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William Godwin – Os Males de um Ensino Nacional

William Godwin

(em Investigação sobre a Justiça Política, 1793)

William GodwinOs danos que podem resultar de um sistema nacional de ensino estão, em primeiro lugar, no fato de que todos os estabelecimentos públicos trazem em si a idéia de permanência. Talvez pretendam guardar e difundir todas as formas de conhecimento que possam trazer algum benefício à sociedade, mas esquecem que há muita coisa ainda por conhecer. Mesmo que tenham sido extremamente úteis à época de sua criação, é inevitável que se tornem cada vez mais desnecessários com o decorrer do tempo.

 

Dizer apenas que são desnecessários seria, porém, expressar de maneira demasiado débil todos os seus deméritos, pois na verdade eles procuram impedir ativamente os vôos da imaginação e fixar na mente do homem crenças que já deveriam ter sido abandonadas. Observa-se que os conhecimentos ministrados nas universidades e em outros estabelecimentos dedicados ao ensino costumam estar com pelo menos um século de atraso em relação aos conhecimentos que existem entre os membros descompromissados que integram a mesma comunidade política. No momento em que qualquer forma de conduta ganha um caráter oficial, ela adquire uma característica que lhe é peculiar, a aversão a qualquer tipo de mudança. Um golpe mais violento poderá obrigar seus condutores a abandonar um velho sistema filosófico, trocando-o por outro menos obsoleto, mas logo se agarrarão a esta segunda doutrina com a mesma obstinação com que se agarravam à primeira. O verdadeiro crescimento intelectual exige que a mente atinja, tão rapidamente quanto for possível, o mesmo nível de conhecimento já existente entre os membros mais esclarecidos da comunidade e, a partir daí, parta em busca de novos conhecimentos. Mas o ensino público sempre gastou todas as suas energias na defesa dos preconceitos; ele ensina aos seus alunos não a coragem de examinar cada proposição com o objetivo de testar sua validade, mas a arte de justificar qualquer doutrina que venha a ser criada. Estudamos Aristóteles, Tomás de Aquino, Bellarmine ou o Chefe de Justiça Coke, não para que possamos detectar os erros de suas afirmações, mas para que nossas mentes sejam totalmente impregnadas pelos absurdos que contêm. Esta é uma característica comum a todos os estabelecimentos de ensino público e, até mesmo nas limitadas escolas dominicais, as mais importantes lições nos falam numa veneração supersticiosa à Igreja da Inglaterra e em como é preciso inclinar-se diante de qualquer homem que ostente um belo casaco. Tudo isto se opõe frontalmente aos verdadeiros interesses da humanidade e deve ser esquecido antes que possamos pretender atingir a sabedoria. Uma das características inerentes à mente humana é a sua capacidade para crescer. E no momento em que o indivíduo resolve manter-se fiel a determinados princípios, levado por razões que agora escapam mas que foram importantes no passado, ele está renunciando a uma das mais belas qualidades do homem. Pois o instante em que desiste indagar é o instante em que morre intelectualmente. Deixa de ser um homem para tornar-se o fantasma de alguém que já não mais existe. Não pode haver maior loucura do que pretender separar uma doutrina dos fatos que provam a sua validade. Se já não cultivo o hábito de lembrar a existência destas provas, minhas crenças deixam de ser uma percepção para tornarem-se um preconceito. Elas poderão me influenciar como preconceitos, mas já não conseguirão me estimular como verdadeiras apreensões da verdade. A diferença que existe entre um homem assim conduzido e outro que mantém a mente em constante atividade é a mesma diferença que existe entre a covardia e a coragem. O homem que é um intelectual no verdadeiro sentido da palavra delicia-se em recordar as razões que o convenceram e em repeti-las aos outros para que eles também possam ser convencidos, ao mesmo tempo que se tornam cada vez mais claras e explícitas em sua própria mente; e acrescenta a isso ainda uma disposição para examinar as objeções que possam surgir, pois não tem qualquer orgulho em persistir no erro. De que vale o homem que não é capaz de dedicar-se a este saudável exercício? Assim, parece que nenhum erro pode ser mais terrível do que aquele que nos ensina a considerar qualquer juízo como final, não sujeito a revisões. O mesmo princípio que se aplica aos indivíduos pode ser aplicado às comunidades. Não há nenhuma proposição, por verdadeira que pareça no presente, que possa ser tão valiosa a ponto de justificar a criação de um estabelecimento oficial para difundi-la entre a humanidade. É preferível fazer os homens ler, conversar e meditar do que ensinar-lhes qualquer tipo de credo ou catecismo, seja ele moral ou político.

Em segundo lugar, a idéia da criação de um ensino nacional não leva em conta a verdadeira natureza da mente humana. Tudo o que o homem fizer por seu próprio esforço será bem feito; tudo aquilo que seu vizinho ou seu país pretenderem fazer por ele será um erro. Nossa sabedoria está em incitar os homens a agir por si próprios, não em mantê-los num estado de perpétuo aprendizado. Aquele que aprende porque deseja fazê-lo cumprirá suas tarefas com entusiasmo e energia. Mas no momento em que uma instituição política tomar a seu cargo a tarefa de indicar o lugar que cada homem deve ocupar, todos passarão a desempenhar suas funções com indiferença e preguiça. Há muito se observa que as universidades e os estabelecimentos dedicados ao ensino são notáveis por sua apatia. As normas de administração pública me concedem o poder de destinar as minhas propriedades a determinados propósitos teóricos, mas seria ocioso julgar que eu também posso legar minhas opiniões da mesma forma com que lego os meus bens materiais. Removam os obstáculos que impedem o homem de perceber e perseguir os objetivos que são realmente proveitosos para ele, mas não tentem libertá-lo das atividades necessárias à busca destes objetivos. Só é possível dar o verdadeiro valor às coisas que eu mesmo consegui ganhar, àquilo que obtenho apenas porque desejo obter; tudo o que me for concedido sem que eu peça poderá fazer de mim um indolente, jamais um ser respeitável.

É uma completa loucura pretender dar aos outros os meios para que obtenham a felicidade, sem que eles próprios tenham que fazer o menor esforço para consegui-la. Toda proposta de ensino nacional está baseada numa suposição que, embora refutada inúmeras vezes, tem nos sido impingida das mais variadas formas: a de que toda a verdade que não receba o apoio oficial do governo não serve ao propósito de tornar o povo mais esclarecido.

Em terceiro lugar, todo projeto nacional de ensino deveria ser combatido em qualquer circunstância pelas suas óbvias ligações com o governo, uma ligação mais temível do que a velha e muito contestada aliança da Igreja com o Estado. Antes de colocar uma máquina tão poderosa nas mãos de um agente tão ambíguo, cumpre examinar bem o que estamos fazendo. Certamente que o governo não deixará de usá-la para reforçar sua própria imagem e instituições. Mesmo que pudéssemos supor que os agentes do governo não fariam isto que, a seus olhos, deve parecer não apenas inocente, mas até louvável, ainda assim o mal não deixaria de ser feito. Sua visão como criadores de um sistema de educação não poderá deixar de ser semelhante àquela que adotam como políticos, e os mesmos dados que utilizam para levar avante a sua atuação de homens de Estado serão utilizados como base para o ensino patrocinado por eles. Não é verdade que a nossa juventude deve ser ensinada a respeitar a verdade acima de tudo e a Constituição enquanto ela corresponde àquilo que na sua opinião, livre de qualquer influência, julgar ser verdade. É provável que nenhum sistema nacional de ensino, mesmo que tenha sido adotado em pleno apogeu do despotismo, possa abafar para sempre a voz da verdade, mas não há dúvida de que um tal sistema seria a mais terrível e profunda contribuição jamais criada pela imaginação humana para atingir estes objetivos. É razoável supor que existam erros mesmo nos países onde a liberdade triunfou e que o sistema nacional de ensino seria a melhor forma de perpetuar estes erros e fazer com que todas as mentes sejam moldadas segundo um único modelo. Como geralmente confundimos más condições de trabalho com mau comportamento. Alguns refugiados russos que levavam vidas medíocres e infelizes no estrangeiro, ao voltar para casa e descobrir na Revolução um campo propício para o desempenho de suas atividades, realizaram um trabalho brilhante, tornando-se extraordinários organizadores, construtores de ferrovias e criadores de indústrias. Entre os russos mais conhecidos no exterior atualmente, estão alguns homens que eram considerados incompetentes e lerdos quando viviam sob condições que não lhes permitiam desenvolver suas habilidades nem aplicar corretamente toda a sua energia.

Tal é a natureza humana: a eficiência ao desempenhar uma determinada tarefa significa que temos a inclinação e a capacidade para desempenhá-la; a diligência e o zelo indicam interesse. É por essa razão que encontramos tanta ineficiência e tanta preguiça hoje em dia. Pois, na verdade, quem está no lugar certo? Quem trabalha naquilo que gosta e que realmente o interessa?

In Woodcock, George – Grandes Escritores Anarquistas

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