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Noam Chomsky – Os países ricos estão nos conduzindo ao desastre

Chomsky sobre a NSA, a destruição do planeta e outros

 

29 de Dezembro, 2013  |

Noam Chomsky

Em seu 85º ano, o intelectual político e linguista Noam Chomsky se mantém um polímata ferozmente ocupado e um ativista dedicado. De fato, sua agenda é tão exigente que nossa entrevista teve que ser marcada com um bom número de semanas de antecedência e o meu tempo ao telefone com o docente do MIT foi intercalado entre outra entrevista à imprensa e outro de seus muitos compromissos.

Felizmente, falar com Chomsky em dezembro deu a oportunidade de olhar o ano em retrospectiva — um ano de revelações e ofuscamentos relacionados à atividade do governo dos EUA.

Chomsky contou a Natasha Lennard suas opiniões sobre o caminhão de vazamentos da NSA, o futuro dos meios de comunicação, a neoliberalização do sistema educacional e os princípios de funcionamento dos governos. E, é claro, o caminhar do planeta em direção à sua própria extinção.

Q: As revelações deste ano sobre a amplitude das atividades de vigilância do Estado certamente não são as primeiras a lançar luz sobre as atividades governamentais de espionagem. Existe algo de particular ou único, na sua opinião, sobre as revelações da NSA?

Em princípio não há inovação; coisas assim acontecem há bastante tempo. A escala e o caráter incrivelmente ambicioso das atividades de vigilância e controle é que são novos. Mas é o tipo de coisa que se deveria esperar. A história remonta há bastante tempo atrás. Então, por exemplo, se você voltar há cem anos atrás, logo após a invasão das Filipinas pelos EUA — uma invasão brutal que matou centenas de milhares de pessoas — houve um problema de pacificação para os EUA posteriormente. O que você faz para controlar a população e prevenir outro levante nacionalista? Existe um estudo muito bom a esse respeito realizado por Alfred McCoy, um intelectual Filipino da Universidade de Wisconsin, e o que ele demonstra é que os EUA usaram as tecnologias mais sofisticadas à época para desenvolver um sistema de vigilância, controle, e dispersão em massa para frustrar qualquer oposição em potencial – e para impor controles bastante rígidos sobre a população – que durou por muito tempo e de várias formas as Filipinas ainda sofrem os efeitos disso. Mas ele também aponta que a tecnologia logo foi trazida para casa. A administração Woodrow Wilson a usou em seu episódio do “Terror Vermelho” alguns anos mais tarde. Os Ingleses também a usaram.

Q: Você acredita que as revelações sobre o crescimento da vigilância estimularam alguma reflexão importante por parte do público americano sobre o funcionamento do nosso Estado e do nosso uso da tecnologia?

Governos são sistemas de poder. Eles estão tentando manter seu poder e dominação sobre suas populações e usarão quaisquer meios disponíveis para isto. Hoje os meios são muito sofisticados e estensivos e podemos esperar que eles aumentem. Então, por exemplo, se você lê jornais de tecnologia você ficará sabendo que em laboratórios de robótica há alguns anos têm havido esforços para desenvolver pequenos drones, que eles chamam de “drones mosquito”, que poderiam invadir a casa de uma pessoa, ser praticamente invisível e realizar uma vigilância constante. Você pode ter certeza de que o exército está bastante interessado nisso, assim como os sistemas de inteligência, e logo o estarão usando.

Estamos desenvolvendo tecnologias que serão usadas por nossos próprios governos e por corporações privadas e que já estão sendo usadas para maximizar as informações para eles para o exercício de dominação e controle. Esta é a forma através da qual funcionam os sistemas de poder. É claro, eles sempre usaram a segurança como desculpa. Mas eu acredito que as pessoas deveriam ficar cautelosas com tais declarações. Os governos apelam à segurança para qualquer atividade que realizem, entretanto, dado que a desculpa é previsível ela não traz nenhuma novidade. Se após o evento os sistemas de poder exigem segurança, isso significa que o princípio simplesmente não está funcionando. E se você olhar para o registro histórico, descobrirá que a segurança é geralmente um pretexto e não uma alta prioridade dos governos. Se por isso eu quero dizer a segurança da população — a segurança do próprio sistema de poder e dos interesses domésticos que ele representa, sim, é uma preocupação. Mas a segurança da população não.

Q: Você frequentemente chamou atenção para as falhas na insidiosa fidelidade institucional da mídia corporativa durante a sua carreira — especialmente no seu livro “Fabricando Consensos” [1988]. Qual é a sua opinião sobre o papel atual da mídia dos EUA? Você deposita grande confiança em novos quadros como Glenn Greenwald, que já prometeu atacar agressivamente as falhas praticadas por governos e corporações?

A disponibilidade da Internet ofereceu um acesso mais fácil do que antes a uma grande variedade de informações e opiniões, entre outros.  Mas eu não creio que se trate de uma mudança qualitativa. É mais fácil acessar a Internet do que ir a uma biblioteca, sem dúvidas. Mas o surgimento das livrarias foi uma mudança muito maior do que o desenvolvimento da Internet. Ele permitiu um maior acesso — essa é a parte positiva — mas, por outro lado, foi combinado a um processo de perseguição à investigação e divulgação independentes dentro dos próprios meios de comunicação. Há muito a se criticar sobre os meios de comunicação mas eles são a fonte regular de informação sobre uma variedade de tópicos. Você não pode duplicar isso em blogs. E isso está acabando. Jornais locais, eu não preciso lhe dizer isso, estão se tornando muito mais limitados em seu alcance global, inclusive em seu alcance nacional. E esse é o filé mignon da busca de informações. Nós podemos criticar o seu caráter e as inclinações que seguem, e os seus limites institucionais, mas apesar disso eles continuam sendo inestimáveis. Eu nunca questionei isso. E isso está diminuindo ao mesmo tempo em que o acesso a um espectro mais amplo de material está aumentando. A iniciativa de Greenwald é bastante promissora. Ele mesmo possui uma carreira impressionante formada por pensamento, investigação, análise e jornalismo independentes. Eu acredito que existem boas razões para confiar em seu julgamento. Para onde isso vai, nós não sabemos, ainda não começou, então ainda é pura especulação.

Eu penso que, por exemplo,  o The New York Times continuará sendo um “jornal de referência” como é conhecido no futuro imediato. Eu não vejo como poderia surgir qualquer adversário com o volume de recursos, de correspondentes internacionais, entre outros, novamente, eu acredito que há muito o que podemos criticar a esse respeito, mas ainda assim se trata de um recurso valiosíssimo. Existem muitos outros veículos independentes que são bastante importantes em si mesmos portanto é importante termos, digamos o Democracy Now de Amy Goodman ou o Salon ou qualquer outra voz independente. Mas eu não vejo qualquer indicação de que surgirá alguma forma radical de coleta, divulgação e análise de informações.

Q: Como acadêmico e ativista político você está em uma posição interessante para observar tendências na academia. Como, na sua opinião, o aumento das mensalidades, do débito estudantil e a privatização da instituição acadêmica afetaram a educação superior? Qual é a sua perspectiva sobre as mudanças na educação em geral neste país?

Bem, para mim isso não mudou, mas existem mudanças e tendências no ensino superior e também no K-12 (ensino fundamental e médio) que eu acredito serem bastante temerosos e nocivos. Falando sobre o ensino superior: Durante a última geração — grosseiramente falando durante o período neoliberal — houve uma mudança substancial em direção à privatização das universidades, em direção à imposição do modelo de negócios ao ensino superior. Uma parte dela foi justamente isso a que você se referiu, o aumento das mensalidades. Houve um aumento enorme nas mensalidades. Eu não acredito que haja justificativas econômicas para isso. Olhe para as evidências comparativas. Logo ao sul, no México, que é um país relativamente pobre, existe uma educação superior bastante respeitável, que é gratuita. O país que consistentemente se encontra em primeiro lugar nos rankings educacionais é a Finlândia. Um país rico, cuja educação é gratuita. Na Alemanha, a educação é gratuita. Na França, a educação é gratuita.

Dê uma olhada nos Estados Unidos: Volte cinquenta anos às décadas do pós-guerra. Ele era um país muito mais pobre do que hoje, mas para uma grande parte da população, a educação era gratuita. A Lei dos Veteranos forneceu educação para um grande número de pessoas que, de outra forma, nunca teriam frequentado a universidade. Ela foi altamente benéfica para eles, e altamente benéfica para o país em termos da contribuição que eles foram capazes de fazer em termos de economia, cultura e outros. E era basicamente de graça. Inclusive os custos de universidades privadas eram bastante leves para os padrões de hoje. E aquele era um país muito mais pobre do que é hoje. Então de forma geral acredito que os argumentos econômicos para o aumento agudo das mensalidades nos Estados Unidos e em menor medida na Inglaterra e em outros lugares, uma pessoa não pode oferecer bons argumentos econômicos para isso, pois são decisões políticas. Elas estão relacionadas a outras mudanças que aconteceram, então, por exemplo, durante o mesmo período houve uma enorme expansão na administração das universidades. A proporção do orçamento universitário dirigido à administração aumentou vertiginosamente…. Tudo isso é parte da imposição de um modelo de negócios que também possui efeito em escolhas e decisões curriculares.

Decisões semelhantes vêm sendo tomadas no K-12 com, primeiramente, a diminuição do repasse de verbas, o que é muito sério assim como o rebaixamento, o enfraquecimento ao respeito e à independência dos professores. A pressão para o ensino voltado a testes padronizados, que é a pior forma de educação possível. Na verdade a maioria das pessoas que já passaram pelo sistema educacional possuem experiência em fazer um curso no qual não está muito interessado, ter de estudar para um exame, estudar para o exame e algumas semanas mais tarde se esquecer do que o curso se tratava. É uma crítica que remonta ao Iluminismo, onde eles condenavam o modelo de ensino como análogo a encher um recipiente — e um recipiente bastante furado, como sabemos. Isso prejudica a criatividade, a independência, o prazer da descoberta, a capacidade de trabalhar criativamente com outras pessoas — todas as coisas que que  um sistema educacional decente deveria incentivar. Ele vai na direção oposta, o que é bastante prejudicial. Então existe muito a ser revertido se quisermos nos voltar a um sistema muito mais saudável de educação, preservação e crescimento cultural.

Q: Algum outro problema contemporâneo o preocupa? Você encontra sinais de esperança ou de resistência em torno desses temas que, talvez, você considere animadores?

Bem, podemos fazer uma longa lista, incluindo as coisas a respeito das quais falamos, mas também vale a pena lembrar que, pairando sobre as coisas que discutimos, existem dois grandes problemas. Esses são problemas que ameaçam seriamente a possibilidade de uma sobrevivência humana decente. Uma delas é o crescimento da ameaça de uma catástrofe ambiental, em direção à qual nós corremos como se estivéssemos determinados a nos jogar no precipício, e a outra é a ameaça de uma guerra nuclear, a qual não diminuiu, de fato ela é muito séria e a muitos respeitos está aumentando. A segunda nós sabemos, pelo menos em princípio, como lidar com ela. Existe uma forma de reduzir significativamente esta ameaça; os métodos não estão sendo perseguidos mas sabemos quais são. No caso da catástrofe ambiental não está muito claro se haverá uma forma de controlá-la ou talvez revertê-la. Talvez. Mas, quanto mais esperamos, quanto mais demoramos a tomar medidas, pior será.

É surpreendente ver que aqueles que lideram as tentativas de fazer alguma coisa a respeito dessa catástrofe são as consideradas sociedades “primitivas”. O Primeiros Povos (First Nations) no Canadá, as sociedade indígenas da América Central, os aborígenes da Austrália. Eles estão na linha de frente das tentativas de evitar o desastre em direção ao qual estamos caminhando. Está além da ironia o fato de que os países mais ricos e poderosos do mundo estão nos conduzindo ao desastre enquanto as assim chamadas “sociedades primitivas” estão na linha de frente das tentativas de se reverter isso.

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