Arquivo de novembro \20\UTC 2007

20
nov
07

TEXTO DO PROFESSOR ROBERTO LEHER SOBRE A INVASÃO DA PF À REITORIA-UFBA EM 15/11/07

DESOCUPAÇÃO MANU MILITARI REIVINDICADA PELO REITOR DA UFBA: UMA AMEAÇA A TODAS AS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Roberto Leher (FEUFRJ)

Em um contexto muito distinto, pois as proporções da ocupação estudantil eram incomensuravelmente maiores, Albert Einstein ligou para seu amigo, Max Born, igualmente um grande físico, Nobel de 1954, para expressar sua preocupação com o fato de que um grupo de estudantes revolucionários tinha ocupado a Universidade de Berlim, por ocasião do final da I Guerra Mundial, e prendido o reitor e alguns professores. Mesmo estando os estudantes armados – o confronto militar ainda não havia cessado inteiramente – Einstein não hesitou em se dirigir à universidade para dialogar com os jovens. Por sua respeitabilidade como professor e cientista, ele pôde entrar na universidade ocupada, defender o valor da liberdade acadêmica e, a seguir, intermediar as negociações com o presidente recém eleito, Friedrich Ebert, solucionando o conflito sem repressão e arrogância.

Quase 90 anos após este episódio, por ordem do reitor da UFBa, na data comemorativa da proclamação da “República”, ao raiar do dia, a Polícia Federal invadiu a Reitoria ocupada por estudantes há 46 dias, usando da força, levando estudantes de camburão para a Polícia Federal e despejando seus utensílios como se fossem lixo. Considerando o contraste com a postura de Einstein, não surpreenderá se o reitor abrir um processo interno para jubiliar os jovens que estavam ocupando um espaço público para reivindicar o debate democrático sobre um projeto de reestruturação da universidade. Por imposição do MEC e aquiescência do reitor com o ato heterônomo do governo, o referido projeto foi votado a toque de caixa, sem real discussão com a comunidade acadêmica, via-de-regra em sessões que violaram os valores acadêmicos mais estruturantes da instituição universitária, como o esclarecimento, o diálogo entre os pontos de vista divergentes e a publicidade dos atos nos colegiados universitários.

Tive o privilégio de ter sido convidado para uma conversa informal com os estudantes na ocupação, quatro dias antes da repressão Federal, por ocasião do III Encontro de Educação e Marxismo, realizado na UFBa, no qual faria uma fala no dia seguinte. Em pleno domingo, e ao mesmo tempo em que a duas quadras estava sendo realizado um show conjunto Titãs – Paralamas do Sucesso, cerca de 70 jovens optaram por discutir questões mais profundas da universidade: a sua função social, a autonomia universitária, as consequências da mercantilização e da conversão das universidades federais brasileiras em organizações de ensino terciárias, nos termos bancomundialistas e do projeto Universidade Nova/REUNI.


A abertura da conversa foi a partir de um criativo ato teatral inspirado no teatro do oprimido. A prosa teve como eixo a relevância das lutas estudantis de Córdoba – realizadas no mesmo ano em que Einstein corajosamente defendeu o ethos acadêmico sobre a força policial-militar (1918) – para a reforma das universidades latino-americanas, contra o dogmatismo das oligarquias, das igrejas, dos catedráticos avessos à pesquisa e à docência e em defesa da liberdade de cátedra, da indissociabilidade entre o ensino e a pesquisa, do governo compartilhado, do livre acesso dos jovens à universidade e do compromisso das universidades com os grandes problemas dos povos.

A despeito da existência de pontos de vista distintos, o ambiente na ocupação era radicalmente democrático, respeitoso com a divergência, construtivo no pensar e fazer alternativas à “velha universidade” subordinada à razão instrumental de um capitalismo dependente. Ao lado dos painéis de azulejo, um precioso patrimônio, o alerta de que nada deveria ser colado em cima dos mesmos, pois as instalações da universidade são públicas. Há muito tempo não pude estar em um ambiente em que os valores universitários fossem tão vivos e genuinos. Saí da conversa otimista quanto ao futuro da universidade pública, pois minha convicção de que somente teremos uma reforma radical das universidades públicas com o forte protagonismo estudantil foi reforçada pelas extraordinárias contribuições daqueles estudantes.

Em nome do futuro da universidade podemos celebrar a figura de Einstein. O reitor da UFBA, por outro lado, juntar-se-á a uma seleta galeria de “reitores” que tentou impor os seus pontos de vista por meio da repressão, como foi o caso do ex-“reitor” da UFRJ José Henrique Vilhena, e de todos os que silenciaram coniventes diante do AI-5 e do Decreto 477.
A continuidade das retaliações contra os estudantes tem de ser vista como uma séria ameaça à concepção de universidade como um espaço de liberdade ilimitada em que é possível errar, sonhar e criar. Todos os que defendemos a liberdade acadêmica estaremos acompanhando com atenção os atos da administração para resguardar o direito a livre manifestação dos estudantes que, afinal, na áspera história da América Latina foi decisiva para forjar a universidade latino-americana!

16
nov
07

Manifesto do Cursinho Popular CEPV – UEL

Os interesses privados e o vestibular público.

A troca da equipe pedagógica da COPS na Uel, responsável pela elaboração das provas do vestibular, ocorrida, justamente, quando a prova da 1º fase já estava em fase de conclusão e a data do vestibular se aproximava, suscitou na época muitos questionamentos e criticas.

Muito estranhas foram as justificativas da atual gestão acerca do critério adotado para tal mudança, nas palavras do novo diretor da COPS: “Antes era a turma do PT, que mudaram para quem quiseram. Agora é o Wilmar, que esta mudando pra turma dele.” [1] Demonstrando, no mínimo, uma grande irresponsabilidade, já que a motivação da troca não se guiou pelo mérito / competência, mas pela arbitrariedade política típica de regimes autoritários, percebe-se, desta maneira o “planejamento e critério, além de respaldo jurídico…” [2] que comentou o Reitor.

Sabemos que o vestibular da Uel, um dos pioneiros na introdução de Sociologia, Filosofia e Artes em suas provas, vinha aprimorando- se e exigindo do vestibulando, cada vez mais, um conhecimento crítico, interdisciplinar e reflexivo acerca das diversas áreas do conhecimento. O famoso “decoreba” e os antigos “macetes” já não serviam para o estudante que almejava uma vaga em qualquer curso da Uel, aqueles que criticaram a mudança na equipe pedagógica o fizeram, justamente, por compreenderem e apoiarem a exigência de um conhecimento mais crítico e reflexivo nas provas do vestibular da Uel.

Sobraram dúvidas e faltou clareza nos critérios de mudança da COPS. Prevaleceu o receio que a prova mudasse já para o próximo vestibular, pois uma mudança tão importante só se justificaria se houvesse a necessidade de uma revisão pedagógica. Talvez o questionamento mais importante tenha sido: A quem interessava uma nova mudança no conteúdo das provas do vestibular da Uel?

Ao contrário do que afirmou publicamente a Reitoria, de que seria respeitada a resolução Cepe nº 66/2006, que fixa normas e vagas para o concurso vestibular 2007, verificou-se desastrosas mudanças pedagógicas na prova de conhecimentos gerais do ultimo vestibular.

Prevaleceu o amadorismo e a mentira. A citada resolução foi descumprida, fundamentalmente, no artigo 29, onde se lê: “Na 1º fase, dia 05 de novembro de 2006 será aplicada a prova de conhecimentos gerais, elaborada na perspectiva interdisciplinar , …” algo não verificado, em nenhuma questão da prova de 2007.

Além do descumprimento deste artigo da resolução, fomos surpreendidos por uma prova de baixíssima qualidade.A maioria das questões, claramente divididas pela especificidade de cada disciplina (portanto, o oposto de interdisciplinarida de) não exigia do aluno o mínimo de reflexão crítica acerca dos conhecimentos tratados na prova, algo que nos remete aos sombrios tempos do “decoreba” e dos “macetes”.

Não podemos esquecer que as provas dos últimos vestibulares, interdisciplinares e reflexivas, foram duramente criticadas, principalmente, por algumas escolas particulares (empresas) de Londrina. Empresas, para as quais a educação é mais um artigo de luxo a ser consumido pelas classes dominantes, prevalecendo a fórmula: Educação (mercadoria) + aluno (cliente) – professor (escravo) = 0 de conhecimento crítico, pois o cliente tem sempre razão.

A prova realizada no ultimo dia 05/11 mudou. Trouxe o mínimo de conhecimento crítico e reflexivo. favorecendo claramente àqueles colégios particulares que criticavam o formato anterior Portanto, viemos através deste manifesto, declarar o nosso repudio e indignação em relação à atual equipe pedagógica da Cops e a reitoria. È inadmissível que aceitemos calados: a incompetência de uma equipe pedagógica amadora, que não cumpriu o artigo 29 da resolução CEPE nº 66/2006, que elaborou uma prova de qualidade questionável, e a mentira de uma reitoria que garantiu publicamente que nada mudaria para o vestibular 2007, comprometendo o trabalho de um ano daqueles que, como o Cepv-Uel, elaboraram um projeto pedagógico visando à preparação do aluno para uma prova interdisciplinar e crítica.

O presente Manifesto foi aprovado em assembléia geral na reuinião pedagógica realizada no dia 11/ 11 pelo CURSO ESPECIAL PRÉ-VESTIBULAR DA UEL.