21
out
07

William Hazlitt – A propósito das alcunhas

Bem, estou relendo “Escritos sobre a Universidade” de Marilena Chauí. Como estou sem idéias para escrever no momento, gostaria de postar esse ensaio interessantíssimo do inglês William Hazlitt que trata sobre “as alcunhas”. Basicamente “alcunha” é apelido mas no ensaio em questão pode ser interpretado de forma mais ampla, como expressão idiomática, desqualificação, chavões e palavras relacionadas, como podem perceber.

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O asssunto é mais importante do que a primeira vista parece. E é tão sério nos seus resultados, como desprezível nos processos de que se serve para atingi-los. Na maioria dos casos, são as alcunhas que governam o mundo . A história da política, da religião, da literatura, da moralidade e da vida particular de cada um, é quase sempre menos importante que a história das alcunhas … as fogueiras de Smithfield eram atiçadas com alcunhas, e uma alcunha selava os portões do cárcere da Santa Inquisição. As alcunhas são os talimãs e os feitiços coligidos e acionados pela parcela combustível das paixões e dos preconceitos humanos, os quais até agora jogaram com tanta sorte a partida e realizaram seu trabalho com trabalho com mais eficiência que a razão e ainda não parecem fatigados da tarefa que tem tido a seu cargo. As alcunhas são as ferramentas necessárias e portáveis com as quais se pode simplificar o processo de causar dano a alguém, realizando o trabalho no menor prazo e com o menor número de embaraços possíveis . Essas palavras ignominiosas, vis, desprovidas de significado real, irritantes e envenenadas, são os sinais convencionais com que se etiquetam, se marcam, se classificam, os vários comportamentos da sociedade para regalo de uns e animadiversão de outros. As alcunhas são concebidas para serem usadas já prontas, como frases feitas; de todas as espécie de todos os tamanhos, no atacado ou no varejo, para exportação ou para consumo interno em todas as ocasiões da vida … o que há de curioso nesse assunto é que, frequentemente, uma alcunha é sempre um termo de comparação ou relação, isto é, que tem o seu antônimo, embora alcunha e antônimo possam ser ambos possam ser ambos ridículos e insignificantes … A unidade dessa figura do discurso é a seguinte: determinar uma opinião forte, sem ter necessidade de qualquer prova. É uma maneira rápida e resumida de chegar a uma conclusão, sem necessidade de vos incomodardes ou de incomodardes alguém com as formalidades do raciocínios ou os ditames do senso comum. Alcunha sobrepõe a todas as evidências, porque não se aplica a toda gente, e a máxima força e a certeza com que atua e se fixa sobre alguém é inversamente proporcional ao número de probabilidades que tem de fixar-se sobre esse alguém. A fé não passa de impressão vaga; é a malícia e extravagância da acusação que assumem a característica da prova do crime … a alcunha outorga carta branca à imaginação, solta as rédeas à paixão e inibe o uso da razão, conjuntamente. Não se atarda, cerimoniosamente, a diferenciar o que é justo do que é errôneo. Não perde tempo com lentos desenvolvimentos de raciocínio, nem se demora a desmanchar os artifícios da sofística, admite seja o que for, desde que sirva de alimento ao mau humor. É instantânea na maneira de agir. Não há nada que possa interpôr-se entre a alcunha e seu efeito. É acusação apaixonada, sem prova, e ação destituída de pensamento …

 

 

Uma alcunha é uma força de que se dispõe quase sempre para fazer o mal. Veste-se com todos os terrores da abstração incerta e o abuso ao qual se encontra exposta não é limitado senão pela astúcia daqueles que as inventam, ou pela boa fé a quem inferiorizam. Trata-se de um recurso da ignorância, da estreiteza de espírito, da intolerância das mentes fracas e vulgares, que aflora quando a razão fracassa e que está sempre a postos para ser aplicado no momento oportuno com o mais absurdo dos intuitos. Quando acusais especificamente uma pessoa, habitais, dessa maneira, a referida pessoa a defrontar vossas acusações e a repeli-las, se o acusado julgar que vale a pena perder seu tempo com isso; mas uma alcunha frusta todas as réplicas, pelo que há de extremamente vago no que dela se pode inferir, e imprime crescente intensidade às confusas, obscuras, imperfeitas noções pejorativas em conexão com ela, pelo fato de carecer de qualquer base sólida, a qual se fundamente … Uma alcunha traz consigo o peso da soberba, da indolência, da covardia, da ignorância e tudo quanto há de ruim na natureza humana. Uma alcunha atua por simpatia mecânica sobre os nervos da sociedade, pela simples aplicação de uma alcunha, uma pessoa sem dignidade sobre a reputação de qualquer outro, como se não molestando sujar os dedos, devêssemos sempre atirar lama sobre os outros. Haja o que houver de injusto na imputação, ela persistirá; porque embora para o público seja uma distração ver-vos difamados, ninguém ficará a espera de que vos limpeis das manchas que sobre vós foram lançadas. Ninguém escutará vossa defesa. Ela não produz efeito, não conta, não excita qualquer sensação, ou é sentida apenas como uma decepção a pertubar o triunfo obtido sobre vós .

Citação do ensaio “A propósito das alcunhas”, de William Hazlitt, presente no livro de Marilena Chauí, Escritos sobre a Universidade , no artigo “Modernização versus Democracia”.

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