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out
07

Sobre a coisa pública e sua finalidade

Sobre a coisa pública e sua finalidade[1]

Eu não questiono se o “cercamento” da Universidade vai diminuir a ocorrência de delitos: Eu sou contra o cercamento. Eu sou contra a separação do espaço da universidade das comunidades do entorno. Eu não vi no Plano de Segurança uma linha sequer considerando o bem estar dessa comunidade. Comunidade essa na qual a nossa universidade se insere e da qual está se tornando vizinha. E justamente por serem vizinhas me questiono se os problemas de criminalidade que atingem a UEL também não atingem a elas. Saber eu não sei, mesmo por que ainda não tive a oportunidade de fazer este levantamento, mas eu imagino que sim.

Gostaria de salientar também que, no meu entendimento, a comunidade externa não deve ser tratada como uma ameaça e não devemos aceitar a presença da polícia no campus. Pois a medida da implantação de um cercamento serve justamente para separar os problemas que atingem a universidade dos problemas que atingem as comunidades do entorno. Isso, além de discriminar as comunidades do entorno como origem do problema, prejudica o acesso da comunidade à universidade e ameaça aumentar a criminalidade nesses bairros. Sabemos que nem todos os delitos são causados por pessoas da comunidade externa e particularmente não acredito que os recursos que seriam investidos no muro seriam justificados. Neste sentido chega a ser um absurdo retrocesso imaginar uma instituição pública, como a universidade, que deveria ser de livre acesso e servir a todos, se isolando do resto da comunidade. Se você é meu vizinho e nós somos atingidos por um problema em comum, nós deveríamos nos unir para buscar uma solução. Buscar essa solução de maneira conjunta é praticar uma ação genuinamente política, buscar essa solução de maneira isolada é agir de maneira individualista.

Como eu entendo a universidade como um bem público que deveria servir como espaço de produção e divulgação do conhecimento, principalmente voltado à busca de transformação, gostaria também de manifestar o meu desagravo ao caráter conformista e conservador do tal plano. No meu entendimento, mais do que uma adequação aos riscos que a sociedade oferece, e cuja vinculação à violência não é elaborada pelo Capitão Pedro Marcondes, a universidade deveria trabalhar também no sentido de transformar essa realidade. Atividade essa que, também no meu entendimento, sempre foi uma das tarefas fundamentais da universidade. Agir dessa forma, ou seja, buscar tratar dos sintomas do problema, sem antes refletir sobre suas causas e sem buscar evitar que ele ocorra se constitui em um retrocesso que age de maneira incoerente ao que entendemos que deveria ser o papel da universidade.

O principal caráter da minha intervenção, quero deixar bem claro, é o de fazer denúncia: Denunciar as atitudes dessa reitoria. Por causa disso faço questão de chamar a atenção de vocês para coisas que acontecem dentro desta universidade que, ás vezes, vocês não ficam sabendo.

Primeiro: Gostaria que soubessem que essas “discussões” que a reitoria veio fazer com vocês agora, ela já vem fazendo há um mês, pelo menos umas três vezes com o Rotary, uma vez no Fórum de Desenvolvimento e uma vez na subseção da OAB[2]. Isso antes de fazer a discussão com qualquer bairro da comunidade, isso antes de apresentar o Plano na Câmara de Vereadores. O que isso quer dizer? Na minha opinião, isso quer dizer que a última preocupação dele era com a opinião da comunidade sobre o plano. A mesma comunidade à qual a universidade deveria servir, a mesma comunidade à qual a universidade deveria prestar contas.

Na minha opinião ele fez isso para buscar apoio e atrair investimentos. Agora percebam: Vocês acham que os maiores atingidos pelo cercamento da universidade serão os donos das entidades patronais? Os representantes da Associação Comercial? Os sócios do Rotary? Na minha opinião, não. Na minha opinião os maiores atingidos serão as pessoas dos bairros do entorno, principalmente os mais pobres.

Segundo: Essa reitoria vem agindo como se mandasse na universidade. Nem de longe esse reitor se enxerga como um administrador eleito para servir a comunidade que o elegeu. E eu digo isso por que ele tem usado o Conselho de Administração como um órgão homologador, como conselho que serve apenas para assinar embaixo e tornar legítimas as suas decisões. Decisões como a resolução que cortou os passes dos servidores, por exemplo.[3] E não se enganem pensando que, para a presença da polícia no campus se tornar “dentro da lei” será ainda necessária a aprovação desse Plano de Segurança. Não. A polícia já freqüenta a universidade. E essa decisão foi tomada sem a menor participação da comunidade universitária.[4]

Terceiro: Essa reitoria vem questionando a legitimidade da participação dos estudantes. Mas uma coisa que vocês talvez não saibam, e gostaria que soubessem, é que os espaços de participação de estudantes e funcionários nesses conselhos e nesses colegiados, que é aonde a reitoria propõe que algumas dessas discussões sejam feitas, é mínimo. As propostas são decididas através de votação e a participação tanto de estudantes, quanto de funcionários, é mínima. Só para vocês terem uma idéia, no Conselho de Administração participam reitor, vice-reitor, todos os cinco pró-reitores e todos os nove diretores de centro – totalizando 14 pessoas – enquanto os estudantes e os funcionários têm direito a apenas duas cadeiras cada categoria.

Quarto: Esse reitor veio questionar a legitimidade da participação estudantil por causa da incompatibilidade com o que está escrito no regimento da universidade. Entretanto, gostaria que soubessem que, tanto os representantes discentes foram democraticamente eleitos, através de aclamação, em Assembléias quanto que uma das partes desse regimento é o Regulamento de Pessoal da Universidade, que prevê que o controle do pessoal de um Departamento é responsabilidade do próprio departamento. Parte essa pela qual a reitoria não teve a menor consideração quando tentou enfiar o ponto eletrônico goela abaixo dos servidores do HU, do HV e da Clínica Odontológica.

Mesmo nos tempos da Ditadura Militar a polícia raramente entrava nos campus e, quando fazia, era geralmente em regime de exceção. E isso acontecia justamente em respeito ao caráter do espaço em que a universidade se constitui. Portanto, gostaria de deixar claro que não aceito que esse caráter se perca assim como não vou aceitar que a polícia circule livremente pelo campus.

Recentemente dois estudantes da USP foram condenados à prisão. E eles foram condenados à prisão por terem pichado, nas ruas de sua universidade, o chamado para um ato de protesto à corrupção do governo Lula.[5] Pois o que estava em evidência na época era o escândalo do mensalão. Se estes estudantes estavam certos ou errados? Eu não vou entrar no mérito dessa questão. Entretanto lhes pergunto o que representa esse ato diante dos próprios escândalos, da própria corrupção. Lhes pergunto também se essa questão não poderia ter sido resolvida pela própria universidade – que possui guarda própria, que possui prefeitura própria – dentro do campus.

Vou lhes dizer como encaro a universidade: como um bem público. E justamente por ser um bem público, ela pertence a todos nós. Mas – e eu me dirijo principalmente a você, da comunidade externa, que é pai de família e que trabalha – eu lhes convido a questionar a quem essa universidade tem servido. Percebam, eu não estou criticando as pessoas que vêm de fora estudar aqui – que têm uma melhor educação em suas escolas. Mesmo por que, percebam, os filhos daqueles que moram em Londrina e que pagam cursinho ou colégio particular, conseguem passar na UEL. A qualidade do ensino público, médio e fundamental, é inferior ao ensino privado? Talvez. Agora será que tão poucos dentre vocês, ou dentre seus filhos, estejam realmente aptos a cursar o ensino superior? Eu acredito que não. Eu realmente acredito que não é esse o problema.

Antigamente um diploma era uma espécie de passaporte para a ascensão social. Hoje é praticamente uma necessidade para quem deseja ter o menor espaço que seja no mercado de trabalho formal. E mercado de trabalho formal, como todos sabem, implica em carteira assinada, FGTS, férias, seguro desemprego, décimo-terceiro, enfim, direitos trabalhistas. Agora eu pergunto a vocês quem tem tido acesso a esse “passaporte”? Mais especificamente lhes pergunto: será que o filho do rico e o filho do pobre têm tido a mesma oportunidade? Será se eles têm concorrido em igualdade de condições? Não é o que eu vejo aqui nesta universidade. Por causa disso, justamente por causa disso existem iniciativas como o cursinho popular da UEL. Agora gostaria que soubessem que o nosso “magnífico” reitor organizou uma reunião para tratar sobre mudanças no vestibular, à qual, “aparentemente”, se “esqueceu” de convidar os diretores de escolas públicas e o próprio pessoal do cursinho popular.

Lhes pergunto também se o filho do pobre e o filho do rico têm tido igualdade de condições para cursar a universidade. Mais espeficicamente lhes pergunto se o filho do pobre têm tido as mesmas condições que o filho do rico, ou se não, se a falta de emprego, a falta de estágios, a falta de bolsas, o preço dos materiais: bolsa, caneta, livro, caderno, xérox, uniformes e equipamentos de laboratório, o preço do passe de ônibus e a falta de moradia, ou seja, a falta de políticas de permanência impedem que o filho do pobre possa cursar a universidade. Por causa disso gostaria que soubessem que essa administração, que esse reitor, diminuiu o número de vagas na moradia estudantil.

Muitas pessoas que estudam nessa universidade também são pobres. E se nossa universidade não oferecesse esse custeio, essa política, essas pessoas simplesmente não poderiam fazer os seus cursos. Eu lhes pergunto se isso é justo. Eu lhes pergunto se isso é aceitável. Se nós devemos aceitar esse tipo de coisa. Eu penso que não.

Gostaria que soubessem também que só agora, em meados de maio, a universidade abriu processo seletivo para participação na moradia estudantil. Por causa disso lhes pergunto: como fica o aluno, o filho do pobre, que não tem dinheiro para pagar aluguel?

Vocês trabalham, vocês produzem, vocês pagam impostos. Por isso lhes pergunto: o que lhes têm sido dado em retorno? O que tem sido dado em retorno a vocês, que destino tem sido dado ao dinheiro que vocês gastam em impostos, ao dinheiro que é cobrado daquilo que vocês produzem.

Parte desse dinheiro eu sei: parte desse dinheiro financia a Universidade Pública. Por isso faço novamente a pergunta: A quem serve ESSA universidade?

Percebam, eu não estou propondo a ninguém BARGANHAR favores. Não é isso. Eu estou propondo a vocês a EXIGIREM o que é de vocês POR DIREITO.

Lhes convido a questionar que tipo de conhecimento tem sido produzido aqui. Que tipo de serviços essa universidade tem prestado com o dinheiro de vocês.


[1] O presente texto foi redigido para servir como discurso a ser proferido na Assembléia Unificada que foi realizada em frente do Restaurante Universitário. Pode-se inferir claramente do texto não apenas um tom mais pessoal e redundante, como também a expectativa de ser dirigido à comunidade externa. Atenção para o fato de este discurso se tratar de um discurso datado.

[2] Essa informação pode ser verificada na reportagem UEL amplia debate sobre Plano de Segurança publicada pela Folha de Londrina no dia 10 de Maio de 2007. A reportagem pode ser encontrada no endereço http://www.bonde.com.br/bondenews/bondenewsd.php?id=262&dt=20070510

[3] Publicado pela Folha de Londrina no dia 28 de Outubro de 2006 sob o título Servidores fazem protesto na UEL. A reportagem pode ser encontrada em http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id=29405LINKCHMdt=20061028

[4] Na época a circulação da polícia no campus já havia sido testemunhada em duas ocasiões. A primeira ocasião foi durante os dias das inscrições para os aprovados no vestibular. Na segunda época foi durante um período que compreendeu alguns dias que foram próximos à Assembléia Unificada. Testemunhas dizem que ao ser questionado sobre a liberação da presença da polícia no campus, durante uma reunião do Conselho de Administração, o reitor negou ter conhecimento do ocorrido.

[5] Matéria publicada sob o título Estudantes condenados à prisão por protestarem contra o governo Lula e que foi publicada pelo ANDES no endereço http://www.andes.org.br/imprensa/ultimas/contatoview.asp?key=4325 no dia 2 de Fevereiro de 2007.

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3 Responses to “Sobre a coisa pública e sua finalidade”


  1. 1 Brunetta
    outubro 12, 2007 às 5:50 pm

    O ceticismo transformou-me num anarquista pragmático: Assino o contrato.

  2. 2 Nelson Teixeia
    outubro 21, 2007 às 3:54 am

    Nunca vi tanta babaquisse escrita. O que me deixa indignado é o fato de vocês, pseudo-revolucionários viverem com a cabeça no mundo da lua. O importante é ser do contra, o importante é não tomar coca-cola.
    A questão do cercamento é pra melhorar a segurança. Ou você acha que o ladrão ou assaltante que depara-se com uma universidade sem cercas pára por um momento e pensa: “Puxa vida, a universidade não tem cercas. Vou largar o mundo do crime e vou tentar uma vaga nela!”
    Por favor, arrume um serviço ou tente fazer algo de útil pelo mundo, e não apenas uma militância estúpida. Qual o próximo passo? Acabar com o monopólio do RU e decretar o fim das multas da biblioteca por atraso de livros????

  3. 3 vsimoes
    outubro 21, 2007 às 6:34 am

    Primeiro gostaria de dizer que espero que o colega me conheça para poder afirmar, como faz, que sou um “pseudo-revolucionário”. Espero que ele também nos explique o que entende por um revolucionário de verdade, um pseudo-revolucionário assim como explique por que afirma que eu e sabe-se lá mais quem – pois afinal de contas ao se referir a mim usou o pronome pessoal “vocês” – pertencemos a esta segunda categoria.

    A segunda coisa que eu gostaria de dizer é que, se o colega tem objeções às críticas que eu faço, que fosse mais específico. Afinal de contas, usar uma ofensa é uma forma de fazer de conta que se está dizendo alguma coisa sem, na verdade, dizer nada. Então que, por gentileza, desse alguma concreticidade às críticas que faz, usando exemplos da vida real para isso.

    Por isso cabe a observação de que, chega a ser contraditório da sua parte afirmar que “nós” vivemos no mundo da lua e dizer que o importante para nós é “ser do contra” e “não tomar Coca-Cola” e eu digo isso por um motivo. Se, a partir do “nós” o elemento representativo se tratar de mim, da minha pessoa, nada é mais distante da realidade. Mesmo por que enquanto socialista EU busco pautar minha análise a partir da questão concreta, da questão material das relações de produção e da luta de classes.

    Muitas coisas podem ser feitas em nome da “melhoria da segurança” assim como a mesma justificativa foi utilizada pela ditadura militar e pelo “Patriot Act” para simplesmente RETIRAR todas as garantias individuais dos cidadãos. E se tem uma coisa que fica clara nestas situações é que é sempre a classe trabalhadora que paga o preço mais caro. A Universidade usar cercas em nenhum momento vai colaborar no processo de fazer os indivíduos reconhecerem as instituições públicas como coisas que lhes pertencem, falta de reconhecimento que, na minha opinião, é o pressuposto por detrás de boa parte da depredação do patrimônio público, seja através do vandalismo, seja através de certos tipos de roubos (como de fios, por exemplo).

    Outra observação que gostaria de fazer é que tenho a impressão que o colega tenta nos enganar com afirmações do tipo “militância estúpida” e “pseudo revolucionários” como se acreditasse na possibilidade de existirem os antônimos destas expressões, ou seja, as expressões “revolucionários de verdade” e “militância consequente”. Se você não acredita na própria idéia de militância, e na declaração de certos indivíduos como eu que se afirmam revolucionários, então não deveria usar expressões qualificadas.

    Não sei se o colega sabe mas o RU não tem monopólio já há muito tempo. Nem poderia remontar quando, mas até onde sei, TODOS os “pingûins” vendem almoço. Portanto, o colega meio que se contradiz ao propor uma coisa dessas ao mesmo tempo em que critica OS OUTROS por viverem no “mundo da lua”.


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