08
jun
14

Paul Krugman – A Suécia virou um Japão

Paul Krugman

Paul Krugman

Há três anos atrás a Suécia era considerada um modelo sobre como se lidar com a crise. As exportações do país foram duramente atingidas pela crise no comércio mundial mas voltaram a crescer; seus bancos bem regulados expulsaram a tempestade; seus fortes programas de previdência social deram apoio à demanda por consumo; e, ao contrário de boa parte da Europa, ela possuía sua própria moeda, dando-lhe sua necessária flexibilidade. Em meados de 2010 os resultados estavam aparecendo, e o desemprego estava caindo rápido. A Suécia, declarou o The Washington Post, era a “estrela da recuperação econômica.”

Então surgiram os sadomonetaristas.

Até então a história era a seguinte: Em 2010 a economia sueca estava indo bem melhor do que a da maioria dos países mais ricos. Mas o desemprego ainda estava alto, e a inflação estava baixa. No entanto, o Riksbank — o equivalente sueco ao Federal Reserve — decidiu aumentar as taxas de juros.

Havia uma divergência dentro do Riksbank sobre esta decisão. Lars Svensson, vice-presidente à época — e ex-colega meu de Princeton — veementemente se opôs ao aumento das taxas. Mr. Svensson, um dos maiores especialistas do mundo a respeito de armadilhas deflacionárias do tipo japonês, advertiu que o aumento das taxas de juros em uma economia ainda em depressão colocaria a Suécia sob o risco de sofrer resultados semelhantes. Mas ele se encontrou isolado, e deixou o Riksbank em 2013.

Com certeza, o desemprego sueco parou de cair logo após o aumento das taxas. A deflação demorou um pouco mais, mas ela eventualmente chegou. A estrela da recuperação econômica havia se transformado em um Japão.

Então por que o Riksbank cometeu erro tão grave? Essa é uma pergunta difícil de se responder, porque os oficiais mudaram sua história com o tempo. Primeiramente o presidente do banco declarou que se tratava exclusivamente de fugir da inflação: “se não aumentarmos as taxas de juro agora, correremos o risco de enfrentar uma enorme inflação adiante … Nosso objetivo principal é garantir que alcancemos a nossa meta inflacionária de 2 por cento.” Mas conforme a inflação escorregou para próxima de zero, caindo ainda mais abaixo do que aquele suposto alvo crucial, o Riksbank ofereceu uma nova justificativa: a escassez monetária era para refrear a bolha inflacionária, afastar o risco de instabilidade financeira. Ou seja, conforme a situação mudou, os oficiais inventaram uma nova justificativa para uma política que permaneceu a mesma.

Resumindo, este era um caso clássico de sadomonetarismo em ação.

Estou usando o termo (cunhado por William Keegan, do jornal The Observer) judiciosamente, não apenas para fins ilustrativos. Pelo menos, da forma como defino, o sadomonetarismo é uma atitude, comum entre autoridades e comentaristas monetários, que envolve uma aversão visceral a baixas taxas de juros e a dinheiro fácil, mesmo quando o desemprego está alto e a inflação baixa. Você pode encontrar muitos sadomonetaristas em organizações internacionais; nos Estados Unidos eles costumam atender em Wall Street ou em departamentos de economia inclinados à direita. Eles não, fico feliz em dizer, exercem muita influência sobre o Federal Reserve — mas eles assediam o Fed diuturnamente, exigindo que ele interrompa seus esforços para promover o emprego.

Quando digo que a aversão dessas pessoas a taxas de juros baixas é visceral, estou falando sério. Enquanto os sadomonetaristas podem oferecer o que se parece com análises racionais para justificar suas visões políticas, eles não mudam suas visões políticas em resposta às mudanças nas condições — apenas inventam novas justificativas. Isso sugere fortemente que o que estamos testemunhando aqui é um sentimento visceral ao invés do produto de uma reflexão.

Realmente, as transformações nas justificativas do Riksbank’s para os aumentos nas taxas foram refletidas por organizações internacionais tais como o Bank for International Settlements, baseado na Suíça, um banco de banqueiros influente que é um bastião sadomonetarista. Assim como o Riksbank, o banco mudou suas justificativas para os aumentos da taxa — é tudo por causa da inflação! É por causa da estabilidade financeira! — mas nunca são demandas políticas.

De onde surge essa aversão visceral a taxas mínimas? Uma hora ela tem que refletir uma identificação instintiva com os interesses dos credores abastados em oposição aos devedores mais pobres. Mas também é motivado, creio eu, pelo desejo de muitas autoridades monetárias de posar como pessoas sérias e determinadas — e demonstrar o quão dura elas são, ao infligir dor nos outros.

Quaisquer sejam os seus motivos, os sadomonetaristas já causaram muitos prejuízos. Na Suécia eles retiraram a derrota das mãos da vitória, transformando uma história econômica de sucesso em um conto de deflação e estagnação a perder de vista.

E eles poderiam causar danos muito maiores no futuro. Os mercados financeiros estão muito calmos ultimamente — sem grandes crises bancárias, sem ameças iminentes de esgarçamento do euro. Mas seria errado e perigoso assumir que a recuperação está garantida: políticas ruins podem sabotar facilmente nosso ainda lento avanço econômico. Então quando homens de ternos escuros em tons graves lhe disserem que está na hora de acabar com todo esse dinheiro fácil e de aumentar as taxas, fique atento: Veja o que essas pessoas fizeram com a Suécia.

 Publicado originalmente no The New York Times no dia 20/04/2014

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