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jul
13

Alexander Berkman – Homens preguiçosos e trabalho sujo

“Mas o que fazer com o homem preguiçoso, com o homem que não quer trabalhar?”, pergunta um amigo.

squarepegEsta é, sem dúvida, uma pergunta interessante e você provavelmente ficará surpreso quando eu disser que na verdade não existe essa coisa a que chamamos preguiça. Um homem preguiçoso é quase sempre um tarugo quadrado num buraco redondo, ou seja, um homem certo no lugar errado. E acabaremos descobrindo que, sempre que um camarada está no lugar errado, ele será incompetente e lerdo. Pois a chamada preguiça, bem como grande parte da incompetência, é apenas um sinal de falta de aptidão, de inadaptação. Se alguém é obrigado a fazer exatamente aquilo que não lhe agrada, por inclinação ou temperamento, certamente será um incompetente; se for forçado a trabalhar em coisas que não despertam o seu interesse, terá preguiça de fazê-las.

Qualquer pessoa que já tenha administrado uma empresa com muitos empregados pode confirmar o que acabo de dizer. A vida numa prisão é uma prova especialmente convincente da verdade da minha afirmação – e afinal, para a maioria das pessoas, a vida moderna não passa de uma grande prisão. Qualquer carcereiro poderá dizer que os prisioneiros obrigados a desempenhar tarefas para as quais não têm nenhuma habilidade ou interesse são sempre preguiçosos e submetidos a constantes castigos. Mas tão logo esses prisioneiros rebeldes são designados para funções que satisfazem as suas inclinações, tornam-se “modelos”, no dizer dos carcereiros.

A Rússia também demonstrou a veracidade desta afirmação: ela demonstrou quão pequeno é o nosso conhecimento das potencialidades do homem e da influência que o meio exerce sobre eles – e como ainda confundimos más condições de trabalho com má conduta. Os refugiados russos que viviam sob condições miseráveis e medíocres em terras estrangeiras, ao voltarem para a Rússia e encontrarem na Revolução um campo propício ao desenvolvimento de suas atividades, realizaram um extraordinário trabalho dentro do seu campo de conhecimento, transformando-se em organizadores brilhantes, construtores de ferrovias e criadores de todos os tipos de indústria. Entre os nomes russos mais conhecidos atualmente no exterior, podemos encontrar vários que eram considerados incapazes e improdutivos quando viviam sob condições adversas, onde sua habilidade e energia não podiam encontrar a melhor forma de expressão.

Pois tal é a natureza humana: a eficiência para realizar certas tarefas significa que há uma inclinação e uma capacidade especial para desempenhá-la; disposição para o trabalho significa interesse. E é por isso que há tanta preguiça e tanta incompetência no mundo atual. Pois, na verdade, quem ocupa hoje o lugar certo? Quem trabalha naquilo que realmente desperta o seu interesse?

Nas atuais condições, o homem comum não tem oportunidade de escolher o tipo de trabalho que melhor se adapta às suas aptidões e preferências. O acidente do nascimento e do nível social é que irão geralmente determinar a sua futura profissão. Dificilmente o filho de um financista se tornará lenhador, mesmo que seja muito mais hábil no manejo dos toros de madeira do que nas cifras das contas bancárias. A classe média manda seus filhos para as universidades que os transformarão em médicos, advogados ou engenheiros. Mas, se tivesse nascido numa família de operários sem condições de permitir que prosseguisse seus estudos, é provável que você aceitasse o primeiro emprego que lhe fosse oferecido ou que decidisse ingressar numa profissão que lhe desse a oportunidade de um período de aprendizado prático. É a situação particular de cada um, e não suas inclinações, habilidades e preferências, que irá determinar a sua profissão. Será, portanto, de estranhar que a maioria esmagadora dos trabalhadores exerce a profissão errada? Pergunte aos primeiros cem homens que encontrar se, caso lhes fosse dada a oportunidade da escolha, teriam escolhido a profissão que atualmente exercem e se, caso tivessem oportunidade de fazê-lo, não procurariam trocá-la por outra mais de acordo com suas inclinações, e noventa por cento deles admitiriam preferir um outro tipo de trabalho. Só a necessidade de ganhar a vida e a esperança de obter vantagens materiais mantêm as pessoas presas à profissão errada.

É obvio que uma pessoa só consegue dar o melhor de si quando se interessa pelo trabalho que realiza e sente uma verdadeira atração por ele. Só assim poderá tornar-se produtivo e eficiente. Os objetivos que os artesãos produziam em épocas anteriores ao capitalismo eram muito mais belos, porque feitos com amor. Como é possível esperar que o trabalho árduo e monótono nas fábricas modernas seja capaz de produzir algo que seja realmente belo? Os escravos da moderna indústria são parte de uma máquina, um simples dente de uma engrenagem sem alma, realizando um trabalho mecânico e forçado. Acrescente a tudo isso o fato de que não trabalha em benefício próprio, mas para que outras pessoas obtenham lucros de um trabalho que detesta ou que, na melhor das hipóteses, não lhe desperta qualquer interesse, sendo apenas uma forma de garantir-lhe o salário semanal. O resultado só poderia ser incompetência e preguiça.

A necessidade de realizar alguma coisa é um dos instintos básicos do homem. Observe uma criança e veja como é forte o seu impulso de agir, movimentar-se, fazer alguma coisa. É algo intenso e contínuo. O mesmo acontece com todos os homens dotados de saúde. Sua energia e vitalidade exigem uma forma qualquer de expressão. Permita-lhe trabalhar em qualquer atividade por ele mesmo escolhida e sua aplicação não conhecerá limites. É possível observar a veracidade dessa afirmação diante de qualquer operário que tiver a sorte de possuir um jardim ou um pedacinho de terra onde possa cultivar flores ou hortaliças. Mesmo cansado após horas de labuta diária, ele se atira com entusiasmo ao árduo trabalho de lidar na terra, pois tudo é feito em seu próprio benefício e por sua livre escolha.

Sob o regime anarquista, todos terão a oportunidade de se dedicar à ocupação que melhor se adaptar às suas aptidões e inclinações naturais. O trabalho passará a ser um prazer, deixando de ser – como agora é – uma escravidão mortal. Não se ouvirá mais falar de preguiça e todos os objetos criados pelo interesse e o amor daqueles que os produzem serão realmente cheios de beleza.

“Mas será que o trabalho poderá mesmo se transformar num prazer?”, perguntarão.

Hoje ele é árduo, desagradável, exaustivo e monótono. Mas quase sempre o pior não é o trabalho em si, mas as condições em que se é obrigado a realizá-lo. O horário demasiado longo, as oficinas sem as condições mínimas de conforto e higiene, o mau tratamento dispensado pelos superiores, o pagamento insuficiente, etc. …

Mesmo o pior dos trabalhos poderia, entretanto, tornar-se um pouco menos árduo, bastando apenas que se melhorassem as condições em que é desempenhado. Tomemos como exemplo aqueles que trabalham na limpeza da rede de esgoto. É sem dúvida um trabalho sujo e mal pago. Mas supondo que fosse possível fazer com que os operários passassem a ganhar 20 dólares por dia, em vez dos 5 que recebem para executá-lo, começariam imediatamente a achar seu trabalho menos duro e mais agradável.

Logo aumentaria o número de candidatos ao cargo, o que significa que os homens não são preguiçosos nem temem o trabalho pesado e desagradável, desde que sejam bem recompensados por desempenhá-lo. Mas esse é um trabalho considerado inferior e desprezível. Por que o consideram assim? Afinal, se não fossem esses homens dispostos a limpar as nossas ruas e sarjetas, nossas cidades seriam varridas por epidemias sem conta.

Assim, esses operários que mantêm nossa cidade limpa e em boas condições de higiene são benfeitores, mais importantes para a manutenção da saúde da população do que o próprio médico. Do ponto de vista da utilidade social, médico e funcionário de limpeza pública são colegas de profissão: o primeiro trata de nós quando estamos doentes, o segundo ajuda a evitar que isso aconteça. E, no entanto, o médico é olhado com admiração e respeito e o limpador das ruas só nos merece desprezo. Por quê? Será o seu trabalho assim tão sujo? Mas muitas vezes o cirurgião também é obrigado a fazer coisas muito mais “sujas”. Então por que teimamos em desprezar o limpador de ruas? Porque ele ganha pouco.

Na nossa civilização perversa e corrompida, é o dinheiro que determina a escala de valores. São as pessoas que desempenham o trabalho mais útil que ocupam as posições mais baixas na escala social, sendo em geral mal pagas. Mas se, por alguma razão qualquer, o limpador de ruas passasse a ganhar 100 dólares por dia e o médico apenas 50, o “imundo” limpador imediatamente subiria na escala social, adquirindo outro status, e de trabalhador imundo passaria a ser um homem importante, graças ao seu salário.

Vejam, portanto, que é o que se ganha, a remuneração percebida, o nível salarial e não o mérito e o valor de cada um que determinam, sob o atual sistema de lucro, a posição que cada um ocupa na sociedade.

Homens preguiçosos e trabalho sujo

Uma sociedade sensata, dentro de um sistema anarquista, teria parâmetros inteiramente diferentes para julgar tais questões. Os seres humanos seriam apreciados pela sua disposição em desempenhar tarefas úteis para a sociedade.

Será possível entender as grandes mudanças que tal atitude poderia produzir? Todo ser humano desejaria obter o respeito e a admiração de seus semelhantes, pois esse é um tônico sem o qual não podemos viver. Mesmo na prisão, pude observar como o punguista mais esperto ou o assaltante e arrombador de cofres mais hábil desejam obter a admiração e a estima de seus companheiros e fazem o possível para consegui-la. A opinião de círculo de pessoas entre as quais vivemos é que vai determinar o nosso comportamento.

A atmosfera social que respiramos é que determina, em nível de profundidade, os nossos valores e atitudes. A experiência pessoal de cada um irá confirmar a veracidade das minhas afirmações, e assim não será surpresa quando eu disser que, numa sociedade anarquista, serão as tarefas mais difíceis e mais úteis que merecerão a preferência dos homens. Se pensar no que acabo de afirmar, não terá mais medo da preguiça e não quererá fugir da luta.

Alexander Berkman (O que é o Comunismo Anarquista, 1929)

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