Arquivo para outubro \21\UTC 2007

21
out
07

William Hazlitt – A propósito das alcunhas

Bem, estou relendo “Escritos sobre a Universidade” de Marilena Chauí. Como estou sem idéias para escrever no momento, gostaria de postar esse ensaio interessantíssimo do inglês William Hazlitt que trata sobre “as alcunhas”. Basicamente “alcunha” é apelido mas no ensaio em questão pode ser interpretado de forma mais ampla, como expressão idiomática, desqualificação, chavões e palavras relacionadas, como podem perceber.

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O asssunto é mais importante do que a primeira vista parece. E é tão sério nos seus resultados, como desprezível nos processos de que se serve para atingi-los. Na maioria dos casos, são as alcunhas que governam o mundo . A história da política, da religião, da literatura, da moralidade e da vida particular de cada um, é quase sempre menos importante que a história das alcunhas … as fogueiras de Smithfield eram atiçadas com alcunhas, e uma alcunha selava os portões do cárcere da Santa Inquisição. As alcunhas são os talimãs e os feitiços coligidos e acionados pela parcela combustível das paixões e dos preconceitos humanos, os quais até agora jogaram com tanta sorte a partida e realizaram seu trabalho com trabalho com mais eficiência que a razão e ainda não parecem fatigados da tarefa que tem tido a seu cargo. As alcunhas são as ferramentas necessárias e portáveis com as quais se pode simplificar o processo de causar dano a alguém, realizando o trabalho no menor prazo e com o menor número de embaraços possíveis . Essas palavras ignominiosas, vis, desprovidas de significado real, irritantes e envenenadas, são os sinais convencionais com que se etiquetam, se marcam, se classificam, os vários comportamentos da sociedade para regalo de uns e animadiversão de outros. As alcunhas são concebidas para serem usadas já prontas, como frases feitas; de todas as espécie de todos os tamanhos, no atacado ou no varejo, para exportação ou para consumo interno em todas as ocasiões da vida … o que há de curioso nesse assunto é que, frequentemente, uma alcunha é sempre um termo de comparação ou relação, isto é, que tem o seu antônimo, embora alcunha e antônimo possam ser ambos possam ser ambos ridículos e insignificantes … A unidade dessa figura do discurso é a seguinte: determinar uma opinião forte, sem ter necessidade de qualquer prova. É uma maneira rápida e resumida de chegar a uma conclusão, sem necessidade de vos incomodardes ou de incomodardes alguém com as formalidades do raciocínios ou os ditames do senso comum. Alcunha sobrepõe a todas as evidências, porque não se aplica a toda gente, e a máxima força e a certeza com que atua e se fixa sobre alguém é inversamente proporcional ao número de probabilidades que tem de fixar-se sobre esse alguém. A fé não passa de impressão vaga; é a malícia e extravagância da acusação que assumem a característica da prova do crime … a alcunha outorga carta branca à imaginação, solta as rédeas à paixão e inibe o uso da razão, conjuntamente. Não se atarda, cerimoniosamente, a diferenciar o que é justo do que é errôneo. Não perde tempo com lentos desenvolvimentos de raciocínio, nem se demora a desmanchar os artifícios da sofística, admite seja o que for, desde que sirva de alimento ao mau humor. É instantânea na maneira de agir. Não há nada que possa interpôr-se entre a alcunha e seu efeito. É acusação apaixonada, sem prova, e ação destituída de pensamento …

 

 

Uma alcunha é uma força de que se dispõe quase sempre para fazer o mal. Veste-se com todos os terrores da abstração incerta e o abuso ao qual se encontra exposta não é limitado senão pela astúcia daqueles que as inventam, ou pela boa fé a quem inferiorizam. Trata-se de um recurso da ignorância, da estreiteza de espírito, da intolerância das mentes fracas e vulgares, que aflora quando a razão fracassa e que está sempre a postos para ser aplicado no momento oportuno com o mais absurdo dos intuitos. Quando acusais especificamente uma pessoa, habitais, dessa maneira, a referida pessoa a defrontar vossas acusações e a repeli-las, se o acusado julgar que vale a pena perder seu tempo com isso; mas uma alcunha frusta todas as réplicas, pelo que há de extremamente vago no que dela se pode inferir, e imprime crescente intensidade às confusas, obscuras, imperfeitas noções pejorativas em conexão com ela, pelo fato de carecer de qualquer base sólida, a qual se fundamente … Uma alcunha traz consigo o peso da soberba, da indolência, da covardia, da ignorância e tudo quanto há de ruim na natureza humana. Uma alcunha atua por simpatia mecânica sobre os nervos da sociedade, pela simples aplicação de uma alcunha, uma pessoa sem dignidade sobre a reputação de qualquer outro, como se não molestando sujar os dedos, devêssemos sempre atirar lama sobre os outros. Haja o que houver de injusto na imputação, ela persistirá; porque embora para o público seja uma distração ver-vos difamados, ninguém ficará a espera de que vos limpeis das manchas que sobre vós foram lançadas. Ninguém escutará vossa defesa. Ela não produz efeito, não conta, não excita qualquer sensação, ou é sentida apenas como uma decepção a pertubar o triunfo obtido sobre vós .

Citação do ensaio “A propósito das alcunhas”, de William Hazlitt, presente no livro de Marilena Chauí, Escritos sobre a Universidade , no artigo “Modernização versus Democracia”.

15
out
07

Jornalismo Mentiroso

Na edição do Jornal de Londrina do dia 24/04/07 foi apresentada matéria de primeira capa referente às manifestações que ocorreram no Restaurante Universitário. É justamente nesse tipo de situação que nós podemos perceber a quem a ideologia por detrás da mídia corporativa serve. A minha intenção nesse post é revelar justamente isso.

A matéria pode ser encontrada no seguinte endereço: http://canais.rpc.com.br/jl/geral/conteudo.phtml?id=655559 e é escrita por Glória Galembeck. Não sei por que cargas d´água no site aparece Stella Meneghel.

As duas primeiras coisas que eu gostaria de evidenciar são as seguintes:

A primeira se refere ao afirmado apoio da reitoria, e da administração do SEBEC (Serviço de Bem Estar à Comunidade) – órgão ao qual o Restaurante Universitário está ligado – à suposta paralisação dos servidores. Qualquer pessoa com o mínimo senso crítico, na minha opinião, perceberia que essa só pode se tratar de uma jogada da própria administração da Universidade com a clara intenção de denegrir a imagem do Movimento Estudantil.

A segunda se refere à própria paralisação em si, e à matéria veiculada. Primeiro que, para que os servidores do Restaurante Universitário tivessem tomado uma decisão dessas eles teriam que estar minimamente mobilizados, ou seja, que eles tivessem se organizado e tivessem discutido entre si. Eles precisariam de espaço e de tempo que, normalmente, eles não têm. Além do que eles deveriam acreditar que teriam um mínimo de autonomia, que a administração da Universidade não dá para eles, para praticarem esse tipo de ação. E para a matéria ser veiculada seria necessário que, além disso, eles tivessem o interesse e a autonomia de recorrer aos órgãos de imprensa para cuidar da repercussão do encaminhamento tirado.

De forma alguma estou questionando a capacidade dos servidores do RU. Apenas gostaria de deixar claro que duvido muito de que seja isso que tenha acontecido. Por que, como eu disse, a exploração que eles sofrem não lhes dá tempo, espaço e nem autonomia para tal. Eu acredito piamente de que essa matéria foi simplesmente fabricada pela administração da Universidade.

Depois existem os méritos da própria matéria em si.

Basicamente a matéria diz que, se os estudantes voltarem a invadir o Restaurante Universitário, os funcionários iriam parar. E isso por que, com as invasões os funcionários se sentiam coagidos. Primeiro que o Restaurante Universitário se trata de um espaço público. Por causa disso é uma atitude ilegítima do jornal dizer que o estávamos invadindo. Segundo que em nenhum momento nenhum manifestante ameaçou qualquer funcionário. A única ameaça que eu vi que teve foi feita por um estudante pagante que estava na fila, o que não justifica a matéria.

Existem ainda outras questões ainda relativas à manifestação em si. As manifestações ocorreram Quinta e Sexta-Feira e se seguiram à reunião do Conselho de Administração da UEL que aprovou a redução de vagas da Moradia Estudantil, o aumento das taxas administrativas, e a expulsão dos vendedores ambulantes. Portanto, as manifestações começaram Quinta-Feira justamente por se tratar do dia imediatamente posterior à votação.

Muitas das pessoas que residem na Moradia Estudantil, eu acredito que sejam a maioria, simplesmente não poderiam estudar na Universidade se não fossem essas parcas políticas de Assistência, materializadas tanto na Moradia quanto no crédito mais barato. Percebam que, se não fosse esse socorro prestado pela Universidade a essas pessoas, elas simplesmente não estariam fazendo a Universidade, o que deveria ser um direito de todos. Tudo bem que, a educação, por se tratar por um direito, não deveria ser desvinculado de políticas de acesso e permanência entretanto, na absoluta falta dessas, espera-se que, pelo menos, o estado assista às pessoas que mais precisam. É justamente para isso que existem as triagens sócio-econômicas, como as que o SEBEC pratica na hora de selecionar os estudantes para a Moradia Estudantil.

Se uma universidade não pratica essas políticas ela está simples e claramente promovendo uma exclusão social. E é exatamente isso que a UEL vêm fazendo através da diminuição das suas políticas de assistência.

Pois bem, isso tudo foi para explicar a razão das pessoas, na manifestação, terem comido de graça. O que só aconteceu na Quinta-Feira, por que na Sexta-Feira, os funcionários, por ordem do Diretor do SEBEC, retiraram a comida da mesa assim que os manifestantes começaram a pegar as bandejas.

A manifestação na Quinta-Feira teve a seguinte dinâmica: as pessoas entraram pulando pelas roletas de saída, se aglomeraram em volta das mesas e algumas pessoas começaram a discursar. Acabado o discurso, a manifestação, gritando palavras de ordem, se dirigiu ao outro refeitório aonde repetiu o mesmo procedimento. Depois disso os manifestantes entraram na fila da bandeja e começaram a pegar comida.

Eu já disse que é simplesmente uma mentira dizer que os funcionários se sentiram coagidos com a manifestação por que nenhum manifestante, em momento algum, ameaçou os funcionários. Entretanto, gostariam que entendessem o porquê de um estudante pagante, que estava na fila, ter feito isso.

A razão simples é por que a fila estava parada, e a fila estava parada por que os funcionários se recusavam a servir. Entretanto isso se deve ao como a manifestação se desenvolveu naquele dia.

Na Sexta-Feira, saímos bem mais tarde do que na Quinta. Então tinha bem menos gente no refeitório. Como as catracas estavam sendo vigiadas por seguranças, entramos pela porta da frente, abrindo a portinhola de entrada de funcionários.

Fizemos a manifestação no refeitório da esquerda como de costume. Depois disso, alguns manifestantes, eu inclusive, tentamos pegar almoço. Como os funcionários rapidamente tiraram a comida da mesa, nós simplesmente abandonamos nossa bandeja mais à frente. Enquanto isso um grupo de manifestantes tentava atravessar de um refeitório a outro.

Percebam, a manifestação, se fosse seguir como no dia anterior, simplesmente iria discursar em um refeitório, passar para o outro, discursar no outro, e como não ia poder almoçar, ia embora. Entretanto, naquele dia não foi possível passar livremente de um refeitório a outro por que na hora que fomos fazer isso, tinha um cordão de seguranças impedindo a passagem. Quer dizer, a responsabilidade da manifestação ter se estendido além do previsto é da própria administração do SEBEC.

Para quem não sabe, no RU da UEL você tem dois refeitórios, um à esquerda e um à direita. Para escolher um ou outro refeitório, você pode pegar a fila do respectivo refeitório que, de qualquer maneira, são paralelas até chegar às bandejas. Quando você chega às bandejas você segue da esquerda para a direita no refeitório da direita ou da direita para a esquerda no refeitório da esquerda, ao longo de um corredor, aonde você pega os pratinhos com comida.

Pois bem, como estávamos no refeitório da esquerda, atravessando para o da direita, em uma determinada altura do campeonato o cordão de isolamento se desfez e o grupo começou a atravessar para o outro lado. Isso até encontrar com o diretor do SEBEC no fim do corredor do RU. Por causa disso a manifestação ficou aglomerada no corredor (ocupando todo o espaço em frente ao local as pessoas se servem).

Nessa discussão, o tal diretor do SEBEC, o Sr Oswaldo Yokota, afirmou que se os manifestantes se deslocassem para o refeitório da direita, ele liberaria o da esquerda. Por comum acordo nós aceitamos a proposta simplesmente por que não tínhamos interesse algum em prejudicar as pessoas que estavam na fila. Entretanto, enquanto os manifestantes se deslocavam, um dos manifestantes ainda estava discutindo com o Sr Yokota chamou todo o pessoal para ir lá fora discutir. Bem, como isso não foi proposto ao e discutido pelo coletivo dos manifestantes, apenas algumas pessoas foram. Enquanto isso os manifestantes não estavam mais ocupando o corredor.

Eu estava lá dentro. E enquanto estava lá dentro, veio uma moça lá do fundo dizendo que tinha um estudante tentando invadir a cozinha. Eu fui pessoalmente lá ver se isso era verdade, para não permitir que uma mentira dessas fosse inventada e imputada a nós. Pois bem, foi nessa ocasião que eu vi que era um rapaz, pagante, que estava na fila, que estava “coagindo” os funcionários. E isso justamente por que os funcionários se recusavam a servir a comida.

Percebam, portanto, que além de a manifestação se estender além do esperado devido justamente à medida adotada pela administração do SEBEC, o dissabor criado com os outros estudantes deveu-se ao desleal não cumprimento de sua própria proposta praticada pelo Sr Oswaldo Yokota.

Portanto, acho que está claro o quanto essa matéria e esse jornal são mentirosos e indignos de qualquer credibilidade.

10
out
07

Sobre a coisa pública e sua finalidade

Sobre a coisa pública e sua finalidade[1]

Eu não questiono se o “cercamento” da Universidade vai diminuir a ocorrência de delitos: Eu sou contra o cercamento. Eu sou contra a separação do espaço da universidade das comunidades do entorno. Eu não vi no Plano de Segurança uma linha sequer considerando o bem estar dessa comunidade. Comunidade essa na qual a nossa universidade se insere e da qual está se tornando vizinha. E justamente por serem vizinhas me questiono se os problemas de criminalidade que atingem a UEL também não atingem a elas. Saber eu não sei, mesmo por que ainda não tive a oportunidade de fazer este levantamento, mas eu imagino que sim.

Gostaria de salientar também que, no meu entendimento, a comunidade externa não deve ser tratada como uma ameaça e não devemos aceitar a presença da polícia no campus. Pois a medida da implantação de um cercamento serve justamente para separar os problemas que atingem a universidade dos problemas que atingem as comunidades do entorno. Isso, além de discriminar as comunidades do entorno como origem do problema, prejudica o acesso da comunidade à universidade e ameaça aumentar a criminalidade nesses bairros. Sabemos que nem todos os delitos são causados por pessoas da comunidade externa e particularmente não acredito que os recursos que seriam investidos no muro seriam justificados. Neste sentido chega a ser um absurdo retrocesso imaginar uma instituição pública, como a universidade, que deveria ser de livre acesso e servir a todos, se isolando do resto da comunidade. Se você é meu vizinho e nós somos atingidos por um problema em comum, nós deveríamos nos unir para buscar uma solução. Buscar essa solução de maneira conjunta é praticar uma ação genuinamente política, buscar essa solução de maneira isolada é agir de maneira individualista.

Como eu entendo a universidade como um bem público que deveria servir como espaço de produção e divulgação do conhecimento, principalmente voltado à busca de transformação, gostaria também de manifestar o meu desagravo ao caráter conformista e conservador do tal plano. No meu entendimento, mais do que uma adequação aos riscos que a sociedade oferece, e cuja vinculação à violência não é elaborada pelo Capitão Pedro Marcondes, a universidade deveria trabalhar também no sentido de transformar essa realidade. Atividade essa que, também no meu entendimento, sempre foi uma das tarefas fundamentais da universidade. Agir dessa forma, ou seja, buscar tratar dos sintomas do problema, sem antes refletir sobre suas causas e sem buscar evitar que ele ocorra se constitui em um retrocesso que age de maneira incoerente ao que entendemos que deveria ser o papel da universidade.

O principal caráter da minha intervenção, quero deixar bem claro, é o de fazer denúncia: Denunciar as atitudes dessa reitoria. Por causa disso faço questão de chamar a atenção de vocês para coisas que acontecem dentro desta universidade que, ás vezes, vocês não ficam sabendo.

Primeiro: Gostaria que soubessem que essas “discussões” que a reitoria veio fazer com vocês agora, ela já vem fazendo há um mês, pelo menos umas três vezes com o Rotary, uma vez no Fórum de Desenvolvimento e uma vez na subseção da OAB[2]. Isso antes de fazer a discussão com qualquer bairro da comunidade, isso antes de apresentar o Plano na Câmara de Vereadores. O que isso quer dizer? Na minha opinião, isso quer dizer que a última preocupação dele era com a opinião da comunidade sobre o plano. A mesma comunidade à qual a universidade deveria servir, a mesma comunidade à qual a universidade deveria prestar contas.

Na minha opinião ele fez isso para buscar apoio e atrair investimentos. Agora percebam: Vocês acham que os maiores atingidos pelo cercamento da universidade serão os donos das entidades patronais? Os representantes da Associação Comercial? Os sócios do Rotary? Na minha opinião, não. Na minha opinião os maiores atingidos serão as pessoas dos bairros do entorno, principalmente os mais pobres.

Segundo: Essa reitoria vem agindo como se mandasse na universidade. Nem de longe esse reitor se enxerga como um administrador eleito para servir a comunidade que o elegeu. E eu digo isso por que ele tem usado o Conselho de Administração como um órgão homologador, como conselho que serve apenas para assinar embaixo e tornar legítimas as suas decisões. Decisões como a resolução que cortou os passes dos servidores, por exemplo.[3] E não se enganem pensando que, para a presença da polícia no campus se tornar “dentro da lei” será ainda necessária a aprovação desse Plano de Segurança. Não. A polícia já freqüenta a universidade. E essa decisão foi tomada sem a menor participação da comunidade universitária.[4]

Terceiro: Essa reitoria vem questionando a legitimidade da participação dos estudantes. Mas uma coisa que vocês talvez não saibam, e gostaria que soubessem, é que os espaços de participação de estudantes e funcionários nesses conselhos e nesses colegiados, que é aonde a reitoria propõe que algumas dessas discussões sejam feitas, é mínimo. As propostas são decididas através de votação e a participação tanto de estudantes, quanto de funcionários, é mínima. Só para vocês terem uma idéia, no Conselho de Administração participam reitor, vice-reitor, todos os cinco pró-reitores e todos os nove diretores de centro – totalizando 14 pessoas – enquanto os estudantes e os funcionários têm direito a apenas duas cadeiras cada categoria.

Quarto: Esse reitor veio questionar a legitimidade da participação estudantil por causa da incompatibilidade com o que está escrito no regimento da universidade. Entretanto, gostaria que soubessem que, tanto os representantes discentes foram democraticamente eleitos, através de aclamação, em Assembléias quanto que uma das partes desse regimento é o Regulamento de Pessoal da Universidade, que prevê que o controle do pessoal de um Departamento é responsabilidade do próprio departamento. Parte essa pela qual a reitoria não teve a menor consideração quando tentou enfiar o ponto eletrônico goela abaixo dos servidores do HU, do HV e da Clínica Odontológica.

Mesmo nos tempos da Ditadura Militar a polícia raramente entrava nos campus e, quando fazia, era geralmente em regime de exceção. E isso acontecia justamente em respeito ao caráter do espaço em que a universidade se constitui. Portanto, gostaria de deixar claro que não aceito que esse caráter se perca assim como não vou aceitar que a polícia circule livremente pelo campus.

Recentemente dois estudantes da USP foram condenados à prisão. E eles foram condenados à prisão por terem pichado, nas ruas de sua universidade, o chamado para um ato de protesto à corrupção do governo Lula.[5] Pois o que estava em evidência na época era o escândalo do mensalão. Se estes estudantes estavam certos ou errados? Eu não vou entrar no mérito dessa questão. Entretanto lhes pergunto o que representa esse ato diante dos próprios escândalos, da própria corrupção. Lhes pergunto também se essa questão não poderia ter sido resolvida pela própria universidade – que possui guarda própria, que possui prefeitura própria – dentro do campus.

Vou lhes dizer como encaro a universidade: como um bem público. E justamente por ser um bem público, ela pertence a todos nós. Mas – e eu me dirijo principalmente a você, da comunidade externa, que é pai de família e que trabalha – eu lhes convido a questionar a quem essa universidade tem servido. Percebam, eu não estou criticando as pessoas que vêm de fora estudar aqui – que têm uma melhor educação em suas escolas. Mesmo por que, percebam, os filhos daqueles que moram em Londrina e que pagam cursinho ou colégio particular, conseguem passar na UEL. A qualidade do ensino público, médio e fundamental, é inferior ao ensino privado? Talvez. Agora será que tão poucos dentre vocês, ou dentre seus filhos, estejam realmente aptos a cursar o ensino superior? Eu acredito que não. Eu realmente acredito que não é esse o problema.

Antigamente um diploma era uma espécie de passaporte para a ascensão social. Hoje é praticamente uma necessidade para quem deseja ter o menor espaço que seja no mercado de trabalho formal. E mercado de trabalho formal, como todos sabem, implica em carteira assinada, FGTS, férias, seguro desemprego, décimo-terceiro, enfim, direitos trabalhistas. Agora eu pergunto a vocês quem tem tido acesso a esse “passaporte”? Mais especificamente lhes pergunto: será que o filho do rico e o filho do pobre têm tido a mesma oportunidade? Será se eles têm concorrido em igualdade de condições? Não é o que eu vejo aqui nesta universidade. Por causa disso, justamente por causa disso existem iniciativas como o cursinho popular da UEL. Agora gostaria que soubessem que o nosso “magnífico” reitor organizou uma reunião para tratar sobre mudanças no vestibular, à qual, “aparentemente”, se “esqueceu” de convidar os diretores de escolas públicas e o próprio pessoal do cursinho popular.

Lhes pergunto também se o filho do pobre e o filho do rico têm tido igualdade de condições para cursar a universidade. Mais espeficicamente lhes pergunto se o filho do pobre têm tido as mesmas condições que o filho do rico, ou se não, se a falta de emprego, a falta de estágios, a falta de bolsas, o preço dos materiais: bolsa, caneta, livro, caderno, xérox, uniformes e equipamentos de laboratório, o preço do passe de ônibus e a falta de moradia, ou seja, a falta de políticas de permanência impedem que o filho do pobre possa cursar a universidade. Por causa disso gostaria que soubessem que essa administração, que esse reitor, diminuiu o número de vagas na moradia estudantil.

Muitas pessoas que estudam nessa universidade também são pobres. E se nossa universidade não oferecesse esse custeio, essa política, essas pessoas simplesmente não poderiam fazer os seus cursos. Eu lhes pergunto se isso é justo. Eu lhes pergunto se isso é aceitável. Se nós devemos aceitar esse tipo de coisa. Eu penso que não.

Gostaria que soubessem também que só agora, em meados de maio, a universidade abriu processo seletivo para participação na moradia estudantil. Por causa disso lhes pergunto: como fica o aluno, o filho do pobre, que não tem dinheiro para pagar aluguel?

Vocês trabalham, vocês produzem, vocês pagam impostos. Por isso lhes pergunto: o que lhes têm sido dado em retorno? O que tem sido dado em retorno a vocês, que destino tem sido dado ao dinheiro que vocês gastam em impostos, ao dinheiro que é cobrado daquilo que vocês produzem.

Parte desse dinheiro eu sei: parte desse dinheiro financia a Universidade Pública. Por isso faço novamente a pergunta: A quem serve ESSA universidade?

Percebam, eu não estou propondo a ninguém BARGANHAR favores. Não é isso. Eu estou propondo a vocês a EXIGIREM o que é de vocês POR DIREITO.

Lhes convido a questionar que tipo de conhecimento tem sido produzido aqui. Que tipo de serviços essa universidade tem prestado com o dinheiro de vocês.


[1] O presente texto foi redigido para servir como discurso a ser proferido na Assembléia Unificada que foi realizada em frente do Restaurante Universitário. Pode-se inferir claramente do texto não apenas um tom mais pessoal e redundante, como também a expectativa de ser dirigido à comunidade externa. Atenção para o fato de este discurso se tratar de um discurso datado.

[2] Essa informação pode ser verificada na reportagem UEL amplia debate sobre Plano de Segurança publicada pela Folha de Londrina no dia 10 de Maio de 2007. A reportagem pode ser encontrada no endereço http://www.bonde.com.br/bondenews/bondenewsd.php?id=262&dt=20070510

[3] Publicado pela Folha de Londrina no dia 28 de Outubro de 2006 sob o título Servidores fazem protesto na UEL. A reportagem pode ser encontrada em http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id=29405LINKCHMdt=20061028

[4] Na época a circulação da polícia no campus já havia sido testemunhada em duas ocasiões. A primeira ocasião foi durante os dias das inscrições para os aprovados no vestibular. Na segunda época foi durante um período que compreendeu alguns dias que foram próximos à Assembléia Unificada. Testemunhas dizem que ao ser questionado sobre a liberação da presença da polícia no campus, durante uma reunião do Conselho de Administração, o reitor negou ter conhecimento do ocorrido.

[5] Matéria publicada sob o título Estudantes condenados à prisão por protestarem contra o governo Lula e que foi publicada pelo ANDES no endereço http://www.andes.org.br/imprensa/ultimas/contatoview.asp?key=4325 no dia 2 de Fevereiro de 2007.

07
out
07

Eleições do DCE – Resultado

As eleições acabaram e, como esperado, a chapa 1 venceu.

 

O resultado, que já era esperado, surpreendeu a partir do número de votos. Entretanto, ao contrário do que os próprios membros da chapa devem estar pensando, eu acredito que este se deva mais à conjuntura atual do que ao trabalho de mobilização dos próprios membros. E digo isso por que acredito que isso se dá mais como um reflexo do processo ACELERADO de desmonte da universidade praticado pelo Reitor. Dessa forma, nada mais natural do que esperar alguma reação, que se refletiu na participação nas eleições.

 

Segue abaixo os resultados:

 

Chapa 1

Cala Boca Já Morreu

PSOL, PSTU e ind.

1093 votos

Chapa 2

Reconstruir o DCE Pelos Estudantes

PCO e ind.

39 votos

Chapa 3

Movimento Poeira

PMDB e ind.

52 votos

Chapa 4

Coragem Para Mudar

PT, PC do B e ind.

31 votos

Brancos

 

 

8 votos

Nulos

 

 

26 votos

TOTAL

 

 

1249 votos

 

Para ilustrar essa idéia gostaria de remeter a dois períodos do movimento estudantil desse ano: A audiência Pública e as discussões sobre o Plano. Sem dúvida, o período no qual o movimento contou com a maior participação estudantil foi a Audiência Pública. Nessa época eu ainda era membro do coletivo. Entretanto me lembro muito bem de, em nenhum momento ninguém ter tido a mínima ousadia de afirmar que aquela participação era fruto da nossa mobilização até então. Prova disso é o fato de a assembléia posterior a audiência, chamada no fim da própria audiência, ter contado com uma pequena participação dos estudantes.

 

Por outro lado me lembro de uma reunião para discutir o Plano de Segurança ocorrido logo no começo deste ano, quando o Reitor começou a colocar o assunto novamente em pauta. Vale lembrar que, no ano passado, as discussões tinham sido basicamente conduzidas pelo próprio CA de Ciências Sociais, que findou esse ano. Nesta reunião me lembro muito bem de ter ouvido que a grande participação dos estudantes se devia ao trabalho de mobilização do coletivo. Eu discordei então e posteriormente as minhas suspeitas foram confirmadas a partir do momento em que nas reuniões posteriores o número de estudantes reduziu drasticamente.

 

Que isso fique claro: O esvaziamento posterior, na minha opinião, era evidência em favor da opinião de que o grande número de estudantes NÃO se devia ao trabalho de mobilização do coletivo. Tenho uma opinião contrária à do coletivo a respeito daquilo que chamam seu trabalho de mobilização. Na minha opinião, o núcleo duro do que hoje costumamos chamar de “Movimento Estudantil” é formado, basicamente, pelas mesmas pessoas que já participavam alguns meses atrás.

 

Para quem não sabe, o “Coletivo” é a principal força política por detrás da chapa 1 e do movimento, de forma que tiveram uma grande influência na decisão acerca da questão das eleições e todas as outras decisões tomadas recentemente, em nome do Movimento Estudantil. O nome é uma redução do nome completo “Estudantes em Movimento” que deu origem, por exemplo, ao que eles chamam “Jornal do Movimento Estudantil” (chamado “Em Movimento”). Qualquer semelhança NÃO É mera coincidência.

 

Para quem ainda não sabe, a composição da chapa 1 é a seguinte:

 

Presidente

Bruna Nunes da Costa Triana

Ciências Sociais

Vice-Presidente

Priscila Fernanda da Costa Garcia

Ciências Sociais

1º Secretário

Fabiano de Jesus

Educação Física

2º Secretário

Romário de Assis Hipólito Barros

Ciências Sociais

1º Tesoureiro

Hugo Yuichi Kitanishi

Ciências Sociais

2º Tesoureiro

Lucas Perucci

Biologia

Orador(a)

Flávia Bischain Rosa

Ciências Sociais

 

Frisando que apenas duas pessoas da chapa NÃO SÃO filiadas a partidos, que são o Lucas e o Romário. A Bruna, a Priscila e o Hugo são filiados ao P-SOL, a Flávia e o Fabiano são filiados ao PSTU.

02
out
07

Reflexo Invertido – “Debate” sobre a eleição do DCE

Como praticamente todos os conceitos relativos à política, democracia não é uma idéia simples que basta utilizá-la para todos saberem do que se trata. Mesmo por que, dependendo do contexto, ela pode significar coisas muito diferentes. Para algumas pessoas o seu exercício só pode ser aceito mediante o cumprimento de “certas exigências”, enquanto para outras, ela implica em representatividade nas instâncias burocráticas. Por causa disso, por causa dessa indeterminação, em debates públicos é sempre bom esclarecermos qual idéia temos de democracia e de que forma pretendemos garanti-la.

 

Estou falando isso por causa do debate de ontem, o debate que houve entre os estudantes e as chapas que concorrem ao DCE, realizado às 19h30 na Sala de Eventos do CCH. Apenas para constar, eram 4 as chapas inscritas, sendo que a 1 se chama “Cala a boca já morreu” e a chapa 3 se chama “Poeira”. Por mais que apenas duas chapas estivessem presentes, a maior parte dos estudantes que estavam no local já eram velhos conhecidos da chamada Chapa 1. Por conseqüência, a maior parte das dúvidas se dirigiram à outra chapa presente, a Chapa 3. Neste artigo é deste debate que pretendo tratar, ou seja, pretendo tratar dos temas discutidos ontem pelas duas chapas os quais gostaria de criticar.

 

Eu fiz questão de dizer, próximo ao fim do debate, que considerava o debate despolitizado. Digo isso por que várias vezes, fosse tratando a respeito de ideologia, seja tratando a respeito de democracia, eu percebi uma dificuldade de ambas as chapas de admitir os pressupostos classistas por detrás de suas ideologias. No afã de defender a democracia, vista no sentido de ponto de vista defendido através de uma ampla participação universitária, ambas as chapas deram a entender que tornavam flexíveis certos princípios que, na minha opinião, nem de longe deveriam ser negociáveis, como a defesa da classe trabalhadora.

 

Vou dizer com todas as letras: A chapa 3, na minha opinião, é completamente despreparada. Pior do que isso: ela simplesmente faz questão de ignorar como se constrói um processo realmente democrático. E eu não afirmo isso gratuitamente. Quando foi questionado sobre qual era a sua idéia de democracia, o presidente da chapa não foi capaz de lidar diretamente com a situação, tentando contorná-la: “Isso aqui não é lugar para discutir rodapé de livros”. Ora, será que ele ignora que as formas de organização política refletem os interesses de quem está no poder? Que muitas vezes a prática contradiz o discurso, e o que determina se a elevação de determinada hegemonia representa um avanço ou retrocesso não é o que está explícito e sim implícito?

 

Sinceramente, eu não tenho receio de admitir isso: Por mais que eu lute para assegurar a maior participação possível dos próprios estudantes da UEL nas instâncias que, na minha opinião, deveriam ser garantidas por direito, eu acredito que um dos princípios fundamentais para nortear uma transformação qualitativa progressista, ou seja, para melhor, representando um avanço e não um retrocesso, é a defesa da classe trabalhadora. Portanto, por mais que defenda a participação ampla e democrática desse pressuposto não abro mão.

 

Por isso notei uma certa contradição no discurso dele. Como todos os que estavam presentes puderam testemunhar, eu fiz questão de fazer novamente a pergunta que havia feito durante o período da manhã. A pergunta era a seguinte: “Considerando que, segundo dados do IBGE, mais de 50% dos estudantes que freqüentam a Universidade Pública pertencem à camada dos 20% mais ricos da população[1], como vocês pretendem defender a necessidade ou importância dessa instituição se ela é, basicamente, uma instituição para satisfazer os interesses das classes privilegiadas?”. Ora, ao mesmo tempo em que eles afirmavam que não pretendiam defender nenhum “ponto de vista fechado” (como se ter um ponto de vista classista fosse sinônimo de defender a autocracia) eles afirmavam que buscavam garantir a satisfação dos interesses da classe trabalhadora. A pergunta que fica implícita, portanto, é “como”. Aparentemente, pelo menos, há um paradoxo. E eu digo isso por que, a partir do momento em que a Universidade é constituída principalmente pelos filhos daqueles que consideramos parte das “elites” como uma organização feita a partir da participação destes indivíduos poderia garantir a satisfação dos interesses das classes trabalhadoras?

 

Uma coisa que devemos observar é de que forma a Universidade Pública reflete a sociedade. Na minha opinião, ela é um reflexo invertido, que, devido às suas características, acaba atuando como instituição legitimadora da ordem vigente. Quando eu digo reflexo invertido, deve-se ao fato de, as camadas excluídas da população, as camadas que vivem à margem da sociedade de consumo, que, na sociedade, são maioria, serem representadas como uma minoria sendo que, por outro lado, as classes privilegiadas, que na sociedade são minoria, serem representadas na Universidade como uma maioria. Quando eu digo instituição legitimadora, deve-se ao fato de que, ao garantir diplomas à classe privilegiada ela está atribuindo um poder simbólico (o da formação técnica) a quem já detinha um poder real (que é fundamentalmente econômico).

 

Entretanto, como não devemos aceitar a idéia de democracia como ditadura da maioria, devemos reconhecer que determinadas práticas, por mais democráticas que pretendam ser, simplesmente não devem ser aceitas. E uma dessas práticas, na minha opinião, é a própria exclusão social. Se antigamente a formação em nível superior funcionava como uma espécie de escada que permitia a ascensão social, hoje, por força das circunstâncias, ela é praticamente obrigatória para quem pretende ter condições minimamente dignas de trabalho. Desta forma, a exclusão da maioria dos jovens em idade universitária, que é feita ao não permitir que estes jovens possam cursar o ensino superior acaba se configurando praticamente em um crime.

 

Eu afirmo isso por causa do seguinte: Na minha opinião há um limite concreto, atual, conjuntural, dentro da universidade, em relação ao quanto ela pode representar de avanço dadas as suas condições. Se fôssemos pensar a universidade exclusivamente intra-muros, estaríamos, no fim, legitimando a exclusão que a própria sociedade opera através da universidade. Isso é o que NÃO devemos fazer. Por mais que seja legítima a defesa do ensino superior público, devemos nos perguntar se é legítimo reivindicarmos que todos paguem por algo que só uma minoria privilegiada possa desfrutar. O que devemos fazer é buscar garantir que não só as pesquisas tenham interesse social, como a extensão não busque o lucro, ou o privilégio de algumas empresas, e o ensino seja acessível a todos.

 

Fiquei muito espantado quando vi companheiros da chapa 1 comprar tão facilmente o discurso da pluralidade, ou do suprapartidarismo, vendido pela chapa 3. Oras, uma coisa é ser apartidário, outra, antipartidário. Mas que raios é suprapartidarismo? Pelo pouco que pude entender do exposto, eles tentavam defender que, apesar de alguns membros da chapa serem ligados a partidos, a chapa pretendia estar acima dessas questões, como se, através da pluralidade de centros pudessem garantir a “neutralidade”. Claro que essa pretensa neutralidade deles pretendia abstrair coisas demais para ter qualquer concretude. Pretendia abstrair, por exemplo, as contradições de classe, da sociedade e seu reflexo na universidade. Além do que, ela pretendia se situar em um plano aonde não existe contradição por que, apesar de tudo, eles não escondiam o fato de que apoiavam a Reforma Universitária (do governo).

 

Ideologia não é falso conhecimento. Não se deve criticar um ponto de vista por ele refletir um viés ideológico como se isso significasse que ele é falso. Fazer isso é partir do pressuposto que, a um ponto de vista ideologicamente enviesado poderíamos contrapor um ponto de vista neutro. E isso é um engano. Nós vivemos em uma sociedade aonde todas as relações são trespassadas por uma contradição fundamental: a luta de classes. As instituições nada mais fazem do que refletir essa contradição. Deixar de reconhecer isso é deixar de reconhecer o fundamental.

 

Ficou implícito nas manifestações da chapa 3, por exemplo, que eles lamentavam o fato de o movimento estudantil não ter à sua disposição “uma voz”. Não, na verdade isso não estava implícito, isso estava explícito. Afinal de contas, foi o que falaram. O que estava implícito era o fato de que eles acreditavam que bastava essa voz para que as reivindicações dos estudantes fossem satisfeitas. Eles afirmaram inclusive, que, dado isso, não seria necessário que estudantes se manifestassem. Portanto, fica evidente de que eles têm uma idéia burocrática de representação.

 

E qual é o erro desse tipo de ideologia? Não reconhecer que vivemos em uma sociedade burguesa. Que direitos não são dados conforme a conveniência das classes dirigentes, e sim, conquistados por grupos organizados através da luta política. Luta política essa que pode passar, mas nem de longe se resume à via institucional. Mesmo por que as instituições, através das determinações do próprio estado, nada mais do que refletir as contradições da sociedade.


[1] http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2007/09/28/materia.2007-09-28.0228258662/view