08
jun
14

Paul Krugman – Pontos Sem Volta

Paul Krugman

Paul Krugman

Recentemente duas equipes de pesquisadores, trabalhando separadamente e usando metodologias diferentes, chegaram a uma conclusão alarmante: A camada de gelo do Atlântico Oeste está condenada. O deslizamento da camada em direção ao oceano, e o resultante aumento dos níveis do mar, deverão acontecer vagarosamente. Mas é irreversível. Mesmo se tomarmos ações drásticas para limitar o aquecimento global agora mesmo, este processo de mudança ambiental em particular alcançou um ponto do qual não há volta.

Enquanto isso, o Senador da Florida, Marco Rubio — cuja boa parte do estado agora está condenado a submergir nas águas — resolveu se somar à questão climática. Alguns leitores podem se lembrar que, em 2012 o Sr. Rubio, perguntado sobre quantos anos acreditava ter a terra, respondeu “Eu não sou cientista, cara.” Desta vez, entretanto, ele confiantemente declarou que o avassalador consenso sobre as mudanças climáticas é falso, apesar de que em uma entrevista posterior foi incapaz de citar quaisquer fontes que justificassem seu ceticismo.

Então por que o senador faria tal declaração? A resposta é que, assim como aquela camada de gelo, a evolução intelectual do seu partido (ou, mais precisamente, seu retrocesso) alcançou um ponto sem volta, no qual as demonstrações de adesão a falsas doutrinas se tornou uma insígnia.


Ultimamente tenho pensado bastante sobre o poder das doutrinas — como o apoio a um falso dogma pode se tornar politicamente obrigatório, e o quanto evidências em contrário apenas tornam tais dogmas mais fortes e mais extremados. Em sua maior parte, tenho focado sobre temas econômicos, mas a mesma história se aplica com força ainda maior em se tratando do clima.

Para entender como funciona, considerem um tópico que eu conheço bem: a história recente dos pânicos inflacionários.

Mais de cinco anos se passaram desde que muitos conservadores começaram a alertar que o Federal Reserve, ao tomar ações para conter a crise financeira e estimular a economia, estava preparando o palco para o descontrole inflacionário. E, para ser justo, essa não era uma posição tão absurda para se tomar em 2009; eu poderia ter lhe dito que estava errado (como de fato, o fiz), mas você podia ver o que justificava isso.

Com o passar do tempo, entretanto, conforme a inflação prometida falhou em aumentar, chegou um ponto no qual os inflacionistas deveriam reconhecer seu erro e seguir em frente.

Na verdade, entretanto, poucos o fizeram. Em vez disso, a maioria deles aumentaram suas apostas na previsão de um desastre, e alguns seguiram o caminho do conspiracionismo, defendendo que o a inflação já estava aumentando, mas estava sendo mascarada por oficiais do governo.

Por que o mau comportamento? Ninguém gosta de admitir erros, e todos nós — mesmo aqueles dentre nós que tentam não fazê-lo — algumas vezes se envolvem com racionalizações, citando fatos seletivamente para apoiar nossos preconceitos.

Mas, por mais difícil que seja admitir seus próprios erros, é muito mais difícil admitir que todo o seu movimento político entendeu tudo errado. A fobia inflacionária sempre esteve intimamente ligada à direita; admitir que essa fobia foi equivocada significaria aceitar que todo um lado do espectro político estava completamente por fora dos fundamentos sobre como a economia funciona. De modo que a maioria dos inflacionistas responderam à falha das suas previsões se tornando mais, e não menos, extremistas em seus dogmas, o que torna ainda mais difícil admitir que eles, e o movimento político ao qual servem, estiveram errados o tempo todo.

O mesmo tipo de coisa está acontecendo em relação ao tema da mudança climática. Existem, é claro, alguns fatores fundamentais subjacentes ao ceticismo climático do Partido Republicano: A influência de interesses poderosamente investidos (incluindo, mas de nenhuma forma limitado, aos Irmãos Koch), além da hostilidade do partido em relação a qualquer argumento a favor da maior intervenção do governo. Mas há, claramente, algum processo cumulativo operando. Conforme as evidências a favor das mudanças climáticas vão se acumulando, o comprometimento com a negação do Partido Republicano fica cada vez mais forte.

Pense nisso desta forma: Há um tempo não muito distante era possível levar as mudanças climáticas a sério e continuar sendo um Republicano de boa reputação. Hoje em dia, ouvir climatologistas podem levá-lo à excomunhão — daí a declaração do Sr. Rubio, que se tratava na verdade de uma jura de fidelidade ao partido.

E posições cada vez mais absurdas estão se tornando o padrão. Há uma década atrás, apenas os maiores extremistas do Partido Republicano afirmariam que o aquecimento global era um boato fabricado por uma vasta conspiração global de cientistas (apesar que mesmo essa extremidade incluía alguns políticos poderosos). Hoje em dia, tal atitude conspiratória se tornou mainstream dentro do partido, e está rapidamente se tornando obrigatória; promover caça às bruxas contra cientistas que divulgassem evidências sobre o aquecimento se tornou procedimento padrão, e o ceticismo sobre a ciência climática está se transformando em hostilidade contra a ciência em geral.

É difícil ver o que poderia reverter essa hostilidade crescente à ciência inconveniente. Como eu disse, o processo de retrocesso intelectual aparentemente alcançou um ponto sem volta. E isso me assusta mais do que as notícias sobre o deslize da camada de gelo.

 Publicado originalmente no The New York Times no dia 15/05/2014

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