudanças ocorridas neste vestibular durante os últimos anos. Resumidamente, ele explica que o caráter que este adquiriu, um caráter de cunho interdisciplinar, foi fruto de um amadurecimento da proposta de a Universidade elaborar sua própria prova assim como do cumprimento pioneiro do que, até o momento era apenas uma prescrição, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação incluir a disciplina de Filosofia e Sociologia. Sem contar que em alguns Colégios Públicos essa disciplina havia sido implantada.

Segundo esse professor afirma, esse amadurecimento foi resultado de um processo sistemático de substituição, primeiro da Fundação Carlos Chagas – que anteriormente era a instituição que elaborava o Vestibular da UEL – e depois da Universidade Federal do Paraná – à qual a Universidade Estadual de Londrina solicitou apoio pedagógico na elaboração da prova para a formação de uma equipe própria. Foi um projeto cumulativo de crescente autonomização responsável pela mudança qualitativa do vestibular da UEL.

Quando do começo da proposta, vale lembrar e o próprio Professor Elve cita em seu artigo, houve resistência por parte dos cursinhos e colégios particulares. A principal razão alegada, segundo o mesmo Professor, era a de que havia “falta de tradição” para isso pois “essa disciplina ainda não havia sido implantada nas escolas”. Mas como eu disse anteriormente, era uma sugestão da própria Lei de Diretrizes e Bases que, como o próprio nome afirma, traça “diretrizes” para a regularização do Ensino. Há o entendimento de que essa resistência se deva ao fato de que, a partir do momento em que o Vestibular da UEL se diferenciasse, os Cursinhos Particulares não poderiam usar uma mesma metodologia de ensino para uma série de vestibulares diferentes.

Isso nos remete à mudança do vestibular da UEL. Gostaria de frisar que tudo isso pode ser encontrado no mesmo artigo ao qual estou me referindo, que leva o nome A Experiência da Filosofia na Universidade Estadual de Londrina e que está disponível no seguinte endereço: http://www.espacoacademico.com.br/034/34ccenci.htm

A mudança que houve é centrada na característica da interdisciplinariedade. As questões, portanto, além de serem uma mera justaposição de conteúdos, se inter-relacionavam entre si. A Filosofia, no caso, era utilizada como uma espécie de “fio condutor” que costurava as diferentes disciplinas em um mesmo “tecido temático” de tonalidades representado pelas disciplinas. O resultado disso foi uma prova que valorizava mais o raciocínio crítico-reflexivo e prejudicava, não intencional mas inevitavelmente, o ensino centrado no eixo “treinamento-memorização”. Temos que considerar que, enquanto o formato anterior, defendido pelos cursinhos, privilegiava o aspecto quantitativo em detrimento do qualitativo, o formato novo – que vigorou entre 2003 e 2006 – valorizava o aspecto qualitativo.

Entretanto, uma coisa muito séria aconteceu.

As eleições para Reitor ocorreram, saiu Lígia Puppato e entrou Wilmar Marçal. Como em qualquer situação política, quando um dirigente tem cargos comissionados à sua disposição ele dispensa todo o pessoal que, de alguma forma, estava ligado à reitoria anterior (principalmente quando a mesma não faz parte da sua base de apoio) e coloca pessoas que o apoiaram na sua campanha como uma forma de agradecimento. Por mais antidemocrático que isso possa ser, não é crime, e o nosso atual Reitor não abriu mão dessa oportunidade. E foi exatamente o que ele fez em relação á COPS. Para quem não sabe COPS significa Coordenadoria de Processos Seletivos e é uma Comissão responsável pela elaboração de testes seletivos, incluindo o vestibular.

Entretanto, se apenas isso tivesse acontecido não teria muitos problemas. Afinal de contas, o “grosso” do capital humano estava concentrado na equipe que elaborava as provas do vestibular. Entretanto, inclusive esse pessoal não foi poupado. E pior, próximo à realização do Vestibular, ou seja, deixando um prazo mínimo para a elaboração da prova (aparentemente, em agosto) o Reitor Wilmar Marçal dispensou toda a equipe anterior, e colocou uma nova. O impacto disso, percebam, é de que houve a perda de todo o capital humano, representado por uma equipe que passou por uma transição gradual do formato do concurso vestibular assim como de todo um trabalho de elaboração que vinha sendo feito durante o ano, que seria materializado no Vestibular UEL 2007.

E qual foi a consequência disso? (Dessa mudança na equipe pedagógica da COPS)

Isto podemos avaliar a partir da própria prova. O primeiro exemplo, é o das questões de Geografia. O próprio Departamento de Geografia fez uma avaliação da prova, em que afirma ter sido muito mal formulada e entrou com pedido de esclarecimento, junto à COPS, tanto de algumas questões, que solicitou anulação, quanto da prova em si, que afirma ter substituído o caráter interdisciplinar por multidisciplinar, aonde os conteúdos, ao invés de se relacionarem, apenas se justapõem entre si. Houve confusão de termos “taxa de crescimento” e “taxa geométrica de crescimento” (questão27), confusão de termos “Mares de Morros” (questão 28) assim como erro nos dados (do Brasil, na questão 29) entre outros. O segundo exemplo, é o da prova de Química, aonde, devido ao fato do Colégio Universitário ter entrado com pedido de revisão, duas questões de Química foram anuladas.

A única questão, aparentemente interdisciplinar foi a questão 37, que falava sobre sanguessugas. Mistura alhos com bugalhos, ou seja, a prova foi um verdadeiro fiasco.

Entretanto, devemos reconhecer que a forma dos vestibulares determinam não só a forma, como também o conteúdo cobrado pelos cursinhos, orienta seu plano pedagógico e etc. E isso não era diferente com o Cursinho Popular da UEL principalmente por que, como eu disse, ele era voltado, fundamentalmente, para o Vestibular da UEL. É importante frisar que, certa feita, quando eles suspeitavam que o Vestibular iria mudar, o que ocorreu justa mas não imediatamente após a mudança da equipe pedagógica da COPS, eles estavam pensando em fazer uma manifestação. Por causa disso, segundo informações do próprio pessoal do Cursinho, o Vice-Reitor Sr Cézar Caggiano foi pessoalmente garantir, diante dos alunos, que o Vestibular não ia mudar. Como não foi o que aconteceu, podemos dizer que ele mentiu, não é mesmo?

Imaginem o quanto isso prejudica os estudantes do Cursinho Popular.

Além disso, vale lembrar e isso está presente no Manifesto do Cursinho Popular da UEL, agindo dessa forma a COPS está violando a Resolução 66/2006 do CEPE (Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão) que, no seu artigo 29 estabelece: Na 1º Fase, dia 05 de Novembro de 2006 será aplicada a prova de Conhecimentos Gerais, elaborada na perspectiva interdisciplinar

Dessa forma esclarecemos todas as questões envolvidas com o protesto do Cursinho Popular da UEL. Maiores detalhes podem ser sim relevantes mas, de qualquer maneira, acredito que a questão já está devidamente exposta para que todos possam entender o porquê das reivindicações do Cursinho da UEL. Segue abaixo a pauta de reivindicações do Cursinho:

  • Retorno de uma prova de vestibular crítica, reflexiva e interdisciplinar;
  • Substituição da atual equipe pedagógica da COPS;
  • Esclarecimento Público, por parte dos responsáveis, sobre o descumprimento da resolução CEPE 66/2006, artigo 29.

Vinícius Morais Simões

Estudante do curso de Ciências Econômicas – UEL

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