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dez
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Nicolas Walter – Ação Anarquista

Nicolas Walter

(in Sobre o anarquismo, 1969)

Nicolas WalterA diferença entre teorizar sobre o anarquismo e colocá-lo em prática implica em uma mudança de estrutura. O típico grupo de discussão ou propaganda, aberto à participação de estranhos e à vigilância das autoridades e que tem como base o fato de que cada um pode fazer o que quiser e não fazer o que não quiser tornar-se-á mais exclusivo e formal. Este é um momento de grande perigo, já que uma atitude demasiado rígida levará ao autoritarismo e ao sectarismo, e a indulgência resultará em confusão e irresponsabilidade. É um momento de perigo ainda maior também porque, no momento em que o anarquismo passa a ser um assunto sério, os anarquistas passam a representar uma ameaça real e a verdadeira perseguição começa.

A forma de ação anarquista mais comum é fazer com que a agitação provocada por uma determinada questão se transforme em participação ativa numa campanha. Esta tanto poderá ser reformista, tentando mudar alguma coisa sem alterar todo o sistema; ou revolucionária, pregando uma transformação do próprio sistema; poderá ser legal, ilegal ou ambas; violenta, pacífica ou apenas não-violenta. Poderá ter possibilidades de sucesso ou ser, desde o início, uma causa perdida. Os anarquistas tanto poderão ter grande influência, e até mesmo dominar a campanha, quanto ser apenas um dos grupos participantes.

Não é difícil pensar numa grande variedade de possíveis campos de ação e durante séculos os anarquistas experimentaram todos eles. Mas a forma de atuação que os anarquistas mais apreciam e que é mais típica do movimento é, sem dúvida, a ação direta.

O conceito de ação direta é muitas vezes mal interpretado, tanto pelos anarquistas quanto por seus inimigos. Quando a frase foi usada pela primeira vez, em 1890, ela designava apenas o antônimo de ação política, ou seja, parlamentar; e no contexto do movimento operário significava “ação industrial” em especial as greves, boicotes e sabotagens que eram vistos como uma forma de preparação e ensaio para a revolução. O importante é que a ação não fosse exercida pelas pessoas mais envolvidas na situação em causa e diretamente sobre ela, o objetivo principal sendo obter algum resultado concreto e não apenas publicidade para o movimento.

E embora isto nos pareça bastante claro, o que aconteceu na verdade é que a ação direta foi confundida com propaganda através da ação e, especialmente, com uma forma de desobediência civil.

A técnica de ação direta surgiu durante o movimento sindicalista francês como uma reação às formas mais radicais de propaganda através da ação; em vez de desviar-se do caminho, perdendo-se em gestos dramáticos, mas pouco eficazes, os sindicalistas lançavam-se a um trabalho mais monótono mas eficaz – esta era pelo menos a teoria. Mas à medida em que o movimento sindicalista entrou em conflito com o sistema na França, Espanha, Itália, Estados Unidos, Rússia e até mesmo na Inglaterra, os aspectos positivos da ação direta começaram a assumir as mesmas funções dos atos de propaganda pela ação. Então, quando Gandhi começou a descrever como ação direta o que era na verdade uma forma não-violenta de desobediência civil, os três tipos de ação acabaram por se confundir, adquirindo um significado mais ou menos único, quando passaram a designar qualquer forma de atividade pública que fosse contra a lei ou de qualquer forma que contrariasse as regras aceitas pela etiqueta constitucional.

Para a maior parte dos anarquistas, entretanto, a ação direta ainda conserva seu significado original, embora, a par de formas tradicionais, tenha adquirido outras – tais como a invasão de bases militares, ocupação de universidades, casas particulares ou fábricas. O que a torna tão atraente aos olhos dos anarquistas é a sua coerência com os princípios libertários e consigo própria.

Quase todas as formas de ação política executadas por grupos de oposição têm como objetivo principal a obtenção do poder. E, embora determinados grupos utilizem a técnica da ação direta para atingir seus objetivos, tão logo o obtêm, não apenas abandonam a ação direta como até impedem qualquer outro grupo de lançar mão desta técnica. Os anarquistas estão sempre a favor da ação direta, em qualquer circunstância, encarando-a como uma ação normal, que reforça a si mesma e ganha força à medida em que é utilizada, sendo o tipo de ação que pode ser usada para criar ou manter uma sociedade livre.

Mas há certos anarquistas que não acreditam na possibilidade de criar uma sociedade livre e que agem de acordo com essa descrença. Uma das mais fortes tendências pessimistas que existem dentro do movimento anarquista é o niilismo. Niilismo foi uma palavra criada por Turguenev (em seu livro Pais e filhos) para descrever a atitude cética e desdenhosa dos jovens populistas russos do século passado, mas que desde então passou a designar também uma visão que nega qualquer valor não apenas ao Estado, à moral vigente, mas à sociedade e à própria humanidade. Para o niilismo convicto nada tem valor, inclusive ele próprio – assim, o niilismo nada mais é do que um passo além do mais absoluto egoísmo.

Uma forma extrema de ação inspirada no niilismo é o terrorismo gratuito, usado não como uma forma de vingança ou propaganda, mas gratuitamente. Embora os anarquistas não detenham o monopólio do terror, ele às vezes passou a ser moda em algumas sessões do movimento. Depois da frustrante experiência de pregar uma teoria minoritária para uma sociedade hostil e muitas vezes indiferente, é sem dúvida tentador atacá-la fisicamente. Tal ação pode não atenuar a hostilidade, mas certamente acabará com a indiferença; “odeiem-me, contanto que me temam!” parece ser o raciocínio do terrorista. Mas se o assassinato racional tornou-se improdutivo, o terror gratuito demonstrou ser contraproducente e não seria demais afirmar que nada prejudicou tanto o anarquismo quanto esse traço de violência psicopata que sempre existiu e ainda existe nele.

Uma forma mais suave de ação inspirada no niilismo é a boemia, que tem sido um fenômeno constante, embora o nome pareça mudar a cada nova manifestação. Este também se tornou moda em algumas sessões do movimento anarquista e, é claro, também fora dele. Em vez de atacar a sociedade, o boêmio sai fora dela – embora mesmo que viva indiferente aos valores da sociedade, ele continue a viver nela e dela. Há uma série de tolices sobre essa tendência: é verdade que os boêmios podem ser considerados parasitas, mas isso também pode ser dito de muitos outros indivíduos. Por outro lado, eles não fazem mal a ninguém, exceto a si próprios. O melhor que se poderia dizer deles é que podem fazer algum bem enquanto se divertem e desafiam os valores vigentes de uma forma ostensiva mas inofensiva. E o pior é que eles não têm condições de provocar qualquer mudança real na sociedade e gastam, na vida boêmia, as energias necessárias à tarefa reformista que, para a maioria dos anarquistas, é a razão de ser do anarquismo.

Uma forma mais coerente e construtiva de sair fora da sociedade e abandoná-la é criar um novo modelo de comunidade independente. este tem sido um fenômeno bastante comum entre os fanáticos religiosos da Idade Média, por exemplo, e entre vários grupos de pessoas das mais variadas classes, especialmente nos Estados Unidos e, naturalmente, na Palestina. No passado, os anarquistas se deixaram influenciar por esta tendência, mas isso já não acontece com freqüência em nossos dias. Tal como acontece em outros grupos de esquerda, é mais provável que forme uma comunidade informal, integrada por um grupo de pessoas que vivem e trabalham juntas dentro da sociedade do que fora dela. Podemos ver neste tipo de agrupamento a semente de uma nova forma de sociedade crescendo dentro das velhas formas, ou ainda, como um modelo viável para fugir às exigências da autoridade que pode ser aceita pelas pessoas comuns.

Uma outra forma de ação, que tem sua origem numa visão pessimista das perspectivas do anarquismo, é o protesto permanente. De acordo com este ponto de vista, não há qualquer esperança de que se possa mudar a sociedade, destruir o sistema de governo ou de colocar em prática o anarquismo. O mais importante não é o futuro, a rigorosa fidelidade a um ideal imutável, a elaboração cuidadosa de uma bela utopia, mas o presente, o reconhecimento tardio de uma realidade amarga e a resistência constante a uma situação terrível. O protesto permanente é a teoria de muitos ex-anarquistas que não abandonaram suas crenças mas já não têm esperanças de sucesso; é também a prática de muitos anarquistas na ativa que ainda mantém intactas as suas crenças e prosseguem como se ainda esperassem vencer, embora saibam – consciente ou inconscientemente – que nunca alcançarão a vitória. Quando examinados em retrospecto, poderíamos afirmar que, durante este último século, a maior parte dos anarquistas esteve envolvida no que se poderia chamar de protesto permanente; mas seria tão dogmático afirmar que as coisas jamais mudarão quanto garantir que elas poderão mudar um dia, e ninguém pode adivinhar quando o protesto poderá tornar-se eficiente e o presente transformar-se, de repente, no futuro.

A única diferença é que o protesto permanente é visto como uma ação de retaguarda de uma causa sem esperança, enquanto que a maior parte da atividade anarquista é considerada como uma ação de vanguarda ou, pelo menos, como uma sentinela avançada numa batalha que talvez jamais será ganha, e que talvez nunca se acabe mas que, ainda assim, vale a pena combater.

As melhores táticas que se poderia utilizar nesta guerra são aquelas coerentes com a estratégia geral da guerra pela liberdade e pela igualdade, e que incluem desde as escaramuças guerrilheiras da nossa vida pessoal até as batalhas declaradas das grandes campanhas sociais. Os anarquistas constituem quase sempre uma pequena minoria, e assim dificilmente têm condições de escolher o campo de batalha, mas devem lutar onde as coisas estão acontecendo. Em geral têm tido mais sucesso naquelas ocasiões em que a agitação anarquista culminou com a participação de anarquistas em movimentos mais amplos – especialmente em movimentos trabalhistas, mas também em campanhas anti-militaristas, e até mesmo pacifistas, em países que se preparavam para a guerra ou já lutavam; em movimentos anti-clericais e humanistas nos países relgiosos, ou em movimentos que lutavam pela libertação nacional ou colonial, pela igualdade sexual ou racial; pela reforma legal ou penal, ou pelas liberdades civis em geral.

Este tipo de participação implica, fatalmente, uma aliança com grupos não-anarquistas e algum comprometimento dos princípios anarquistas; e todos os anarquistas que se envolvem neste tipo de ação correm sempre o risco de abandonar de vez a causa. Por outro lado, a recusa em assumir tal risco geralmente significa esterilidade e sectarismo, e a tendência do movimento anarquista é de exercer alguma influência apenas quando se entrega totalmente.

Nessas ocasiões, a contribuição particular do anarquismo tem assumido dois aspectos: primeiro, dar maior ênfase ao objetivo a ser atingido: uma sociedade libertária; segundo, insistir para que esse objetivo seja atingido através de métodos libertários. Esta é, na verdade, uma contribuição única pois a conclusão a que podemos chegar não é apenas a de que os fins justificam os meios, mas a de que os meios determinam os fins – os meios são o fim, na maioria dos casos. Podemos estar certos das ações que praticamos, mas não das suas conseqüências.

Uma boa oportunidade que é dada aos anarquistas para que levem a sociedade ao anarquismo parece ser a participação ativa, dentro dessa linhas de ação, em movimentos não-sectários tais como o Comitê dos Cem, na Inglaterra; o Movimento 22 de Março, na França; o Zengakuren, no Japão; e os vários grupos que lutam pelos direitos civis, na resistência ao recrutamento militar obrigatório, e para que seja concedido mais poder aos estudantes dos Estados Unidos. Nos velhos tempos, a maior oportunidade para um crescimento realmente substancial dos movimentos anarquistas estava nos episódios de sindicalismo militante que ocorriam na França, Espanha, Itália, Estados Unidos e Rússia e, sobretudo, nas Revoluções da Rússia e Espanha. Hoje isso já não acontece, tanto nas violentas revoluções da Ásia, África e América do Sul, como em levantes e insurreições como as da Hungria em 1956 e da França em 1968 – e na Inglaterra, quando?

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Referência da fonte: WALTER, Nicolas. Ação anarquista. In: WOODCOCK, George. Os grandes escritos anarquistas, 2 ed. Tradução de Júlia Tettamanzi e Betina Becker. Porto Alegre: L & PM Editores, 1981, pág. 155-60.

Referência a esta cópia: WALTER, Nicolas. Ação anarquista. citado por CONTRA OS REIS E AS RELIGIÕES. Disponível em <http://semsenhores.wordpress.com/2008/01/11/acao-anarquista>. Acesso em data do acesso.

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