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Chomsky – Por que o Resto do Mundo não quer mais ser como os EUA

Muitos países no mundo veem os EUA como a maior ameaça às suas sociedades.

5 de Novembro de 2013  

Noam Chomsky

Durante o último episódio da farsa de Washington que deixou atônito um mundo perplexo, um comentarista chinês escreveu que se os Estados Unidos não podem ser um membro responsável do sistema mundial, talvez o mundo deveria ser  “des-Americanizado” — e separado do Estado pária que é o poder militar reinante mas que está perdendo credibilidade em outros domínios.

A fonte imediata do desastre de Washington foi a guinada aguda à direita por parte da classe política. No passado, os Estados Unidos foi algumas vezes descrito sarcasticamente — mas não equivocadamente — como o Estado de um partido único: o partido dos negócios, com duas facções chamadas Democratas e Republicanos.

Hoje isso não é mais verdade. Os EUA ainda possui um partido único, o partido dos negócios. Mas ele possui apenas uma facção: os Republicanos moderados, que hoje são chamados de Novos Democratas (da forma como a coalizão congressista dos EUA se auto-intitula).

Ainda existe uma organização Republicana, mas há muito tempo atrás ela abandonou qualquer pretensão de ser um partido parlamentar normal. O comentarista conservador Norman Ornstein do Instituto American Enterprise descreve os Republicanos de hoje como  “uma insurreição radical — ideologicamente extremistas, que despreza fatos e acordos, desdenhosa da legitimidade da sua oposição política”: uma ameaça séria à sociedade.

O partido está servindo de correia de transmissão dos interesses dos ricos e do setor corporativo. Dado que votos não podem ser obtidos através desta plataforma, o partido foi obrigado a mobilizar setores da sociedade considerados fanáticos pelos padrões mundiais. A loucura é a nova regra entre os membros do Tea Party entre outros indivíduos através do mainstream.

O stablishment Republicano e seus financiadores de campanha esperavam usá-los como uma ponta de lança no assalto liberal contra a população — para privatizar, para desregular e para limitar o governo, enquanto mantinham aquelas partes que serviam à riqueza e ao poder, como o exército.

O stablishment Republicano teve algum sucesso, mas agora percebeu que não pode mais controlar suas bases, para o seu próprio desalento. Deste modo o impacto sobre a sociedade americana se torna ainda mais severo. Um caso a se pensar: a reação violenta contra a Lei de Cuidados Acessíveis e o quase fechamento do governo.

A observação do comentarista chinês não é inteiramente nova. Em 1999, o analista político Samuel P. Huntington alertou que para grande parte do mundo, os EUA está se “tornando uma potência malfeitora” sendo vista como “a maior ameaça externa às suas sociedades.”

Há poucos meses do final da gestão Bush, Robert Jervis, presidente da Associação Americana de Ciência Política, alertou que “Para os olhos de grande parte do mundo, na verdade, o principal Estado malfeitor hoje são os Estados Unidos” Ambos Huntington e Jervis alertaram que tal caminho é insensato. As consequências para os EUA poderiam ser prejudiciais.

No último número da revista Foreign Affairs, o principal jornal do stablishment, David Kaye analisa um dos aspectos do afastamento de Washington do resto do mundo: a não aceitação dos tratados multilaterais “como se fosse esporte.”

Ele explica que alguns tratados foram rejeitados logo de cara, como aquele em que o Senado dos EUA “votou contra a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência em 2012 e o Tratado para a Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBT) em 1999.”

Outros são rejeitados por inércia, incluindo “temas tais como direitos laborais, econômicos e culturais, espécies ameaçadas, poluição, conflitos armados, manutenção da paz, armas nucleares, leis marítimas, e discriminação contra mulheres.”

A rejeição das obrigações universais “se tornou tão enraizada,” Kaye afirma, “que os governos estrangeiros não mais esperam a ratificação de Washington ou sua participação plena nas instituições criadas por esses tratados. O mundo está seguindo em frente; as leis são criadas em outro lugar, com envolvimento mínimo (se houver algum) dos EUA.”

Apesar de não ser nova, a prática enraizou-se ainda mais em anos recentes, ao lado da aceitação nacional tácita da doutrina de que os EUA tem todo o direito de agir como um Estado pária.

Para usarmos um exemplo típico, há poucas semanas atrás, as forças de operações especiais dos EUA arrebataram um suspeito, Abu Anas al-Libi, das ruas da capital Líbia de Trípoli, trazendo-o para uma embarcação naval para interrogatório sem respeito ao direito a um advogado ou a quaisquer outros.   O Secretário de Estado dos EUA John Kerry informou a imprensa que as ações foram legais porque respeitaram as leis americanos, não suscitando qualquer comentário particular.

Os princípios são válidos apenas quando são universais. As reações seriam um pouco diferentes, é desnecessário dizer, se as forças especiais Cubanas sequestrassem o notório terrorista Luis Posada Carriles em Miami, trazendo-o a Cuba para interrogatório e julgamento de acordo com as leis Cubanas.

Tais ações são exclusivas a Estados párias. Mais precisamente, ao único Estado pária que é poderoso o suficiente para agir com impunidade: em anos recentes, para realizar atos de agressão conforme sua vontade, para aterrorizar grandes regiões do mundo com ataques teleguiados, entre outras coisas.

E para desafiar o mundo de outras formas, por exemplo ao persistir em seu embargo contra Cuba apesar da prolongada oposição do resto do mundo, com exceção de Israel, que votou com seu guardião quando as Nações Unidas condenaram novamente o embargo (188 a 2) em Outubro.

Seja o que for que o mundo pense, as ações dos EUA são legítimas porque nós assim as declaramos. Este princípio foi enunciado pelo eminente estadista Dean Acheson em 1962, quando instruiu a Sociedade Americana de Direito Internacional de que nenhuma questão legal surge quando os Estados Unidos respondem a um desafio ao seu “poder, posição e prestígio”.

Cuba cometeu o mesmo crime quando rechaçou uma invasão dos EUA e então teve a audácia de sobreviver a um ataque planejado para trazer “os terrores do planeta” a Cuba, nas palavras do historiador e conselheiro do Pres Kenneddy, Arthur Schlesinger.

Quando os EUA conquistaram sua independência, ele procurou se juntar à comunidade internacional da época. É por esse motivo que a Declaração de Independência se inicia expressando preocupação pelo “respeito decente às opiniões da humanidade”

Um elemento crucial foi a evolução de uma confederação desordenada para uma “nação digna de um tratado,” nas palavras da historiadora Eliga H. Gould’s, essas palavras observaram as convenções da ordem Europeia. Ao alcançar esse status, a nova nação também ganhou o direito de agir como quiser em seus assuntos internos.

Ela poderia então se incumbir da extinção da população indígena e da expansão da escravidão, uma instituição tão odiosa que não seria tolerada na Inglaterra, conforme o distinto jurista William Murray, Conde de Mansfield, legislou em 1772. Os avanços da lei inglesa foram um dos fatores que motivaram a sociedade escravagista a escapar do seu alcance.

Se tornar uma nação digna de um tratado confere portanto muitas vantagens: reconhecimento no exterior, e a liberdade de agir dentro de suas fronteiras sem qualquer interferência. O poder hegemônico oferece a oportunidade de se tornar um Estado pária, desafiar as leis e as normas internacionais livremente, enfrentando uma resistência crescente ao redor do mundo contribuindo para para o seu próprio declínio através de danos auto infligidos.

© 2013 Noam Chomsky — Distribuído por The New York Times Syndicate

Noam Chomsky é professor de linguística no MIT – o Instituto de Tecnologia de Massachussets.

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