Arquivo para agosto \24\UTC 2007

24
ago
07

“Debate” com Luiz Schuch – Secretário do ANDES-SN

Hoje participei do “debate” sobre Reforma Universitária, promovido pelo coletivo “Estudantes em Movimento” que ocorreu às 9h no anfiteatro maior do CCH. O mesmo contou com a presença do Secretário Nacional do ANDES (Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior), o Sr Luiz Schuch e faz parte da “Jornada em Defesa da Educação Pública” que é uma Jornada que conta com a presença do P-SOL e do PSTU ao lado do PT e do PC do B (representados, respectivamente, pela FOE, CONLUTE e UJS). Vale lembrar também que o ANDES, após se desfiliar da CUT, se filiou ao CONLUTAS.

 

Escrevi “debate” entre aspas por que além do referido debatedor ser o único a falar na mesa, ele ainda ocupou mais de uma hora do período do encontro o que, em um debate, geralmente se trata de uma breve exposição. Isso sem contar que o horário, que era para ser às 9h foi adiado para as 10h por atraso do próprio palestrante. Pois bem.

 

Confesso que percebi uma certa confusão ideológica por parte do debatedor. Isso aconteceu por que, em um primeiro momento, a impressão que eu tive era a de que ele estava defendendo idéias nacional-desenvolvimentistas. A principal razão pelo que eu me lembro era o apelo que ele fazia à idéia de nação. Posteriormente, após as perguntas iniciais, ele começou a falar de classe trabalhadora e trabalho de base, aparentemente sem mediação com o discurso inicial.

 

Outra coisa que achei meio fora de contexto foi a longa exposição acerca do Haiti. Usar o Haiti como exemplo para comparar modelos educacionais, tudo bem, mas achei desnecessário todo o tempo que o mesmo demorou falando, por exemplo, sobre a economia e a política do Haiti.

 

De modo geral achei a palestra interessante. Apesar disso confesso que ficou aquém do que eu esperava. Primeiro eu achei interessante por que pude ter, mais uma vez, esclarecimento acerca da reforma universitária, do movimento em defesa da educação, dos diferentes modelos de reforma educacional ao redor do mundo e suas conseqüências, dentre outras coisas relacionadas à educação principalmente pública de modo geral, e ao ensino público superior em particular.

 

Agora ficou aquém do que eu esperava por que eu esperava uma análise tanto mais concreta quanto mais radical, assim como esperava um discurso mais mobilizador, que instigasse à reflexão e fornecesse subsídios tanto à análise dos diferentes modelos de reforma universitária quanto para a ação concreta em defesa do ensino público superior.

 

Um debate que é feito, por exemplo, e que foi deixado de lado na exposição do atual secretário, é o de quanto cada vez mais a produção científica da universidade tem se confundido com produção de tecnologia e não de produção de conhecimento ou de cultura. Em linhas gerais ele tratou, por exemplo, da privatização do ensino público assim como da reforma do estado, o que são temas importantes e de grande influência mas, de alguma forma, eu achei que ele ficou devendo de explicitar mais os detalhes, dos mecanismos assim como da forma que tem sido feita a reforma institucional.

 

Detalhes como bolsas, avaliações institucionais, os critérios dos institutos de fomento à pesquisa, o perfil da destinação desses institutos, o nível atual da produção científica na universidade, a destinação que é dada a essa produção que é feita, a propriedade intelectual dessa produção, os seus usos, dentre uma série de coisas.

 

Realmente, a questão da Reforma Universitária se tornou muito complexa. Antigamente a expressão se referia “apenas” à Lei de Inovação Tecnológica, o SINAES, o PROUNI, as Leis de Fundações e as Parcerias Público-Privadas. Hoje, além de tudo ainda há a Universidade Nova, o REUNI e o PROUNI-2. Mas além disso, eu sei que existe a proposta do ANDES assim como existe todo um acúmulo de discussões do Fórum Nacional em Defesa da Educação que, já tinha definido, pelo menos em linhas gerais, todo um plano de reforma do ensino como um todo.

 

Entretanto, de alguma forma, eu acredito que o secretário poderia ter sido mais minucioso na exposição dos princípios e dos elementos dos conteúdos das respectivas reformas, assim como das questões mais atuais a respeito da educação superior. Isso por si só teria tido um efeito muito grande a partir do momento em que esse mínimo de formação/informação, que poderia muito bem ter sido pautado historicamente, subsidiaria a formação militante.

 

Por último e apenas para não esquecer eu gostaria de observar que eu aprecio muito a forma como esse pessoal (Com o Luís Alan não foi diferente) apresenta o conteúdo das reformas que são propostas com elementos semelhantes propostos em outros países.

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09
ago
07

Mentiras, mentiras deslavadas … e estatísticas.

O título acima é uma referência a uma frase comumente atribuída a um ex primeiro-ministro britânico chamado Benjamin Disraeli. Segundo este, havia três tipos de mentiras: Mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas. Algo sugere que a ordem não é acidental.

Acredito que esta afirmação ilustra bem a minha opinião acerca da recente pesquisa publicada pelo Jornal Notícia, um veículo produzido pela COM, Departamento de Comunicação da UEL, órgão ligado diretamente à Reitoria referente ao “Plano de Segurança”, no dia 8 de Agosto de 2007. Gostaria de expor minha crítica em três partes.

A primeira coisa para a qual gostaria de chamar a atenção é entre o abismo entre a pergunta feita e a conclusão tirada a partir dela. A pergunta formulada na entrevista foi “O Sr concorda com a implantação dessas medidas para aumentar a segurança do campus?” e a conclusão tirada foi “Maioria aprova o Plano de Segurança” o que foi o título da matéria exposta na primeira página do jornal e que, junto com dois gráficos que supostamente atestariam a conclusão, ocupam pelo menos ¾ do espaço útil.

A primeira coisa que se nota é o apelo ideológico à palavra “Segurança”. Esta é feita de maneira apressada e superficial, como se o seu sentido fosse evidente e cristalino, o que não é. Por que parte do pressuposto que as medidas visam a aumentar a “segurança como um todo” para pessoas e patrimônio, estudantes, professores e funcionários, ricos e pobres. A julgar pelo tratamento que tem sido dispensado por essa administração da Universidade, principalmente à categoria dos estudantes, desqualificando-os, ameaçando-os e os perseguindo, sinceramente não acredito que a preocupação seja com o bem-estar das pessoas, pelo menos não aquelas pessoas para as quais a preocupação com a segurança do seu patrimônio não é a sua maior preocupação.

A segunda coisa que se nota a partir da pergunta é a operação deliberada de uma separação entre o Plano de Segurança em si e os elementos que o constituem. O que, na minha opinião é uma separação problemática e arbitrária. Mas o mais curioso de tudo isso é que, agindo dessa forma eles ainda se acham no direito de afirmar que, no final das contas, não existem pessoas que se opunham ao Plano como um todo e sim apenas pessoas que se opunham a alguns de seus elementos, como a construção do muro (que será discutida mais tarde). Pelo menos em se tratando do meu caso, a afirmação é falsa pois, como percebo problemática a separação entre “O Plano em si” e “os elementos do Plano” eu simplesmente me posiciono a partir da rejeição “do Plano como um todo”.

Quer dizer que, por serem favoráveis à implantação de medidas de segurança – que porventura as pessoas julgam necessárias devido, inclusive, á campanha da própria reitoria – as pessoas são favoráveis ao Plano? Como uma coisa não necessariamente implica na outra, esse silogismo se constitui simplesmente em mera falácia conhecido, se não me engano, como non sequitur.

A segunda característica da pesquisa para a qual eu gostaria de chamar atenção é o fato de ela ter entrevistado o mesmo número de professores, alunos e funcionários. Claro que uma medida como essa se veste como democrática por permitir que as diferentes categorias que compõem a universidade sejam igualmente representadas. Entretanto, na nossa universidade, o número de professores, funcionários, e principalmente alunos, é completamente diferente, o que transforma essa medida em uma pseudo-democracia censitária, que cria valores para discriminar o valor das pessoas enquanto sujeitos políticos, privilegiando arbitrariamente uma minoria. Uma pesquisa como essa pressupõe que o valor de um professor é 10x maior que o valor de um aluno enquanto sujeito político, mesmo que a implementação dessas medidas de segurança atinjam principalmente a categoria que representa o maior número das pessoas que freqüentam o espaço da universidade: os estudantes. Mesmo que essas medidas vigiem a liberdade, e sujeitem os corpos de todos, enquanto como pessoas, como seres humanos, não há diferença qualitativa que permita dizer que um professor, ou até um funcionário, é mais importante do que um estudante, e uma atitude dessas não se justifica.

Por último, noto uma clara intenção de desqualificar os interlocutores contrários à implementação do Plano. Eu digo isso por que apesar de várias vezes a administração da universidade, e o jornal que lhe serve de porta-voz, afirmarem que a crítica à construção de um “muro” é produto de desinformação, em nenhum momento qualquer um dos dois foi capaz de admitir que era justamente um “muro de alvenaria de 3 metros de altura” que iria ser construído. É justamente dessa forma que o “cercamento” estava descrito nas formas iniciais do Plano de Segurança, e que foi alterado posteriormente justamente por exigência do Instituto Ambiental. Quer dizer, se o muro não está mais escrito, ele já esteve, e se algumas pessoas ainda se referem ao cercamento como muro, se deve principalmente ao próprio Plano de Segurança e não a uma iniciativa deliberada da parte delas de “distorcer” informações. Pode-se até dizer que ainda se faça um uso da expressão “muro” devido ao apelo, mas de forma alguma pode-se afirmar, como a reitoria tenta deixar implícito, de que isto é uma invenção de grupos contrários ao plano.