22
fev
08

O Conservadorismo Burocrático da UEL

Hoje, dia 13 de Fevereiro de 2008 houve reunião ordinária do Conselho de Administração da UEL cujo segundo item de pauta se referia a uma proposta de aumento da tarifa do Restaurante Universitário – RU. Neste artigo gostaria de fazer minhas considerações a respeito da forma como certas discussões foram encaminhadas. Formas essas que, na minha opinião, revelam não apenas a postura ideológica da burocracia acadêmica dessa universidade, como também o caráter limitado da sua perspectiva.

Um discurso que ouço com bastante freqüência nessa universidade é a justificativa de que determinadas decisões são tomadas de acordo com avaliações puramente técnicas. Essa justificativa, generalizada diante da administração da universidade, demonstra que a mesma é influenciada por uma ideologia bastante nociva e ardilosa chamada Tecnocracia.

A primeira coisa que se percebe quando uma pessoa usa uma justificativa de tal ordem é a idéia de uma separação entre a esfera técnica e a esfera política de decisão. Entretanto se entendermos, primeiro, que a política é o espaço social e necessário de discussão nascido do inevitável conflito de interesses de uma sociedade, e, segundo, que em uma sociedade de classes – ou seja, em uma sociedade construída em torno de contradições – não existe neutralidade, percebemos que essa justificativa além de ser uma tentativa de evitar o debate político tem como segunda intenção o interesse de dissimular a própria prática de evitá-lo.

Já há algum tempo que eu venho fazendo uma investigação acerca de dois temas: A Democracia e a Tecnocracia. Entretanto, uma coisa que eu percebi, e é uma coisa bastante evidente nos dias atuais é que, apesar das práticas contraditórias em alguns casos, todo mundo têm a pretensão de ser democrático. Entretanto isso só se tornou possível devido ao completo esvaziamento do que a idéia de “ser democrático” significa.

No caso da UEL eu vejo em duas situações análogas momentos privilegiados para refletir sobre esse tema.

Uma idéia bastante generalizada dos dias atuais é a idéia de que há um aspecto positivo na apatia política. Essa idéia, elitista por natureza, parte do pressuposto de que, como as massas não são instruídas como as elites pensam que deveriam ser, ao absterem-se de participar da vida política estariam relegando-a à responsabilidade de pessoas competentes para isso. Uma das razões seria a de que, pela razão de não possuir a devida instrução, as massas seriam mais influenciáveis e, assim, mais suscetíveis a práticas extremistas e nocivas ao andamento de uma boa sociedade.

É essa razão que está por detrás, por exemplo, da lei relativa à composição dos conselhos (Conselho Universitário, Conselho de Administração, Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão) presente na Lei de Diretrizes e Bases.

Recentemente nesta universidade estava havendo uma discussão relativa à composição dos votos nas eleições para reitor. Apesar de, nos conselhos, e conforme o dispositivo das Leis de Diretrizes e Bases a composição ser de 70% para os professores, 15% para os funcionários e 15% para os estudantes, nas eleições para reitor os votos são calculados de forma a 1/3 do universo total de estudantes equivaler a 1/3 do universo total de professores assim como de funcionários. Apesar do pretenso equalitarismo devemos estar atentos ao fato de que, para os votos dos 17.000 estudantes (formados por 14.000 de graduação e 3.000 de pós) tenham o mesmo peso dos 1.600 professores, é necessário que TODOS votem. Se em uma perspectiva bastante utópica imaginarmos a mobilização de todos os estudantes temos uma discriminação aonde o voto de um professor equivale ao voto de 10 estudantes, em uma perspectiva menos utópica, digamos, aonde 8.500 estudantes participem – sempre considerando que todos os 1.600 professores o façam – o voto de um professor equivale ao voto de 20 alunos. Isso que é voto censitário!

Se em relação à composição para as eleições temos um avanço aparente em relação à composição dos conselhos, temos que perceber que por ser muito mais difícil mobilizar 17.000 pessoas do que 1.600 temos um dispositivo ardilosamente montado para diminuir a importância da participação dos estudantes.

Nesta discussão muitos argumentos iam no sentido que, em relação ao aluno, um professor tinha muito mais experiência em relação à vida acadêmica. Justificativa essa problemática, por duas razões. Não que eu aceite a razoabilidade de qualquer um dos argumentos, mas façamos de conta que eu aceito sua lógica, apenas para demonstrar que eles sequer são coerentes consigo mesmos. Como podemos entender experiência sob duas perspectivas: o tempo de permanência e a formação adquirida durante esse tempo, eu gostaria de pontuar três críticas.

A primeira crítica se dá no sentido que, primeiro, a categoria dos professores não inclui apenas os professores efetivos, mas também os professores temporários. E até onde eu sei nem de longe um professor temporário pode ser contratado pelo mesmo tempo em que um estudante realiza o seu curso, cujo mínimo acredito ser de 4 anos. Segundo, como eu acredito que um professor, em média, não fique 40 anos nos bancos da universidade, é um pouco problemático atribuir a diferença de 10x mais poder de voto a isso. Terceiro, afora o fato de, a despeito dessa experiência – enquanto formação – um professor pertence a uma categoria DIFERENTE, ou seja, que já não é mais aluno, que possui interesses que muitas vezes podem ser conflitantes.

Se tivermos essa consciência de que a administração da universidade muitas vezes pode se constituir em um conflito de interesses, como muitas vezes se constitui, a partir do momento em que tivéssemos uma composição tão díspar em relação ao peso de cada agente, teríamos uma universidade, neste caso, que seria completamente alheia aos interesses dos estudantes. Situação essa que, na minha opinião, resume muito bem a nossa universidade.

Caso contrário teríamos os estudantes colocados na condição de meros objetos sócio-políticos, ou seja, enquanto indivíduos desprovidos de poder para influir, ou até participar, de decisões que dizem respeito à sua própria vida acadêmica. E, convenhamos, duas lições importantes que a política ensina são: 1. nunca deixe que os outros tomem decisões que dizem respeito à sua vida e 2. nunca confie nos outros para resolver os seus problemas.

Nestas discussões acerca da democracia uma das questões com a qual me deparei foi, em se tratando do caso concreto dessa universidade, se era justo ou não que uma categoria pudesse ter um poder político tão maior que a outra. Em outras palavras, se a proposta de “uma cabeça – um voto” não promoveria uma distorção nociva entre as categorias, ou em relação à qualidade que as pessoas trazem consigo chamada “categoria”. Eventual e paulatinamente eu fui descobrindo idéias que atribuíam como um dos determinantes da crise da universidade, ou pelo menos da falta de capacidade de sua renovação o fato de que as propostas de renovação partiam do alto, a partir de uma avaliação feita do alto e que propunham, portanto, uma (limitada, quando não retrógrada) democratização do espaço acadêmico.

Dessa forma, ao impedir o avanço representado pela democratização da administração da universidade, ou até retrocedendo ao diminuir ainda mais essa democratização – julgando as pessoas em função da sua qualidade de membros de uma categoria – a universidade estaria apenas cavando ainda mais o fosso da própria crise que, por outro lado, também representa um estrangulamento ainda maior da democratização do acesso ao Ensino Superior.

Entretanto, como eu disse antes, esse Conselho de Administração se constituiu em um momento privilegiado. E eu digo isso em relação ao fato de expor o elitismo da concepção tenocrática, tão comum à nossa universidade.

Analisando os pressupostos por detrás das declarações emitidas pelos diretores de centro, e ardilosamente defendidas pelo próprio vice-reitor – através da sua orientação – pude perceber que a discussão se apresentava como uma espécie de cabo de guerra aonde, independente de todos as justificativas levantadas, se eles partissem de um pressuposto a conclusão seria uma, e se eles partissem de outro pressuposto a conclusão não poderia ser outra que não aquela. De forma que o fundamento da luta deveria passar pelo estabelecimento de uma contra-hegemonia no que dizia respeito ao “senso comum” daquelas pessoas.

Sendo mais claro: Eu percebi que todos eles encaravam o déficit do RU como o problema e o financiamento dos custos pela comunidade universitária (discentes, docentes e servidores) como um dado, de forma que a conclusão deles não poderia ser outra que não o aumento da tarifa. Ou seja, eles já não entendiam a alimentação oferecida por aquele restaurante como uma política de permanência e, portanto, uma extensão do direito à educação. E por que isso? Por que, a partir do momento em que a universidade não oferece condições materiais mínimas para amparar o estudante que carece desses meios, ela estaria simplesmente praticando a sua exclusão.

Por outro lado eu vi alguns discursos que iam no sentido do Restaurante Universitário da UEL ter se constituído em uma referência, e de que não seria possível manter o mesmo nível de qualidade nas condições atuais. Afora o absurdo preciosismo da primeira proposta, a impressão que eu tive era que o relator da proposta – Osvaldo Yokota, Diretor do SEBEC – estava tentando usar a qualidade como uma forma de jogar a maioria da universidade contra a minoria.

Apenas concluindo, gostaria de justificar por que eu havia dito que eu chamei essa reunião de momento privilegiado. Eu disse isso por que, se no primeiro caso, na discussão sobre as eleições para reitor, o caráter de oposição, de disputa entre os diferentes interesses da universidade – e que em parte nada mais faziam do que refletir a disputa entre os interesses e as concepções da própria sociedade – podia ser recoberto pelo discurso elitista, no segundo caso, na discussão sobre um tema de tamanha importância para as condições de permanência da vida estudantil essa oposição foi simplesmente revelada. Ficou evidente que enquanto a estrutura acadêmica for gerida dessa maneira tão hierarquizada, tão elitista, será praticamente impossível imaginar que essa universidade caminhe na direção concreta de uma verdadeira democratização, seja do acesso, seja da permanência.

Anúncios

0 Responses to “O Conservadorismo Burocrático da UEL”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: