06
maio
09

Os Partidos e o Movimento Estudantil da UEL

Gostaria de tratar sobre um tema importante que surgiu durante esse processo eleitoral. Ele diz respeito à afirmação que algumas pessoas fazem de que a chapa da qual fazemos parte é uma chapa do POR. As pessoas que fazem essa afirmação agem dessa forma para associar a imagem desse partido à nossa. Isso por que fazem uma avaliação negativa do que esse partido representa de modo geral. Sobre este assunto gostaria de dizer apenas que não compactuo dessa avaliação assim como não estou minimamente disposto a discutir sobre ela. Objetivamente falando nenhum dos membros da nossa chapa é filiado a qualquer partido político, ou seja, a nossa chapa é formada exclusivamente por estudantes independentes.

Por independentes entenda-se não estudantes que não tomam parte, ou estudantes que não tomam partido: Apenas estudantes que não são filiados a partidos políticos, lancem esses partidos candidatos ou não.

Agora, além dessa questão existe outra questão objetiva que diz respeito à desconfiança que as pessoas em geral têm em relação à atuação de partidos políticos nos movimentos, principalmente quando se tratam de eleições. Isso reflete em parte, a trajetória do partido que até há alguns anos atrás era visto como legítimo representante das classes trabalhadoras, o PT. Agora, verdade seja dita, essa desconfiança se deve principalmente a uma prática comum não a todos os partidos, mas principalmente às legendas eleitorais, ou seja, aos partidos que lançam candidatos.

Agora por que isso acontece?

Isso se deve à contradição que existe entre acreditar que os problemas que atingem a sociedade podem ser resolvidos através da via parlamentar ou se eles devem ser resolvidos através da luta política. Ou até a acreditar que, de alguma forma, é possível obrigar o Estado a trabalhar a serviço das classes trabalhadoras. De alguma forma, no discurso, todos os partidos que representam legendas eleitorais defendem uma idéia parecida com essa. A conseqüência disso é o fato de tentarem aliar alguma forma de mobilização e de atividade política com a capitalização de votos. Agora o que vemos na prática é que os fins acabam se revelando outros, ou seja, quanto mais um partido começa a se preocupar com a capitalização de votos, cada vez mais ele passa a restringir a sua atuação política a isso.

Em termos de uma entidade como o DCE o que acontece é que, por mais que esses partidos defendam a importância de usar esse instrumento como meio para o fomento da luta política o que se vê na prática é que eles acabam relegando essa luta para segundo plano colocando em primeiro a promoção eleitoral dos seus próprios partidos. Ou como diz o ditado, aonde falta vontade política sobram desculpas. Inclusive em alguns casos esse fenômeno se apresenta de maneira bastante sutil que é através da completa falta de autonomia de alguns militantes em relação a seus partidos.

Quando eu comecei a militar no Movimento Estudantil em meados de 2006 nós discutíamos os projetos de Reforma Universitária que depois formariam o PL 7200. Naquele tempo nós discutíamos os diferentes projetos, suas emendas assim como os diferentes elementos que o compunham sendo que alguns desses elementos eram implementados através de decretos e medidas provisórias. Com o tempo, os projetos de Reforma Universitária do governo federal foram ganhando novas roupagens, assim como foram surgindo novos projetos. Sendo que um desses novos projetos foi o “Programa de Reestruturação das Universidades Federais”, também conhecido como REUNI.

Pois bem, como o próprio nome diz o REUNI é um projeto de reestruturação das Universidades FEDERAIS. Entretanto, por muito tempo, era a única coisa a respeito da qual as forças políticas que hoje estão representadas na chapa “Da Luta Não Me Retiro” sabiam falar. E isso era simplesmente ruim por que dizia muito pouco ou quase nenhum respeito às universidades estaduais como a nossa. Agora por que isso acontecia, ou seja, por que essas forças políticas estavam simplesmente deixando de lado a Reforma Universitária e, conseqüentemente, a análise dos elementos que permitiriam entender a solução para os problemas da UEL?

A minha opinião, e eu falo como pessoa que acompanhou de perto não só o Movimento Estudantil da UEL como a trajetória desse grupo é de que isso se deve a duas razões (que talvez possam se resumir a uma). A primeira dessas razões era por que esse era o centro das atenções do ANDES, que é uma enorme associação docente, de um enorme peso político, mas que entretanto é filiada ao CONLUTAS. A segunda dessas razões se deve ao fato de que essa era “a bola da vez”, ou seja, o principal projeto do Governo Federal que estava em pauta. Em outras palavras, esse projeto representava o calcanhar de Aquiles que os setores partidarizados do ME encontraram para se promover ELEITORALMENTE às custas do Governo Federal.

Assim como o ano de 2008 foi marcado pelas ocupações realizadas nas universidades federais, a começar pela Ocupação da UNB, o ano de 2007 havia sido marcado pela greve das estaduais paulistas, a saber a USP, a UNESP e a UNICAMP. E à semelhança dessas últimas, a universidade aonde nós estudamos é uma universidade ESTADUAL. Além disso, a luta dessas universidades havia se dado em torno de um tema muito importante ao movimento estudantil, que é o tema da Autonomia Universitária. Ou seja, a título de exemplo valeria muito mais discutir o processo ocorrido nas últimas justamente por que o caso delas – das estaduais paulistas – dizia muito mais respeito à nossa universidade do que o processo ocorrido nas primeiras.

Outra circunstância que serve bem para explicar essa situação são as campanhas de boicote ao ENADE. A primeira campanha de que eu participei foi há três anos atrás. Naquela época eu lembro de correr atrás de artigos que tratassem sobre o tema e de ter passado a madrugada inteira elaborando um script apenas para passar nas salas no outro dia de manhã para convidar as pessoas a participar da campanha. Tendo ouvido o questionamento de várias pessoas durante essas passagens em sala, eu tive a idéia de que até para sentir um mínimo de segurança a respeito da importância da campanha seria muito importante que essas discussões fossem feitas de maneira ampla, e pelo menos com dias de antecedência. Dava para perceber que era esperar demais, mesmo das pessoas mais conscientes que entretanto nunca tinham discutido a questão, querer que essas pessoas aderissem à campanha nessas circunstâncias.

Agora, qual é a importância do ENADE?

O ENADE é um elemento central do novo projeto de Reforma Universitária proposto pelo Governo Federal. Através dele, nota-se que dentro das antigas e já conhecidas políticas de liberalização dos serviços públicos o Estado buscava assumir o também já conhecido papel de “Agência Reguladora”, apenas fiscalizando a educação. Serviço esse que sabidamente seria prestado tanto pela iniciativa pública quanto pela privada.

Agora percebam, apesar da insistência não só minha, como de muitos militantes, vemos a mesma coisa todos os anos. No fim, a campanha de boicote ao ENADE não é construída como o resultado de uma discussão sobre o papel da Avaliação Institucional e sim é reduzida à passagem em salas e à distribuição de adesivos. Repito: TODOS os anos.

Em última análise quando falamos de forças políticas, ou seja, de pessoas que se propõem a representar uma categoria, onde quer que seja, esperamos que essa representação seja feita sob o princípio da autonomia e da independência políticas. Agora, já perceberam por que, apesar de dizer que defendem a democracia dentro da universidade, os membros da chapa 1 não defendem o Voto Universal? A minha opinião a esse respeito se deve ao fato de que a crítica deles ao projeto de Reforma Universitária não ultrapassa os marcos da Associação de Docentes ligada aos partidos que eles representam. Ou seja, dentro da universidade eles não têm autonomia diante da categoria que é a maior interessada na privatização das universidades: A burocracia universitária.

Por último outro grande receio que as categorias têm em relação à partidarização dos movimentos se deve à burocratização e ao aparelhamento. Por essa razão as pessoas evitam votar em chapas formadas exclusivamente por estudantes filiados a partidos principalmente quando se trata de um só partido. Entretanto o que as pessoas não percebem é que isso não é necessário. Em alguns casos, as chapas por mais que sejam formadas por estudantes independentes, esses não possuem uma linha política nem formação próprias de forma que acabam sendo dirigidos pelos estudantes filiados a partidos.

Agora em última análise o que a burocratização representa? A burocratização é um fenômeno que reflete a orientação política dos grupos que ocupam as funções de representação. Reflete a completa falta de interesse desses grupos em consultar as categorias que eles representam em relação à forma como se deve dar essa representação e por quais interesses essa entidade deve lutar. E isso por que eles têm medo de que os interesses do coletivo dos estudantes não necessariamente correspondam às estratégias dos seus respectivos partidos.

Finalizando essa é apenas uma contribuição que eu queria dar para o movimento, através da crítica das suas forças políticas e, pontuando que desde o princípio defendemos o Movimento Estudantil construído pela BASE, a começar pelo Congresso Estatuinte, passando pela Assembléia Geral, Conselho Deliberativo e por último os DCEs. Neste sentido o método que propomos para a superação desse problema é simplesmente o método da Democracia Estudantil.

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