08
jun
14

Paul Krugman – O fator Piketty

Paul Krugman

Paul Krugman

“O Capital no Século XXI,” o novo livro escrito pelo economista francês Thomas Piketty, é um fenômeno digno do nome. Outros livros sobre economia foram campeões de venda, mas a contribuição do Sr. Piketty é pesquisa acadêmica séria, do tipo que muda paradigmas de uma forma que a maioria dos best sellers não chegam nem perto. E os conservadores estão aterrorizados. Isso explica o alerta de James Pethokoukis do Instituto Empreendedor Americano na revista National Review de que a obra de Piketty deve ser repercutida, pois, de outra forma, ela “se espalhará entre os heresiarcas e remodelará o panorama econômico sobre o qual todas as batalhas sobre políticas públicas serão travadas.”

Bem, boa sorte nessa empreitada. A coisa mais impressionante sobre este debate até agora, é que a direita pareceu-me incapaz de elaborar qualquer tipo de contra-ataque significativo à tese do Sr Piketty. Ao contrário, as respostas não vão além de simples rotulações — em particular, afirmações de que o Sr. Piketty é um marxista, assim como o são qualquer pessoa que considere a desigualdade de renda e riqueza um assunto importante.

Voltarei às taxações em um minuto. Primeiro vamos falar sobre porque “O Capital” está tendo um impacto tão grande.

Dificilmente podemos afirmar que o Sr Piketty é o primeiro economista a destacar que estamos experimentando um aumento agudo da desigualdade social, ou a apontar o contraste entre o diminuto crescimento da renda para a maioria da população e os crescimentos disparados da elite. É verdade que Piketty e seus colegas acrescentaram uma boa dose de profundidade histórica ao conhecimento corrente, demonstrando que nós realmente estamos vivendo em uma nova Era das Guildas. Mas nós já sabemos disso há algum tempo.

Não, o que há de realmente novo sobre “O Capital” é a forma como ele demole um dos mitos conservadores mais celebrados, a insistência de que estamos vivendo em uma meritocracia na qual grande parte da riqueza é conquistada e merecida.

Nas últimas décadas, a resposta conservadora às tentativas de se transformar o crescimento exorbitante da riqueza em uma questão política envolveu duas linhas de defesa: primeiro, a negação de que os ricos estavam ganhando tanto e o resto tão pouco, mas quando a negação falhava, a reivindicação de que estes crescimentos vertiginosos eram uma recompensa justa aos serviços prestados. Não os chame de 1%, ou de privilegiados; chame-os de “criadores de empregos”.

Mas como você pode defender isso se os ricos amealham a maior parte da sua renda não do trabalho que realizam, mas dos ativos que possuem? E o que falar quando a maior parte da riqueza surge cada vez mais não do empreendimento, mas da herança?

O que Piketty demonstra é que essas não são questões bizantinas. As sociedades ocidentais antes da I Guerra Mundial eram de fato dominadas por uma oligarquia de herança hereditária — e o seu motivo nos apresenta razões convincentes para acreditar que estamos caminhando de volta para a mesma situação.

Então o que cabe a um conservador, que teme que esse diagnóstico sirva para a criação de impostos sobre grandes fortunas, fazer? Ele poderia tentar refutar Piketty de forma substantiva, mas, até o momento não vi indícios de que isso aconteça. Pelo contrário, como disse, tudo o que tenho visto têm sido respostas taxativas.

Imagino que não deveria me surpreender com isso. Tenho estado envolvido em discussões sobre a desigualdade por mais de duas décadas, e até hoje nunca vi “experts” conservadores capazes de contestar os números sem pisar nos próprios cadarços intelectuais. Porque, é quase como se os fatos definitivamente não estivessem do lado deles. Ao mesmo tempo, taxar como comunista qualquer pessoa que questionasse qualquer aspecto do dogma do livre mercado têm sido o procedimento operacional padrão desde que tipos como William F. Buckley tentaram proibir o ensino de economia keynesiana, não demonstrando que ela estivesse errada, mas denunciando-a como“coletivista.”

De qualquer modo, tem sido maravilhoso assistir conservadores, um após outro, denunciar o Sr. Piketty como um marxista. Mesmo o Sr. Pethokoukis, que é mais sofisticado que os outros, rotulou “O Capital” como um trabalho de “marxismo light”, o que apenas faria sentido se a mera menção à desigualdade de renda tornasse alguém marxista. (Talvez seja assim mesmo que eles pensam: recentemente o ex-senador Rick Santorum denunciou a expressão “classe média” como “papo marxista,” porque, como você pode ver, nós não possuímos classes na América.)

E a resenha do jornal The Wall Street Journal, de maneira previsível, vai ainda mais longe, remetendo a defesa de Piketty de um imposto progressivo como forma de limitar a concentração de renda — um remédio tão americano quanto a torta de maçã, já tendo sido defendido não só por eminentes economistas mas também por lideranças políticas, incluindo o ex-presidente Teddy Roosevelt — aos males do stalinismo. Isso é o melhor que o Journal pode fazer? A resposta, aparentemente, é que sim.

Agora, o fato de que os apologetas das oligarquias nacionais estarem claramente em falta de argumentos coerentes não significa que eles estejam concorrendo politicamente. O dinheiro ainda fala mais alto — de fato, em parte graças à corte do juiz Robert, fala mais alto do que nunca. As ideias ainda falam também, influenciando como falamos sobre a sociedade e, eventualmente, como agimos. E o fator Piketty mostra que a direita ficou sem ideias.

Publicado originalmente no The New York Times no dia 24/04/2014

 

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