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Mentiras, mentiras deslavadas … e estatísticas.

O título acima é uma referência a uma frase comumente atribuída a um ex primeiro-ministro britânico chamado Benjamin Disraeli. Segundo este, havia três tipos de mentiras: Mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas. Algo sugere que a ordem não é acidental.

Acredito que esta afirmação ilustra bem a minha opinião acerca da recente pesquisa publicada pelo Jornal Notícia, um veículo produzido pela COM, Departamento de Comunicação da UEL, órgão ligado diretamente à Reitoria referente ao “Plano de Segurança”, no dia 8 de Agosto de 2007. Gostaria de expor minha crítica em três partes.

A primeira coisa para a qual gostaria de chamar a atenção é entre o abismo entre a pergunta feita e a conclusão tirada a partir dela. A pergunta formulada na entrevista foi “O Sr concorda com a implantação dessas medidas para aumentar a segurança do campus?” e a conclusão tirada foi “Maioria aprova o Plano de Segurança” o que foi o título da matéria exposta na primeira página do jornal e que, junto com dois gráficos que supostamente atestariam a conclusão, ocupam pelo menos ¾ do espaço útil.

A primeira coisa que se nota é o apelo ideológico à palavra “Segurança”. Esta é feita de maneira apressada e superficial, como se o seu sentido fosse evidente e cristalino, o que não é. Por que parte do pressuposto que as medidas visam a aumentar a “segurança como um todo” para pessoas e patrimônio, estudantes, professores e funcionários, ricos e pobres. A julgar pelo tratamento que tem sido dispensado por essa administração da Universidade, principalmente à categoria dos estudantes, desqualificando-os, ameaçando-os e os perseguindo, sinceramente não acredito que a preocupação seja com o bem-estar das pessoas, pelo menos não aquelas pessoas para as quais a preocupação com a segurança do seu patrimônio não é a sua maior preocupação.

A segunda coisa que se nota a partir da pergunta é a operação deliberada de uma separação entre o Plano de Segurança em si e os elementos que o constituem. O que, na minha opinião é uma separação problemática e arbitrária. Mas o mais curioso de tudo isso é que, agindo dessa forma eles ainda se acham no direito de afirmar que, no final das contas, não existem pessoas que se opunham ao Plano como um todo e sim apenas pessoas que se opunham a alguns de seus elementos, como a construção do muro (que será discutida mais tarde). Pelo menos em se tratando do meu caso, a afirmação é falsa pois, como percebo problemática a separação entre “O Plano em si” e “os elementos do Plano” eu simplesmente me posiciono a partir da rejeição “do Plano como um todo”.

Quer dizer que, por serem favoráveis à implantação de medidas de segurança – que porventura as pessoas julgam necessárias devido, inclusive, á campanha da própria reitoria – as pessoas são favoráveis ao Plano? Como uma coisa não necessariamente implica na outra, esse silogismo se constitui simplesmente em mera falácia conhecido, se não me engano, como non sequitur.

A segunda característica da pesquisa para a qual eu gostaria de chamar atenção é o fato de ela ter entrevistado o mesmo número de professores, alunos e funcionários. Claro que uma medida como essa se veste como democrática por permitir que as diferentes categorias que compõem a universidade sejam igualmente representadas. Entretanto, na nossa universidade, o número de professores, funcionários, e principalmente alunos, é completamente diferente, o que transforma essa medida em uma pseudo-democracia censitária, que cria valores para discriminar o valor das pessoas enquanto sujeitos políticos, privilegiando arbitrariamente uma minoria. Uma pesquisa como essa pressupõe que o valor de um professor é 10x maior que o valor de um aluno enquanto sujeito político, mesmo que a implementação dessas medidas de segurança atinjam principalmente a categoria que representa o maior número das pessoas que freqüentam o espaço da universidade: os estudantes. Mesmo que essas medidas vigiem a liberdade, e sujeitem os corpos de todos, enquanto como pessoas, como seres humanos, não há diferença qualitativa que permita dizer que um professor, ou até um funcionário, é mais importante do que um estudante, e uma atitude dessas não se justifica.

Por último, noto uma clara intenção de desqualificar os interlocutores contrários à implementação do Plano. Eu digo isso por que apesar de várias vezes a administração da universidade, e o jornal que lhe serve de porta-voz, afirmarem que a crítica à construção de um “muro” é produto de desinformação, em nenhum momento qualquer um dos dois foi capaz de admitir que era justamente um “muro de alvenaria de 3 metros de altura” que iria ser construído. É justamente dessa forma que o “cercamento” estava descrito nas formas iniciais do Plano de Segurança, e que foi alterado posteriormente justamente por exigência do Instituto Ambiental. Quer dizer, se o muro não está mais escrito, ele já esteve, e se algumas pessoas ainda se referem ao cercamento como muro, se deve principalmente ao próprio Plano de Segurança e não a uma iniciativa deliberada da parte delas de “distorcer” informações. Pode-se até dizer que ainda se faça um uso da expressão “muro” devido ao apelo, mas de forma alguma pode-se afirmar, como a reitoria tenta deixar implícito, de que isto é uma invenção de grupos contrários ao plano.

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1 Response to “Mentiras, mentiras deslavadas … e estatísticas.”


  1. setembro 21, 2007 às 11:39 pm

    Não li a postagem inteira, mas Felipe Pena, no seu Teorias do Jornalismo faz comparação semelhante, afirmando que nunca ninguém deve se fiar em estatísticas.


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