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Curadoria – a terceira fronteira da web

Posted by Guest Writer – January 8, 2011 
Este é um artigo escrito pelo convidado Partice Lamothe – Diretor Executivo do Pearltrees (Pearltrees é um cliente da consultoria do SVW). Esta é uma versão levemente editada do artigo “La troisiéme frontiére du Web” que apareceu na revista OWNI – Jornalismo Digital – Março de 2010. O artigo propõe que os princípios fundadores da Internet só agora estão sendo implementados e que a próxima fronteira é organizar, ou fazer a curadoria, da Internet.
Por Patrice Lamothe
 
Patrice_N_B_800pixTodos estão percebendo que a web está entrando em uma nova fase de seu desenvolvimento.
Um dos indicativos desta transição é a multiplicação das tentativas de explicar as mudanças que estão acontecendo. Explicações funcionalistas enfatizam a web em tempo real, sistemas colaborativos e serviços georeferenciados. Explicações técnicas argumentam que a interconectividade entre os dados é o desenvolvimento atual mais importante. Eles consideram as novas fronteiras da web intimamente relacionadas à web semântica, ou à “web das coisas”.
Apesar destas explicações serem ambas pertinentes e intrigantes ao mesmo tempo, nenhuma delas oferece uma matriz analítica que dê conta de explicar o desenrolar dos acontecimentos atuais. Algumas ideias são específicas demais.
A “web em tempo real”, por exemplo, é uma das tendências mais claras e influentes atualmente. Mas, uma vez feita essa observação, não temos uma pista sequer acerca da utilidade ou do impacto da “web em tempo real” ou, mais importante, como isso se encaixa no desenvolvimento da web como um todo.
Em contraste, outras explicações são abrangentes demais para servir a qualquer fim útil.

O conceito de “Web 2.0” apesar das suas limitações, demonstra o relacionamento entre inovações tão diferentes quanto a Wikipedia, o Youtube e blogs. A Web 2.0 serve para resumir o atual patamar da evolução da web.
A expressão “Web ao quadrado”, usada algumas vezes para essa próxima fase, incorpora um grupo heterogêneo de usos e funções. Ela não facilita o entendimento da natureza das mudanças que estão acontecendo, e assim não nos permite inferir o seu verdadeiro impacto.
Como a evolução da web deve ser entendida?
A web representa um compêndio de recursos técnicos, funcionalidades e práticas de uso, e não pode ser reduzida a apenas uma destas dimensões. O sucesso das inovações técnicas se desdobra sobre o ecossistema de produtos existentes.
O desenvolvimento de produtos está ligado a mudanças nos modos de uso. Os modos de uso, por sua vez, apenas se desenvolvem com base nas tecnologias e nos produtos.
A evolução da web não surge a partir das tecnologias, dos produtos ou dos modos de uso isoladamente. Cada uma destas dimensões está intrinsecamente ligada às outras duas, e as inovações que afetam uma podem ter um efeito decisivo sobre as outras.
O desenvolvimento da web não mais depende dos esforços isolados de um indivíduo, companhia ou organização. Mesmo os grandes grupos industriais, assim como entidades governamentais ainda maiores, possuem apenas uma influência marginal quando se trata de coordenar a multidão de pessoas que constitui a web.
Se a evolução da web não pode ser atribuída diretamente ao desenvolvimento de novas tecnologias, produtos ou modos de uso, e se não pode ser reduzida aos esforços de grupos pequenos e claramente identificáveis, como podemos esperar entender os rumos que ela está tomando?
Mais especificamente, como podemos estabelecer um modelo simples que sirva a algum propósito prático?
Na verdade é a natureza descentralizada da web e a infinita diversidade de projetos que estão sendo desenvolvidos nela que nos permitem responder essa pergunta. A web não possui administração central ou regulamentos externos, e carece de normas internas – ou, mais precisamente, ela opera sob inúmeras normas, nenhuma das quais é aplicada uniformemente. As únicas ideias realmente capazes de coordenar as atividades da web são os princípios da sua própria fundação.
Os princípios fundamentais
Estes princípios são simplesmente os objetivos iniciais que Tim Berners-Lee e Robert Caillau propuseram ao seu projeto. Eliminando o jargão técnico, estes objetivos podem ser divididos em três proposições gerais e universalmente aplicáveis:
1 –  Permitir a todo indivíduo acessar todo tipo de documento.
2 – Permitir a todos divulgarem seus próprios documentos.
3 – Permitir a todos organizar todas as suas coleções de documentos.
Esses conceitos guiaram o desenvolvimento das tecnologias, das funções e dos usos na origem da web, a qual foi inicialmente criada para atender às exigências dos cientistas do CERN e, subsequentemente, às comunidades correlatas de pesquisa.
Devido ao baixo número de usuários iniciais, e à população bastante específica à qual ela pertencia, a web originária tinha uma qualidade que nunca mais aconteceu: qualquer usuário à época possuía competência tecnológica suficiente para acessar e criar documentos e, usando edição em html, participar da organização da coleção total de documentos.
Todo usuário era leitor, criador e organizador, de acordo com os três princípios de fundação.
A web, no início uma micro democracia onde todo mundo possuía acesso a tudo o que o meio tinha a oferecer, demarcou as linhas da sua própria evolução e estabeleceu sua direção futura. Seu objetivo como projeto estava claramente definido: permitir a todos os seus usuários se tornaram mídias (ou meios) completas, ou seja, serem capazes de ler, criar e organizar a coletânea de documentos que desejassem.
Esse objetivo era simples e grandioso ao mesmo tempo.
Grandioso porque o objetivo era a democratização completa das atividades do meio. Simples porque a utopia oferecida a todos já era uma realidade para um pequeno grupo de pioneiros. Os princípios fundamentais foram assim a base para o sistema de regulação e desenvolvimento da web.
A web se tornou um projeto universal de open source sem um líder reconhecido, comparável ao que o Wikipedia se tornou, apesar da escala diferente. Seus princípios fundamentais facilitaram a integração de inovações ao ecossistema. Eles naturalmente fomentaram inovações que correspondessem a aqueles princípios, enquanto automaticamente restringiam outras, dessa forma provendo uma direção sustentada para a evolução do projeto como um todo.
As duas fases iniciais da evolução
Vamos considerar agora os vinte anos decorridos desde a web dos primeiros dias; veremos que estes princípios fundamentais garantiram não apenas a coerência de todo o projeto, mas também estruturou suas fases de desenvolvimento.
Primeira fronteira …
O princípio de “garantir a todos acesso a qualquer documento” definiu a primeira fronteira da web e deu direção ao seu estágio inicial de desenvolvimento. Em grande parte, esta fase decorreu de 94-95 até 2003-2004. Ela correspondeu ao desenvolvimento em massa de uma web piramidal, com um pequeno número de atores criando, organizando e divulgando conteúdo, o qual era consumido pela maioria.
Os portais e as ferramentas de busca eram os produtos-chave desta fase; o HTML e o PHP eram suas principais tecnologias; ter acesso à informação foi seu uso principal. Vale perceber que este modelo ainda se aplica à maior parte da atividade da web, e continua a crescer no mesmo ritmo da internet.
Segunda Fronteira …
– A segunda fase do crescimento da web começou em 2000-2002, estimulado por projetos tais como Blogger, MySpace e, mais tarde, o Wikipedia. Logo percebido como um grande ponto de inflexão, a Web 2.0 simplesmente representa a popularização do segundo princípio fundamental: “permitir a todo indivíduo a possibilidade de divulgar seus próprios documentos”.
Tecnologias tais como AJAX e RSS tornarão as funcionalidades de criação e distribuição, as quais eram reservadas apenas aos desenvolvedores, disponíveis a um público maior.
O sucesso inicial da web e a força do projeto como um todo finalmente estão permitindo aos usos relativos se expandirem em escala maciça. Os blogs, as redes sociais e as wikis estão se tornando ícones da democratização da expressão e do debate livres.
Hoje estima-se que a comunidade web participativa é acessada por 200 a 300 milhões de pessoas diariamente. Por seu lado, o segundo princípio fundamental da web também se estendeu além do pequeno círculo de pioneiros para transformar os modos de uso de uma ampla audiência.
As tecnologias, os produtos e os modos de uso estão tão bem estabelecidos agora que a participação se tornará paulatinamente disponível a todos. Seu desenvolvimento contínuo não exigirá nenhuma inovação radical maior e seguirá naturalmente nos próximos anos.
A terceira fronteira …
Conforme resumido acima, as primeiras duas fases tornaram bastante claro onde se situa a próxima fronteira da web. Apesar da abundância de inovações e novas aplicações estarem prolongando tipos de produtos já estabelecidos, um dos três componentes do projeto inicial da web “permitir a todo indivíduo organizar sua coleção de documentos” ainda está longe de alcançar a massa.
Já não foi observado que a linguagem HTML, o elo de ligação essencial no tecido tecnológico da web, o veículo técnico do terceiro princípio, é, ao mesmo tempo, o maior contribuidor para a disponibilidade da web e aquele que menos mudou a sua forma original?
Que a criação dos hyperlinks, os quais interconectam a própria estrutura e a arquitetura das páginas e agem como ponto de partida para ferramentas de busca, permanecem complexos, bastante remotos das atividades do dia a dia, e mal adaptados à multiplicidade de usos que poderiam evoluir a partir dele?
Agora que a web permite a todo mundo ler e divulgar tudo, também deveria permitir a todos fazer aquilo que seus primeiros usuários sempre foram capazes de fazer, a função que reside no âmago da sua originalidade radical: organizar / fazer a curadoria de tudo.
O ecossistema da web deve progressivamente construir tecnologias, inventar produtos e desenvolver métodos de uso que permitirão a todos manipular conteúdo criado por outros, coletar material, editá-lo, priorizá-lo e dar sentido a ele.
A web deveria permitir a todos se tornarem mídias completas.
Nós estamos falando de uma fantasia? De uma aposta? De um futuro hipotético? Na verdade trata-se de muito mais que isso.
Se as direções práticas para o futuro de um sistema tão complexo como a web forem cartografadas, elas deveriam ser organizadas em torno das únicas coordenadas possíveis entre atores que são diferentes e numerosos demais para coordenarem a situação por si mesmos.
Elas devem se basear nos únicos elementos que são compartilhados universalmente: os princípios fundamentais do projeto.
Postular que o próximo passo na evolução da web é a democratização  da capacidade de organizar/ fazer a curadoria é simplesmente postular que este é o único dos três segmentos originais do DNA da web que ainda não alcançou o nível de desenvolvimento dos outros dois. Deste modo podemos falar corretamente da próxima fronteira do projeto. 
Em direção a uma web completa
Se este for realmente o caso, agora que os desenvolvimentos sucessivos dos primeiro e segundo princípios foram garantidos, não podemos imaginar que técnicas, produtos e usos inovadores irão convergir na direção desta fronteira que estamos antecipando? Esta evolução está acontecendo sob nossos olhos: a terceira fase da web já está a caminho.
Condições, carências e capacidades se alinharam de tal forma que o terceiro princípio da web agora está se estendendo além do grupo pequeno e original de profissionais e pioneiros.
Entre os usuários, as redes sociais agora estão tornando as trocas instantâneas de conteúdo possíveis. Quase 20% dos tweets enviados contém URLs. O Facebook coloca links de compartilhamento no topo da sua hierarquia de funções.
Para muitos entusiastas da web, ler conteúdo proposto por uma comunidade está substituindo a informação reunida por agregadores automáticos.
Na frente tecnológica, os sistemas colaborativos e a “web em tempo real” permitem a todos coordenar suas visões com as várias comunidades, organizando dados conforme eles são recebidos. A tendência em direção à abertura dos dados e das tecnologias semânticas está ampliando tanto a estrutura organizacional básica da web assim como os meios de acessá-la.
Interfaces ricas oferecem meios para simplificar radicalmente as atividades de edição e organização de modo que todo usuário possa manipular dados complexos de maneira intuitiva, divertida e natural.
Na área de produtos e funções, gigantes da web, assim como as startups mais avançadas, estão gradualmente caminhando em direção a uma web apurada pelo usuário. [Algumas das inovações do Google implementam funções de curadoria, tais como Wave, SideWiki; além da abertura da sua ferramenta de busca para expor opiniões e avaliações dos seus usuários.]
Além disso, a organização/curadoria da web por seus próprios usuários logo irá levar ao tribunal o modelo hierárquico e automático das ferramentas de busca.
  • Wikia foi a primeira tentativa significativa de se desenvolver uma engine de busca usando um algoritmo colaborativo.
  • Pearltrees, o qual foi desenhado especificamente para ser uma rede de interesses, permite aos seus membros organizar/selecionar, conectar e facilmente localizar todo o conteúdo do seu interesse.
  • Foursquare, diferente dos sistemas de localização mais antigos, se aplica não apenas a pessoas, mas também a coisas; nesta rede, atores que representam uma mesma peça podem organizar todos os lugares que visitam regularmente.
As tecnologias, produtos e usos surgidos na primeira e na segunda fases não desaparecerão. Pelo contrário, na próxima fase combinarão os três princípios que são a base da história e da web: cada usuário será um espectador [consumidor], um criador e um curador.
A web assim se tornará para todos aquilo que já foi a uma minoria privilegiada: um meio completo, democrático e acessível a todos.
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